terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Boa noite

O sono bate profundo. A sensação de poder abrir a janela e voar pairava sobre seus olhos cansados e quase lacrimejantes. O vento frio de um ventilador em cima de uma cadeira o irritava mais que qualquer outra coisa.
21:59 no relógio. Um telefone à sua direita, uma garrafa vazia à esquerda, uma leve dor no pescoço.
Tudo que ele queria era alguém para suavemente apertá-lo e, em leves suspiros, dizer-lhes coisas e coisas que o dariam forças para levantar, andar, ir embora e se lembrar que amanhã será tudo igual.

Boa noite.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

A vitrine

O japonês se apaixonou por um manequim de vitrine. Foi no ano passado, lá por fevereiro ou março, não me lembro bem. Acho que foi no começo de fevereiro, quase início do carnaval.

Ele nunca foi daqueles de sair para fazer compra na rua, mas, entre ouvir sua mulher e sair para comprar uma fantasia de Batman para o mais novo, certamente ele optaria pela segunda opção. Como naquele domingo, optou.

- Bom dia, moça. Preciso de uma do Batman, ou Robin. Tanto faz.

Quando a moça retirou a máscara, lentamente descobrindo o rosto bege do manequim, o coração do japonês bateu mais forte. Ele, magicamente, se esqueceu de sua vida e por alguns instantes pensou em largar tudo para viver com o objeto. E foi o que fez. Estava cego de amor.
Não queria mais a máscara do herói. Agora ele era o herói. Tirou um talão de cheque novo, preencheu e levou aquela estátua, opaca, lisa, cheirando a plástico, em seus braços.

Deu banho, fez massagem, contou histórias, abraçou muito e adormeceu com o rosto colado por algumas vezes naquela primeira semana de romance.

A família do japonês entrara em desespero, uma vez que o chefe havia sumido há alguns dias. Só sossegaram depois de sete meses, quando o mesmo foi considerado morto.
Que morto que nada, o japonês estava mais vivo do que nunca morando na rua com sua amada-manequim. Passava creme, dançava e vivia feliz. Ela o entendia quando chorava, ele a entendia quando não queria o beijar.

Meses depois foram viajar e acabaram gostando do lugar. O que deveria ser passeio, virou moradia. Ela era muito paciente. Nunca reclamava do cheiro de cigarro.

Um burburinho, lento, foi escutado por lá:

- Que absurdo! Você viu, Clara?
- Vi sim, Olga. Nunca vi algo tão grotesco em trinta e sete anos de vida.
- Logo logo um hospício bate por aqui.
- Isso me dá ânsia de vômito. Me enjôa toda.

Conversavam Clara e Olga, as duas manequins dentro de uma vitrine, numa loja do centro.

- E ainda mais com esse japonês feio. Que mal gosto.
- Se pelo menos fosse sueco.

Probabilidades

1. Se um juiz se casa com uma advogada, qual a probabilidade de nascer uma pessoa jurídica?
2. Se um mágico se casa com uma mágica, qual a probabilidade de nascer um coelho?
3. Se uma freira se casa com outra freira, qual a probabilidade de adotarem um pingüim?

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A magia de ser quem desejavam ser

A vista da janela de seu escritório dava para o mar, um mar de idéias e lembranças que o faziam pensar. Sentado em sua cadeira, iluminado apenas pela luz dos prédios e ouvindo os carros a passar, com seu copo de suco de melancia na mão e um par de cartas de copas na outra: 3K.

Retirou os pés de cima da mesa, abandonou o suco no parapeito da janela e jogou as cartas para trás. Era tarde da noite e não havia nada entre ele e o som dos seus dedos a dedilhar o teclado de seu computador. Textos da madrugada, os melhores... e após uma conversa com sua futura ex-namorada, ou só futura, ou só ex...ou nada, ele tinha o que pensar.

Escreveu duas palavras e apagou. Tentou de novo e de novo, mas nada queria vingar. Pensou que era besteira deixar palavras que nem o coração entendia em um mero relapso na tela, para que um dia alguém decifrasse as confusões de um órgão tão complicado. Ele bombeia, nos deixa vivos, tão vivos, dono de nossa existência, de nossa morte ou de nossa vida. Por isso ele sabia que precisava do remédio certo. Parou de escrever, pegou o suco e voltou a pensar.

