'...
Sim, pode-se estabelecer o paradoxo, que também aquela outra coisa, ou seja, a matéria que, ao lado das forças naturais, permanece intocada pela mudança contínua dos estados no fio da causalidade, assegura-nos mediante sua constância absoluta uma indestrutibilidade, em virtude da qual quem não é capaz de conceber nenhuma outra poderia ao menos se consolar com uma IMORTABILIDADE certa. "Como?", dir-se-á "o perdurar do mero pó, da matéria bruta, deveria ser visto como uma continuação do nosso ser?" - Oh! Conheceis então esse pó? Sabeis o que ele é e o que pode? Aprendei a conhecê-lo, antes de disprezá-lo. Essa matéria, que agora está aí como pó e cinza, se dissolvida na água, logo se consolidará como cristal, brilhará como metal, soltará faíscas elétricas, exteriorizará mediante sua tensão galvânica uma força que, desfazendo a mais firme ligação, reduz terra a metal: sim, ela se transfigurará por si mesma em planta e animal e desenvolverá, a partir do seu ventre pleno de mistério, aquela vida, diante de cuja perda, e, vossa limitação, vos inquietais tão angustiosamente. Então, é de todo nulo continuar como uma tal matéria? Eu afirmo com seriedade que mesmo essa permanência da matéria, testemunha a favor da indestrutibilidade de nosso ser verdadeiro, mesmo se apenas em imagens e alegorias, ou, antes, apenas em silhueta.
...'
Arthur Schopenhauer
(Metafísica da morte)
Homenagem à Adrien
"Não temeis a morte, pois, enquanto você é, ela não existe; e quando ela existe, você deixa de ser."
Concordo para quem não é mais.
Discordo para quem fica.
Pensamentos vêm, pensamentos vão, mas é difícil [porém, nada impossível] de se chegar numa profundidade lógica e filosófica que Schopenhauer chega. Simplesmente fantástico! Fenomenal.
Ignora-se a ida ao inferno ou ao céu por um instante. Ignora-se o benefício ou o malefício que fará você para a sociedade no futuro, quando você não mais existir. Falemos agora de corpo, de carne.
"O perdurar do mero pó, da matéria bruta, deveria ser visto como uma continuação do nosso ser?"
"Essa matéria, que agora está aí como pó e cinza, se dissolvida na água, logo se consolidará como cristal, brilhará como metal, soltará faíscas elétricas, exteriorizará mediante sua tensão galvânica uma força que, desfazendo a mais firme ligação, reduz terra a metal."
Todos sabemos, ou pelo menos deveríamos saber, que o papel leva uns 5 meses para se deteriorar, o plástico, mais de 100 anos, o vidro, mais de 1 milhão de anos e assim por diante. E qualquer material, de um lagarto a um pedaço de borracha, um dia se deteriora e volta para os braços da mãe natureza em sua totalidade de matéria.
Mas porque nunca discutimos sobre a deterioração de nossa carne? Porque seu professorzinho de ciências nunca discutiu para onde vai seu corpo depois do seu último dia? Ou você ainda pensa que daqui há três bilhões de anos ele ainda estará guardado, são e salvo naquela caixa de madeira?
Pensando friamente e deixando de lado qualquer crença, nosso corpo é tão matéria quanto qualquer outro. De um chimpanzé a uma lagartixa. Simplesmente assim.
E depois de deteriorado? Ah. Isso nós já sabemos. Quando deteriorado, esse papel, vidro, alumínio, se infiltra na terra e volta ao ventre da grande mãe, sendo devolvido um dia, na forma de sal, petróleo, pedra, terra, uma faísca, um cristal etc.
Olhe a sua volta. Vai, olhe.
Esse telefone à sua frente pode ser a síntese de alguns bilhões de corpos que faleceram há alguns bilhões de anos. Esse mouse sobre sua mão deve ter parte do cérebro de um dinossauro, de uma alga, ou de alguma coisa que já viu, sentiu, e fez há alguns trilhões de anos...
