terça-feira, 27 de maio de 2008
Debaixo do chapéu
Aquilo que um dia foi real pra mim
Sozinha me questiono a cada dia mais
por que o seu desprezo me machuca assim
Debaixo do chapéu não posso mais sentir
O gosto do seu beijo que foi sempre meu
E o tempo, tão sagrado, que te fez partir
Apaga, lentamente, aquele gosto seu
Debaixo do chapéu, onde falta vida
Faltam os olhares, sobra solidão
Mas algo que não deixa abrir mais a ferida
É saber que aquilo tudo foi mera ilusão
Ah.
Esse que você insiste em dizer que é apenas uma blusa qualquer.
Faz a minha cabeça voar. E voa mais do que esse lençol qualquer que me desliza sobre o seu peito.
Ah, essa fonte de mel escorrendo o seu doce.
Essa que você tenta me convencer que são apenas seus lábios sorrindo para mim.
Faz a minha boca salivar. E salivo mais do que essa fonte de mim escorrendo sobre você.
Ah, esse perfume que cheira você.
Esse que você diz que é apenas sabonete líquido sobre a sua pele molhada.
Faz o meu corpo derreter. E derreto mais do que este perfume de mim que molha você.
Ah, você em mim.
Que me escorrego enquanto você.
Que me saliva sobre você.
Que me derrete por você.
Ah, esse eu em você.
Ah.
Arma branca
- Fique tranquilo. É arma branca, príncipe. Machuca, mas não mata.
- Paixão, pode tirar a camisa, por favor?
- Vai um pouco mais para trás, doçura. Isso.
- Toma esta caneta. Desenhe um alvo aí no peito.
- No lado direito, não. No esquerdo, docinho.
- Ok. Tá bem visível assim.
- Cadê o arco? Ah, está aqui. Com as flechas.
- Hummm. Afiaram as pontas? Melhor ainda.
- Olha pra frente, meu amor.
- Isso. Estufa o peito para a naná ver melhor.
- Deixa eu ver aqui. Hmm, esta mira está perfeita.
Olho para você e te mando um beijo.
Olho para o seu peito. Puxo a fleha, aponto
e solto.
Viro-me e caminho na direção contrária ao seu corpo caído.
Dou um leve sorriso e sussurro:
- É arma branca, príncipe. Machuca, mas não mata.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Olá, estranha. (Versão realista)
Esta carta é para você. Ainda não te conheço e nem você a mim, mas o nosso caminho já está traçado. Provavelmente o destino se encarregará de nos colocar no mesmo bar, na mesma fila, ou sei lá onde. Mas ele sabe direitinho onde iremos nos conhecer. Nossos olhares se cruzarão, um dos dois abrirá um sorriso involuntário e o outro não vai consegir ficar mais sério. Vamos trocar poucas palavras, telefones e logo estaremos almoçando juntos ou, talvez, almoçando. Café da manhã, não. Isso vai ficar para depois. Talvez na cama, bem de manhã. Vamos nos encontrar algumas vezes e fingir que foi por acaso e vamos nos ver muitas outras vezes bem de propósito. Aí virá a paixão. Não vamos querer nos desgrudar, vamos nos ligar todos os dias, vamos só pensar em nós. Apenas em nós dois. Ah, quase que eu me esqueço! Vamos fazer juras de amor e planejar nosso futuro, também. Vamos nos deitar na grama, olhar para as estrelas e escolher o nome de nossos filhos, passarinhos e cachorros. Vai ser tão bom ficar com você. Depois vamos nos amar muito e o amor vai passar a existir como nunca existiu. Vamos jurar que sabemos o que é o amor. E vamos jurar que nunca iremos nos separar. Aí a paixão irá embora e curtiremos apenas o amor e o carinho que ficou. Aí, depois, o carinho também irá embora e falaremos para todo mundo que só o amor ficou. Aí, bem depois, quando o amor também for embora, diremos que, talvez, exista ainda respeito, consideração. Mas mesmo com respeito, vamos nos separar. E aquela dorzinha no estômago que apareceu no primeiro dia irá voltar mais forte. Mas não vai ser uma dor boa. Vai ser uma dor bem no fundo. Então, eu vou pensar em você todos os dias e certamente irei sofrer sozinho. Aí eu vou querer nunca ter te conhecido, nunca ter ido naquele bar, fila, ou sei lá onde. Aí eu vou ficar bastante triste e depois de bastante tempo vai passar. Não vou mais sofrer. Mas o destino vai se encarregar de me apresentar você, nova estranha. Olá, nova estranha. Esta carta é para você. Ainda não te conheço e nem você a mim, mas o nosso caminho já está traçado. Provavelmente o destino se encarregará de nos colocar no mesmo bar, na mesma fila, ou sei lá onde. Mas ele sabe direitinho onde iremos nos conhecer.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
terça-feira, 6 de maio de 2008
Eu voltei
Lugar, que juntos, aprendemos a descobrir.
Revirei os detalhes, andei naqueles lugares que andamos e andamos e andamos.
Mas lá, você não estava.
Voltei aos meus sonhos.