Tentava associar sua vida inteira em um único momento que o tinha mudado por dentro. Pensava em quando era criança, quando começou a faculdade e quando decidiu mudar o rumo de sua vida. Ela sempre estava lá, rondando seus pensamentos. Enquanto lembrava do seu acidente que havia deixado uma cicatriz no olho esquerdo, pensava em seu sorriso, depois desvirtuava sua mente para pensar no trabalho, eis que ela vinha com mais força.

-Droga!

Olhou de nova para a tela do computador em branco, decidiu escrever palavras, sem sentido... exatamente como havia sido sua vida até então, sem ela. Nada saía, escrevia e apagava, seus pensamentos eram atrapalhados por cada pedaço dela.
Parou, olhou para o céu e se permitiu pensar nela... “O que será que ela estaria fazendo?”

Desceu as escadas de sua casa, abriu a geladeira, pegou uma maçã e deitou no sofá. Sua pele, iluminada pelos poucos raios de luz que escapavam da cortina, revelavam um rosto pensativo. Seus olhos estavam fixos no nada, vagavam livres pelas lembranças.

Terminou a maçã, deixou largada pelo chão e subiu, degrau por degrau, imaginando sua vida sem ele. Sentou no computador e dedilhou algumas palavras sem sentido até mesmo para ela. Apagou, espreguiçou-se e colocou as mãos entre o rosto. Olhou novamente a tela do computador e depois ficou horas olhando para o teclado. Não conseguia, a conversa com seu ex, futuro ou nada a havia perturbado demais. Uma lágrima escorreu de seu rosto, limpou rapidamente e colocou uma música que a fazia pensar nele. Deitou na cama, e fitou o teto por horas. Até adormecer...

Do outro lado da cidade, deitado em sua cadeira, deixou o suco derramar no chão, fechou os olhos para um breve descanso antes de voltar para casa.Adormeceu...

Nos seus sonhos se encontravam, do jeito que tinha que ser. Sem erros, sem pretextos, paradoxos ou enredos. Eram apenas eles, embalados pela música que desejavam, no lugar que desejavam, na maneira e tempo necessário.
Eram os textos da madrugada que os mantinham tão pertos e conectados pela magia de ser quem desejavam ser.

Heartatoo

Ele já tinha visto vários tipos de tatuagens. As preto e branco, as coloridas que não saem, as de Henna, que saem no banho, uma tal de Scarnification, queimada na pele, mas esta que descreverei abaixo, o deixou realmente impressionado.

Lançada a pouco tempo, a Heartatoo, é a mais nova sensação dos viciados em novidades. O mecanismo é simples: É inicialmente utilizada uma tinta à base de sangue de coelho. A tatuagem é feita em qualquer lugar do corpo, porém, preferivelmente na parte interna ao pé, onde a abundância de terminações nervosas facilita a absorção da mistura.

Após duas horas, a tinta é absorvida e, através da corrente sanguínea - que no momento precisa estar sendo bombeada com rapidez, digo, violência -, vai direto ao o coração. Depois de alguns dias, a tatuagem pode ser removida do local aplicado. Nem manchas e nem cicatrizes aparecem no lugar, porém, a marca pára e se instala do lado de dentro do coração.

Uma vez feita a heartatoo, popularmente conhecida como marca d'alma, não se pode mais remover, motivo este, que, apenas uma única aplicação foi realizada no Brasil.
A marca não é vista a olho nu, mas é sentida a todo momento e também visualizada em sonhos da pessoa tatuada.

Ela sente apenas um longo fio de cabelo tocando seu lado direito. Vira o rosto, pensa no bolo de chocolate, agora com leite
condensado e mel, e de tênis, saia e camiseta, esboça um leve sorriso, respira fundo...

E dorme, com 'Magic hapeens' em seu sorriso.

Jonas prospera

Mesmo sem saber ler ou escrever, o sonho de Breno era ser palestrante. Desde menino gostava de falar, e falava bonito. Na verdade, só foi pegar gosto pela coisa depois dos 12 anos. Antes disso, era tímido como uma ostra.

Pensava em força, poder, felicidade, quando pensava em palestras, público, palmas. Para ele, era mais que dinheiro, era realização pessoal. Era fama.