Carne humana? Essa aí se deteriora muito mais fácil (uns até se deterioram enquanto vivos, mas isso é outro assunto)... e daqui algumas centenas de anos, você voltará como matéria-prima para a construção de uma nova fase.
Matéria prima mesmo. Parafraseio Schopenhauer:
"Essa matéria, que agora está aí como pó e cinza, se dissolvida na água, logo se consolidará como cristal, brilhará como metal, soltará faíscas elétricas, exteriorizará mediante sua tensão galvânica uma força que, desfazendo a mais firme ligação, reduz terra a metal."
Esse pensamento me faz crer na imortalidade de nosso ser, e não mais penso na futilidade que poderia ser a vida. Viver por viver, fazer por fazer, amar por amar - já que um dia tudo não será mais (!) -
Se for para viver, vou viver da forma mais intensa que puder. Vou acordar cedo, vou fazer rapel, vou suar, vou cair, vou me machucar, vou ligar, vou sentir, vou pensar, não vou pensar, vou ler um livro útil, vou me inscrever num curso inútil, vou rir, vou chorar.
Se for para fazer, vou simplesmente fazer. Elimino todas e quaisquer dificuldades; troco-as por vontade e faço. Simplesmente faço. A chuva não me atrapalha mais. O carro quebrado não me impede de ir se ainda houver ônibus. O ônibus quebrado não me impede de ir se ainda houverem pernas. A perna quebrada não me impede de ir se ainda houver vontade.
A vontade me move e aniquila minha preguiça. Se quero, faço. Não choro mais porque estragaram o que eu fiz. Vou e refaço.
Se for para me apaixonar, me apaixono e extrapolo meus sentimentos às últimas conseqüências. Me declaro publicamente, faço surpresas [me surpreendo], corro, pego, beijo. Sou sagitariano nato e romantismo é meu forte. Não vou mais esconder sentimentos pra não sufocá-la de paixão. Vou me apaixonar cada vez mais e esperar o futuro me dizer se essa paixão deveria estar em meu caminho, e não se eu me falsifiquei o suficiente para me encaixar no caminho dela. E se estiver,...;
Se for para amar, vou amar com todo meu coração. Quero ter enfarto logo. Mas não tão logo que não possa amar o suficiente.
Quero continuar tendo dores de estômago que nada mais são que meu coração batendo tão forte que parece querer furar meu peito. Porém não quero dúvidas. Preciso de certezas. Read my mind and gimme what I need.
Quero amar ainda mais o que eu puder viver, fazer e me apaixonar com vontade. Quero ser cada vez mais paradoxal e não ter um fim certo [não para a mesma lógica]. Quero que meu caminho seja trilhado onde nunca ninguém pisou. E quero trilhar a quatro passos fundos e a milhares e milhares de superficiais vindo atrás.
E não quero ser, estar e fazer tudo isso por querer. Não!
Eu quero e farei para não me deteriorar e me transformar em petróleo que será usado pra fazer um porta-copos de luxo. Ahh não! O que eu não vou ser é um porta-copos. Nunca!
Eu serei no mínimo um diamante. O mais brilhante dos brilhantes. A mais rara das pedras. A que mais reluz.
E você, não aceito que você seja menos que ouro. Com todos os quilates possíveis e imagináveis. Raro. Precioso.
E nós, obviamente no mesmo anel. E simplesmente a fim de que continuemos juntos, no mínimo, por alguns milhares de segundos na eternidade.
O infinito? Adrien Marie Legendre explica:
"
Longe ao norte, há uma rocha com 1km de altura, 1km de largura e 1km de profundidade.
De mil em mil anos, vai a essa rocha um pássaro e nela dá uma única bicada.
Quando a rocha estiver extinta por completo, terá se passado 1 segundo na eternidade.
"
Pra sempre vou te amar.