Lugar que você morou por muito tempo.
Revirei cada pedaço de meus pensamentos, cada espaço de minhas ilusões.
Mas lá, você não estava, também.
Voltei, então, ao nosso último quarto.
Lugar que compartilhamos todos os nossos segredos.
Revirei as cobertas, analisei cada quadro daquela parede.
Mas lá, não tinha mais nada.
Quase cansado de tanto procurar, resolvi ao meu coração voltar.
Voltei, então, ao meu coração.
Lugar que pensava que você nunca estaria.
Lugar que pensava nunca ser sua final moradia.
E lá estava você, ocupando quase a totalidade.
Sorrindo, abriu os braços e disse: Que bom que você voltou.
- Eu voltei.
domingo, 4 de maio de 2008
Desejo
- Tira meu sapato, tira.
Olhei para ela com aquela cara que ela já conhecia, e tirei.
- Agora tira a minha blusa, vai.
Não hesitei. Com toda a minha força, fiz o que ela ordenou.
- Agora tira minha saia, tira.
Continuei obedecendo.
- Só falta a calcinha e meu sutiã. Tira, rápido.
Pronto. Tirei tudo.
- Tirou tudo? A mala está vazia? Então coloca as suas coisas aí dentro e vai embora, seu filho da puta.
sábado, 3 de maio de 2008
Copo de água. parte 2.
Ela: - Você é bom, fazer o quê? Seus textos são perfeitos! Mas não é para se gabar.
Ele: - Não dá para não se gabar. Ainda mais com um elogio desses. Me dá um tema e eu escrevo um texto para você.
- Ai, adoro isso. Deixe-me pensar. Copo de água.
- Copo de água? Simples, né? Torna tudo mais complicado. Adoro.
- Eu sei que você gosta.
- Vamos misturar? Acho que vai dar samba. O que é a coisa mais insana, nojenta e deplorável para você?
- Mais insana, nojenta e deplorável? hum.... Que tal pensar nas coisas que geralmente as pessoas só têm coragem de fazer sozinhas, muito bem trancadas em um quarto?
- E se fosse algo que você só tem coragem de fazer sozinha trancada em um quarto? Acho que seria bem mais insano, não?
- Tonto.
- Acho que você está com medo.
- Não estou com medo.
- Pegou na ferida, é? Adoraria escrever sobre uma loucura sua.
- Ferida? não. Uma loucura minha? Por que você não me diz qual loucura minha que você imagina?
- Ah, não. Aí só teria graça para mim. Vai, vamos brincar. Vai ser bem interessante.
- Brincar? Você é quem vai se divertir.
- Última tentativa. O que é que você não conta para ninguém?
- O que eu não conto pode fazer com que as pessoas deixem de crer que sou uma anjinha.
- Anjinha, claro. Com auréola e tudo mais.
- Só me faltam as asas, pois a cara eu já tenho.
- Faz-me rir.
- Adoro fazer as pessoas rirem.
Despediram-se como de costume. Ela se levantou e lentamente se dirigiu ao carro. Ela sabia como provocar suspiros. Do manobrista ao dono do bar. Olhou no espelho e retocou sua maquiagem. Mas depois se arrependeu; estava voltando para casa.
Ele resolveu ficar mais dez minutos no bar. Pediu outra caipirinha e saboreou gota por gota, sem pressa.
Ela chegou cedo em casa. Quase 21h30. Ainda no escuro, trancada em seu quarto, ligou seu computador e iniciou sua maior paixão: Escrever. Escreveu sobre a vida, seus amores, escreveu sobre o amor. Escreveu como via o mundo e como amava a natureza. Escreveu sobre sua mente limpa e seu doce olhar. Escreveu sobre suas paixões eternas, também. Escreveu.
Mais tarde, depois de tudo escrito, caiu em um choro desesperador. Correu para o banheiro e vomitou compulsivamente.
Vomitava por tantas e tantas mentiras escritas. Talvez, a coisa mais insana, nojenta e deplorável para ela fosse sua própria vida, que, através de textos inventados, tentava modificá-la de algum jeito. Daí o medo de contar qualquer detalhe para um estranho.
Limpou sua boca suja de vermelho e amarelo na toalha seca e voltou ao computador.
Olhou para a tela, releu seus textos, e gargalhou. Gargalhava como uma criança de três anos ou como uma velha de sessenta e três que vê a vida passar por sua mente em segundos.
Gargalhou, mas só deu aquela piscadinha depois de beber um copo de água gelada.
Ele, olhou para o copo quase terminado, mordeu um limão e disse:
- Garçon, traz mais uma.
Simplesmente não
Não pense em um avião.
Viu? Qual foi a primeira coisa em que você pensou? Em um avião!
Com ou sem neurociência, já está decidido:
Simplesmente não
De hoje em diante,
Não quero mais você.
Não quero que volte para mim.
Não quero que me ame.
Não quero que pense em mim.
Não quero que me queira.
Não quero seu amor.
Nao quero que me faça feliz.
Não quero te fazer feliz.
Simplesmente não quero.
Simplesmente, não.