Já naquele tempo, era muito comum ver jogadores de futebol, técnicos de voley, remadores, darem palestras, mas, as mais aplaudidas em seu ponto de vista, eram as das pessoas que, de uma forma sofrida, venceram na vida. O miserável que fez um milhão vendendo balas na rua, o pintor, cego, que produzia obras primas, o nadador que venceu a última competição sem uma das pernas. Coisas tristes assim.

Mas ele, Breno, o nosso palestrante, era saudável e nunca foi pobre. Era analfabeto por opção, fugia dos livros, mas não tinha uma infância tão sofrida para contar e, seus únicos desafios, eram pagar a escola dos filhos e sustentar a esposa. Tudo muito normal para ser um palestrante com vida triste e sofrida.

Seu plano foi mirabolante. Resolveu simular um acidente. Algo aparentemente grave que, saindo vivo, estouraria na mídia e poderia contar sua história para milhões de espectadores.
Acordou cedo para o sucesso, fez uma bela refeição matinal e chegou ao local escolhido: Um buraco de mais ou menos 13 metros de altura, num lugar onde passavam duas ou três pessoas por dia, digo, por noite.

Jogando-se, pela manhã, dos 13 metros, e deixando o barro se infiltrar em suas roupas, à noite seria certamente resgatado. A história seria decorada - e inventada -. Passaria por um faminto de 3 dias e 3 noites comendo restos de animais e bebendo sua própria urina. A palestra de sucesso de uma vida triste e sofrida com muitos desafios vencidos estava praticamente pronta.

Fez o sinal da cruz e pulou. O nosso palestrante, coitado, só se esqueceu de consultar a previsão do tempo no jornal. Ah mas como choveu. Choveu durante dois dias consecutivos e as pessoas que passariam, não passaram por lá.

A fome falou mais alto, a dor veio sem dó e o fez comer restos de animais e beber água da chuva com barro. Fez isso por alguns poucos dias. Gritou por socorro durante esse tempo e só parou quando suas cordas vocais se estouraram, deixando nosso palestrante mudo para sempre.

Depois de ser resgatado por Jonas, passou uma semana e meia no hospital e logo, sem ler, escrever e agora, sem falar, nosso palestrante continuou na sua vida injusta que a ele foi dada.

Já o Jonas não!
Jonas, um operário de classe média baixa, sem muitas pretensões de vida, hoje percorre o mundo com a fantástica palestra: O dia em que salvei um miserável da morte.

Jonas prospera.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

A não-virgula.

Sabendo que seu celular não funcionava direito,

Antes, explico:

Dentro de seu quarto, com as portas e janelas fechadas, seu celular nunca funcionou como devia. Após o torpedo ser enviado, era dada uma mensagem de erro: "Não foi possível entregar sua mensagem. Nova tentativa em 5 minutos".
A cada 5 minutos era feita uma nova tentativa. Após 3 ou 4 delas, cerca de 20 minutos depois, a operação era executada com sucesso.

Resumo: Uma mensagem sempre era enviada após 20 minutos. Pronto. Ponto.

Novamente, sabendo que seu celular não funcionava direito, e de acordo com sua engenhosidade e capacidade de pensar, pensou:

- Escrevo o torpedo, a ela me declaro abertamente, sem medos, sem travas, digo por que me matei, tomo meu veneno e terei 20 minutos para morrer. Devo, aproximadamente, morrer em 10 minutos, a mensagem é enviada depois de 10 e tudo funciona como espero.

Feito.
Escreveu tudo aquilo que ninguém teria coragem de escrever. Rasgou seu coração em dois e o traduziu em mensagem de celular.
Enviou.

Como previsto: "Não foi possível entregar sua mensagem. Nova tentativa em 5 minutos".
Levantou-se, abriu a gaveta do meio, despejou no copo branco, colocou um pouco de água para dissolver e bebeu. Dez minutos depois, lá estava ele: Azul na cama.

Mais cinco minutos e a mensagem de erro apitou de novo, à toa, por que não tinha ninguém para notá-la, mas mesmo assim, apitou.

Faltara apenas 5 minutos para a triste mensagem de amor ser enviada, que anunciava os porquês de sua paixão e de seu suicídio.

Em quatro minutos, faltando apenas um, entra no quarto sua irmã, que chocada, aos berros, joga o celular na parede, mudando o destino de uma pessoa

viva!

domingo, 21 de janeiro de 2007

Song

Song

Como uma minhoca

Tudo que ele queria era uma segunda chance.
Não estou falando de uma segunda chance apenas com a namorada. Não apenas com ela.
Ele, com seus vinte e tantos anos achava que tinha se perdido, que não estava mais em sua trilha original.
Muitas besteiras feitas em seu namoro, o fizeram perder o amor de sua vida, muita estupidez em seus antigos empregos o fizeram ter uma carteira de trabalho suja e sem nenhuma boa-indicação, seus carros roubados sem seguro e sua casa à venda o davam toda a certeza de que sua vida não se consertaria mais.

Durante quase cinco anos, foi atrás de novas religiões tentando descobrir o que poderia fazer para ter uma nova chance, uma nova vida. Nos outros 10 próximos anos, percorreu o mundo atrás de ciência e soluções para voltar no tempo.

Perdeu quase 35 anos em busca desenfreada e contínua.
Um dia morreu e Deus decidiu dar-lhe uma nova chance.

E ele voltou. Reencarnado.
Como uma minhoca
.
E ele ressuscitou. Para que, ao invés de procurar voltar ao tempo e mudar o que não poderia ser mudado, ele percorresse outro caminho. Mudasse a direção de sua vida e consertasse os erros do passado. Conquistaria novamente o amor de sua vida e com ela teria forças suficientes para arrumar um bom emprego e conseqüentemente pagar suas dívidas e comprar um novo carro. E assim o fez:
Voltou a namorar, arranjou um emprego e pagou as dívidas. Juntou dinheiro, foi viajar, teve filhos e a partir daí seu destino mudou novamente.
Perdeu o emprego, sua mulher virou um bucho e os filhos viraram traficantes.
Seu fim? Suicídio.

Seu castigo?
Teve uma nova chance: virou mágico.
E, como dizem, todo suicídio é analgésico.

O andarilho

Há tempos ele tinha se acostumado com o cansaço.
Andava, andava, andava, mas parecia que não saía do lugar.
Seu suor, quente e úmido, o fazia esquecer por alguns instantes que andava sobre a neve.
O vilarejo, o único da região, era o objetivo final.
No caminho, longo, seu joelho não era mais o mesmo, assim como suas vistas.
Calos e bolhas faziam parecer que seus sapatos encolhiam. A umidade da neve, esta sim, encolhia seus sapatos.
Horas e horas de caminhada faziam-no, por alguns instantes, fechar os olhos e rezar.
Talvez, um dia, ele perceba que o vilarejo passou há algumas horas e ele não viu porque estava de olhos fechados,

Rezando.

Engenheiro ou administrador?

Qual a lógica da vida? Qual a razão do coração? Qual a razão de se ter um coração? O que nos faz pensar que temos coração? O que nos faz pensar que podemos entendê-los? O que nos faz pensar que podemos entender a nós mesmos? O que nos faz pensar que podemos pensar? Por que a nós foram dados cérebro e coração? Dizem que os macacos-prego não tem cérebro, apenas coração. Então, por que não macacos? Apenas coração, ou então, sem coração. Apenas com cérebro? Algo me diz que não existe um coração de verdade; o que existem são dois cérebros, posicionados estrategicamente a 90 graus um do outro. Perpendiculares. Um, localizado na parte de cima, ao centro, e outro, chamado de coração, localizado mais abaixo, à esquerda. E este pode ser o grande motivo por nossos mais sinceros sofrimentos. Quando um pensa que está certo, o outro não entende o que acontece, quando o outro pensa que está errado, o primeiro o convence que não, quando tentamos explicar o de baixo com o de cima, não achamos respostas, quando tentamos explicar o de cima com o de baixo, não encontramos perguntas.

E quando duas pessoas resolvem se juntar,
Aí são quatro para administrar.

sábado, 20 de janeiro de 2007

You know.

Sabe aquelas árvores, aquelas de lá de onde ninguém vai?
Elas não precisam crescer, mas mesmo assim, crescem. E dão frutos.

Sabe aquelas águas, lá de onde ninguém conhece?
Elas não precisam brilhar às luzes do sol, mas mesmo assim, brilham. E fazem peixes crescer.

Sabe aquelas borboletas, que não são vistas por ninguém?
Elas não precisam voar e alegrar o céu, mas mesmo assim, voam. E alegram.

Sabe aquelas flores, que vivem em meio a bombas e guerras?
Elas não precisam exalar perfume, nem enfeitar a paisagem, mas mesmo assim, exalam e enfeitam.

Sabe aquele amor, que aconteceu um dia?

A imagem perfeita

A foto perfeita.

Exatamente como você sonha,
Exatamente como você é,

Onde você pensa e
com quem você quer.

Encontrei-a esses dias e postar, me decidi.
Para visualizar, clique aqui.

Conquistar o mundo ou viver de sonhos?

sábado, 13 de janeiro de 2007

Aquelas ex-cartas de amor



Atenção: Leia esse texto ouvindo 'Prélude pour piano'.
Para baixar, clique aqui.



Procurava, com pensamento rápido, desesperado e ofegante, em todos os compartimentos alcançados por sua vista naquele cômodo. Aquela vontade nova, desconfortante, urgente e que fazia a pulsação de seu lado direito acelerar, era necessária. Como ele mesmo dizia, todas as vontades são necessárias.

Encontrou, então, empilhadas no lado esquerdo do peito, digo, do armário, as milhares cartas escritas por ela, todas elas de amor, naquelas quentes noites de sol.

Num período tão curto de suas vidas, trocaram cartas e cartas e cartas; todas aquelas, ainda deixavam escorrer perfume, desejo e a paixão pelas palavras marcadas no papel. Naquele momento, algumas apenas foram sentidas, tocadas, outras delas, tiveram seus parágrafos lidos, e as últimas, inteiramente devoradas por seus olhos lentos. Logo, sua mente se volta à idéia original. Recolheu-as e saiu.

Chegou firme, e, ajeitando os papéis sob seu braço, empilhou seus desejos literários ao lado, decidido. Pegava uma a uma e, com uma poesia de um ainda apaixonado, sentia cada dobra, cada textura, cada sabor expresso em letras, e, fechando seu olho esquerdo, amassava, mirava e a atirava ao fogo.

Fez isso com a primeira, segunda, terceira, assim como fez com todas as outras ao longo da tarde.

Em pouco tempo, centenas de pedacinhos de papel viravam cinza e luz. O som que não havia, o ruído da chuva na janela e alguns poucos trovões, faziam parte de uma cena de melancolia de uma tarde escura qualquer.

Ele sofria por cada memória jogada ao fogo...

... ela, sabia que a vida não era de papel. As memórias gravadas na mente e no coração são inesquecíveis, indestrutíveis e impossíveis de se queimar.

(Ainda encolhida, deitada sobre as pernas dele, ela pegava no sono, enquanto era aquecida pelo criminoso fogo da lareira.)

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

domingo, 7 de janeiro de 2007

O gordo

Bateu na porta e soluçou:

- Estava jogado no chão. É seu?

Quase pelado, o gordo atendeu:

- Não, mas gostei do embrulho. Vende?
- É caro.
- Não te perguntei o preço, moleque.
- Compra?
- Compro. Quanto?
- Quarenta.
- Pago setenta.
- Faço por noventa.
- Dou cem.

Leiloaram.

- Feito.

O menino se virou e sumiu pela chuva. O homem fumou mais meio cigarro, mijou e voltou para a cama. Nunca lavava as mãos.

- O que é?
- Não sei. Ganhei agora. É presente.
- Posso abrir?
- Abre.

Deitada, abriu:

- É novo. Tá limpo.
- Deixa eu ver. Limpo tá o seu cérebro. Não vê o que tem?

- Vejo um bloco de papel em branco. Todas as folhas assim, branquinhas. Sem nada.
- Sem nada está a tua alma. Nem imunda está, como de costume. Olha denovo.

- Já te disse, homem. Folhas em branco e um rodapé. Nem capa tem.
- Não vê que é um livro de poesias, crônicas, verdades imaginárias e imaginações reais?

- Voltou a cheirar pó, desgraça?
- Pega uma folha.

- Hã?
- Coloca contra o sol. Vê o quê?

- A sombra das crianças brincando.
- Faz um furo no meio e olha pra lá. Enxerga alguma coisa?

- O vizinho batendo na esposa, e ela ri.
- Passa o papel no pulso, rápido.

- Ai, me cortou!
- Se com uma única folha de papel você viu a sombra de teus filhos, o vizinho espancando a esposa e teu sangue escorrendo pelo pulso, como pode sua ignorância dizer que em centenas dessas não há nada?

E ela sangrou até a morte.
E ele sorria, apertava e beijava as folhas em branco, contidas de infinitas probabilidades e apenas um rodapé.


Cuspiu-lhe na cara, abriu a porta e jogou a chave fora.

sábado, 6 de janeiro de 2007

A delícia da vida, seu presente.

- Nunca tive uma festa de aniversário na vida. Nem surpresa, nem normal. Nunca. Talvez por fazer aniversário em época de férias, talvez ninguém se lembre, ou então, lembram-se mas não façam nada. Não sei.

A menina de cabelos escuros e agora, curtos, desabafava para um amigo de internet, mais precisamente no MSN, enquanto tomava suco de soja de pêssego com bolo de cholate, feito por ela mesma na semana passada.
Seus bolos costumavam ser mais doces que o normal. Não que se excedia no açúcar ou no leite condensado, mas, por causa de algum ingrediente mágico, que nem ela sabia dizer qual.

Neste dia, o bolo não estava tão doce. Talvez o suco de soja quebrara o açúcar, talvez.

Passando perto da menina, seu irmão, quase sem interesse, bateu o olho na tela do computador e viu a palavra "aniversário" em evidência.

- Como é que fui esquecer? Por que não fazer uma festa surpresa pra ela?

Pensaria o rapaz, não fosse sua mente estar viajando em sua ex-namorada. Imaginou:

- Será que ela ainda se lembra de mim enquanto dorme? Será que ainda me ama?

E lembrava.

Na sala de aula, dois dias depois, o irmão encontra um amigo de infância da menina-irmã e acusa:

- Por que vocês nunca fizeram uma festa surpresa pra ela? Ela sempre se preocupa com todos. Por que não este ano?

- É uma idéia. Ela não foi viajar?
- Fala, galera! O professor faltou na primeira aula?
- Não.
- Sim.
- Não faltou?
- Não, digo sim. Faltou. Estava falando com ele.
- Ah. Falavam de quê?
- Da irmã dele. Vamos fazer uma surpresa pra ela.
- Boa idéia, pode deixar que falo com o pessoal.

O rapaz fez alguns telefonemas e marcou um bate-papo para organizar uma surpresa para a menina, que ainda não sabia de nada:

- Amanhã?
- É. Amanhã. Dá tempo, só precisamos nos apressar.
- E quem compra isso?
- Eu compro.
- E aquilo?
- Deixa comigo.
- Te mando um torpedo e a gente vai combinando.

Se eles soubessem que no fim da tarde o irmão esqueceria o celular em casa, eles não teriam mandado a seguinte mensagem:

- "Tudo certo para a festa?"

Ela, sem querer, leu, releu e releu aquela mensagem e não se continha de felicidade. Foi ao cabeleireiro, fez mão, pé, pintou-se e há um dia de seu aniversário, já se encontrava pronta.
Estava tão feliz e radiante que logo seu irmão perceberia que a menina já sabia do plano. Mas ele, inteligente, não desistiu da surpresa.

Já eram seis e pouco da manhã e a menina já estava de pé. Como de costume, arrumou seu quarto, mas, nada costumeiro, arrumou a sala e a cozinha. Tomou café, tomou banho e foi para a faculdade.

Passando por seus amigos:

- Pessoal, vou ao shopping e chego em casa umas oito, viu? Somente oito horas. Riu.

Após rodar treze vezes pelo shopping apenas para passar o tempo, sabendo que todos já deviam estar em sua casa preparando tudo para a festa, olhou no relógio e decidiu ir para a tão esperada surpresa.

Fez o maior barulho possível com o carro, buzinou, viu que todas as luzes estavam apagadas, respirou fundo, deu um leve sorriso e abriu a porta:

-
- ?

Pensou rápido a foi para seu quarto:

-
- ?

Virou-se e abriu a porta da cozinha:

-
- Ninguém?

Seu irmão realmente era um garoto esperto. Como ele sabia que ela já tomara conhecimento da festa surpresa, resolveu cancelar a festa. Assim, ela pensaria que teria a festa e, não tê-la, seria sim, uma grande surpresa.

Ligou a televisão, desligou a luz, deitou e, enquanto seu irmão bebia cachaça com os outros num bar bem próximo, de tênis, saia e camiseta, virou e dormiu.
FIM
- Toc, toc, toc.
- Você não vem jantar?
- Já vou. Estou terminando de ler 'A festa surpresa'. É pra faculdade, sabe? Amanhã tem prova.

Fechou o livro, guardou-o na preteleira acima de sua cama, feita pelo seu pai, ergueu seus braços tentanto se alongar, vestiu os chinelos e abriu a porta da cozinha:

- Surpresaaaaa!

Dezenas de bexigas coloridas, uma faixa feita à mão e um bolo de chocolate com vinte e poucas velinhas enfeitavam aquele lugar cheio de gente sorridente, abraços e beijos.

E eles, sem esperar muitas reações:

- Parabéns pra você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida.
- Mamãe, amo você, disse a pequena para a mamãe-aniversariante.
- Mamãe te ama também. Chorou.

- São sete horas, menina. Vai perder o horário.
- Hã?

Quase teve um treco. Acordou.
Pensou no sonho que acabara de ter e confundia-se com bolos à sua frente, pessoas cantando parabéns, uma menina com seu rosto a chamando de mãe, um livro, tudo numa festa que não aconteceu.

Seus pensamentos cruzavam-se em falso e logo voltou a seu mundo e imaginou se a prova já tinha começado.
Levantou. Olhando para o relógio, apoiou sua mão na parede procurando o livro sob a prateleira.

Não havia prateleira; muito menos livro.
O celular toca:

- "1 new message"

Abriu:

- Tudo certo para a festa?

- Festa? Pensou ela.
Não entendia mais nada. Não conseguia definir o que era sonho do que era real. O que era sua vida e o que era imaginação.

- É normal acontecer. Alguns segundos antes do sono profundo, o cérebro entra num semitranse e não se pode diferenciar certos fatos. Tendemos a tentar tornar real algumas de nossas vontades nos nossos sonhos.

- É normal também termos algumas lembranças que nunca aconteceram, digo, aconteceram, mas apenas em sonhos; nos lembramos do que, uma vez, sonhamos e juramos que aconteceu de verdade!

- Nossa vida é, na verdade, uma mescla de realidade com imaginação. Fantasia com verdade. E esta é a delícia da vida.

Explica Dr. Rubenstein no programa da meia-noite.

E o celular toca novamente. Ela, sonolenta, deitada na cama sobre os lençóis, nem escuta.
E alguém chega bem pertinho de seu ouvido e sussurra:

- Parabéns.

Ela sente apenas um longo fio de cabelo tocando seu lado direito. Vira o rosto, pensa no bolo de chocolate, agora com leite condensado e mel, e de tênis, saia e camiseta, esboça um leve sorriso, respira fundo...

E dorme.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Foto 3x4

No primeiro dia de aula, a professora pediu:

- Para amanhã de manhã, cada um deverá trazer uma foto três por quatro.
- Até que enfim, Joãozinho a compreendeu.


Exclamou

Humberto Correia Neto andava pela calçada do centro de São Paulo. Desapercebido que era o jovem moço, nem viu o grande letreiro azul piscando sobre sua cabeça: "Grava-se o nome na hora, Grava-se o nome na hora".

Não pensou duas vezes:

- Moço, poderia gravar o nome da minha futura?
- Claro. Qual o nome dela?
- Kelly.
- Ok.
- Kelly, Kelly, Kelly, Kelly, Kelly, Kelly, Kelly, Kelly, Kelly, Kelly. Gravado.

- Uau. Que memória, exclamou.

Era uma vez

Era uma vez um mágico.
- Não, não sou eu, Rafael Baltresca. É ficção mesmo.
- Mas você é mágico.

- Eu sei, mas era outro mágico. Juro.

Era um ótimo mágico.
- Tá vendo? Não falei que não era eu?

Era um mágico desiludido com sua vida amorosa.
- Olha... coitado. Desiludido mesmo.

Queria encontrar alguém para a eternidade.
- Esperançoso...

Andou pelos vales e não encontrou.
Andou pelos mares e não encontrou.
Andou pelas montanhas e ainda não encontrou.
Mas quando resolveu andar pela cidade... aí sim encontrou seu amor.

Aí ela quis se casar.
Aí ele sumiu.

Era uma vez um mágico.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

O sonho de um mágico

- Oi.
- Oi.

- Tudo bem?
- Ahã.

- Quente, né?
- É.

- Vem sempre aqui?
- Venho.

- Hmmm.
- Hmm.

- O que você faz?
- Estudo. E você?

- Sou engenheiro.
- Engenheiro? Jura? Engenheiro mesmo? De fazer várias contas?
- Ahã?
- Nossa... que show! Faz uma conta pra mim, faz?
- hmm.
- Ahh faz vai. Por favor! Uma só. Eu adoro engenheiros, sabe... quando eu era criança minha mãe sempre me chamava para ver quando tinha um engenheiro no escritório trabalhando.

- Bom, olha só. Vou resolver um sistema linear de 5 variáveis.
- Wooowww que demais! Faz de novo, vai.
- Não, agora vou fazer uma integral tripla definida de zero à pi.
- Nossa, nunca tinha visto antes. Adorei.

- Oi Lê.
- Ju, você não vai acreditar. Ele é engenheiro!
- Jura? Mesmo? Daqueles de escritório? Nossa... resolve uma equação geométrica pra mim?
- Não, vou fazer algo mais legal. Dá uma olhada: Equação diferencial com derivadas parciais.
- Meeeeeeeeeuuu. Impressionante. Vou ligar pra Fê.
- Fê, você não vai acreditar. Tem um engenheiro aqui com a gente.
- Mesmo?
- Mesmo!
- Já vou praí.

- Ô engenheiro, você sabe integrar equações transcendentes indefinidas?
- Sei sim.
- Ô engenheiro, você conhece aquele engenheiro.. como ele se chama mesmo? aquele do escritório da Paulista.
- Conheço sim. É meu amigo.
- Que fantástico! Ser engenheiro é só hobbie ou você trabalha também?
- Eu também trabalho. rs.
- Além disso, o que você faz?
- Sou mágico.

- Ah, mágico?
- Hmm, tá bom.
- Tenho que ir.
- Tchau.
- Tchau.
- Tchau.

E deixaram o mágico lá.

How do I feel?

Salut!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Esse é o espírito - Jingle bells ROCK!




Esse é o espírito que esperamos para 2007.
Dançar conforme a música e quando explodir o rádio, inventar nosso próprio som.

E se nem som houver...




Esse é o espírito.
Jingle bells ROCK!

Como cachorros

- Já está acordado? ahhh.
- Já. Volta a dormir.
- Hmmm. Tá tão quentinho... vem pra cá, vem.

Mas ele não dava a mínima. Estava pensativo, andando de um lado para o outro naquele quarto apertado. Olhava para a janela. Tentava apreciar a paisagem. Só havia carros passando.
O pouco lençol que a cobria, escorrega rapidamente por seu corpo e cai no chão enquanto ele joga uma bituca de cigarro pela janela, tentando acertar um passarinho. Não consegue.
Ela, só de calcinha, branca, ainda com marcas deixadas por ele em suas costas, nuca e pernas. Corpo esguio. Coxas grossas. Uma tatuagem bem abaixo do cabelo curto. Batido.

Acendendo um cigarro:

- Qual o significado da vida?
- Que foi, paixão?

- Será que alguma coisa tem significado nessa vida? Nós nascemos, vivemos e morremos. Todos sabemos que nossa vida é curta. Pra que tudo isso então?
- Eu já te falei sobre isso. É exatamente o que eu penso, amor. Nós estamos juntos há quase 6 anos. Já brigamos, terminamos, fizemos as pazes, já tivemos filhos, já abortei... para quê? Pra quê tanto sofrimento? Se nós vamos morrer um dia, porque não viver apenas de felicidade, só de curtição? Como se fôssemos cachorros! Porque não fazer o que vier à nossa cabeça, sem regras, sem limites, sem travas?

Ele a pegou pelo pescoço, apertou forte durante quase um minuto, e quando já estava morta, roxa, no chão, fizeram amor durante meia hora. Deu um beijo em sua boca úmida e voltou a dormir.

Ele sempre concordava com ela.
Sempre.