sábado, 6 de janeiro de 2007

A delícia da vida, seu presente.

- Nunca tive uma festa de aniversário na vida. Nem surpresa, nem normal. Nunca. Talvez por fazer aniversário em época de férias, talvez ninguém se lembre, ou então, lembram-se mas não façam nada. Não sei.

A menina de cabelos escuros e agora, curtos, desabafava para um amigo de internet, mais precisamente no MSN, enquanto tomava suco de soja de pêssego com bolo de cholate, feito por ela mesma na semana passada.
Seus bolos costumavam ser mais doces que o normal. Não que se excedia no açúcar ou no leite condensado, mas, por causa de algum ingrediente mágico, que nem ela sabia dizer qual.

Neste dia, o bolo não estava tão doce. Talvez o suco de soja quebrara o açúcar, talvez.

Passando perto da menina, seu irmão, quase sem interesse, bateu o olho na tela do computador e viu a palavra "aniversário" em evidência.

- Como é que fui esquecer? Por que não fazer uma festa surpresa pra ela?

Pensaria o rapaz, não fosse sua mente estar viajando em sua ex-namorada. Imaginou:

- Será que ela ainda se lembra de mim enquanto dorme? Será que ainda me ama?

E lembrava.

Na sala de aula, dois dias depois, o irmão encontra um amigo de infância da menina-irmã e acusa:

- Por que vocês nunca fizeram uma festa surpresa pra ela? Ela sempre se preocupa com todos. Por que não este ano?

- É uma idéia. Ela não foi viajar?
- Fala, galera! O professor faltou na primeira aula?
- Não.
- Sim.
- Não faltou?
- Não, digo sim. Faltou. Estava falando com ele.
- Ah. Falavam de quê?
- Da irmã dele. Vamos fazer uma surpresa pra ela.
- Boa idéia, pode deixar que falo com o pessoal.

O rapaz fez alguns telefonemas e marcou um bate-papo para organizar uma surpresa para a menina, que ainda não sabia de nada:

- Amanhã?
- É. Amanhã. Dá tempo, só precisamos nos apressar.
- E quem compra isso?
- Eu compro.
- E aquilo?
- Deixa comigo.
- Te mando um torpedo e a gente vai combinando.

Se eles soubessem que no fim da tarde o irmão esqueceria o celular em casa, eles não teriam mandado a seguinte mensagem:

- "Tudo certo para a festa?"

Ela, sem querer, leu, releu e releu aquela mensagem e não se continha de felicidade. Foi ao cabeleireiro, fez mão, pé, pintou-se e há um dia de seu aniversário, já se encontrava pronta.
Estava tão feliz e radiante que logo seu irmão perceberia que a menina já sabia do plano. Mas ele, inteligente, não desistiu da surpresa.

Já eram seis e pouco da manhã e a menina já estava de pé. Como de costume, arrumou seu quarto, mas, nada costumeiro, arrumou a sala e a cozinha. Tomou café, tomou banho e foi para a faculdade.

Passando por seus amigos:

- Pessoal, vou ao shopping e chego em casa umas oito, viu? Somente oito horas. Riu.

Após rodar treze vezes pelo shopping apenas para passar o tempo, sabendo que todos já deviam estar em sua casa preparando tudo para a festa, olhou no relógio e decidiu ir para a tão esperada surpresa.

Fez o maior barulho possível com o carro, buzinou, viu que todas as luzes estavam apagadas, respirou fundo, deu um leve sorriso e abriu a porta:

-
- ?

Pensou rápido a foi para seu quarto:

-
- ?

Virou-se e abriu a porta da cozinha:

-
- Ninguém?

Seu irmão realmente era um garoto esperto. Como ele sabia que ela já tomara conhecimento da festa surpresa, resolveu cancelar a festa. Assim, ela pensaria que teria a festa e, não tê-la, seria sim, uma grande surpresa.

Ligou a televisão, desligou a luz, deitou e, enquanto seu irmão bebia cachaça com os outros num bar bem próximo, de tênis, saia e camiseta, virou e dormiu.
FIM
- Toc, toc, toc.
- Você não vem jantar?
- Já vou. Estou terminando de ler 'A festa surpresa'. É pra faculdade, sabe? Amanhã tem prova.

Fechou o livro, guardou-o na preteleira acima de sua cama, feita pelo seu pai, ergueu seus braços tentanto se alongar, vestiu os chinelos e abriu a porta da cozinha:

- Surpresaaaaa!

Dezenas de bexigas coloridas, uma faixa feita à mão e um bolo de chocolate com vinte e poucas velinhas enfeitavam aquele lugar cheio de gente sorridente, abraços e beijos.

E eles, sem esperar muitas reações:

- Parabéns pra você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida.
- Mamãe, amo você, disse a pequena para a mamãe-aniversariante.
- Mamãe te ama também. Chorou.

- São sete horas, menina. Vai perder o horário.
- Hã?

Quase teve um treco. Acordou.
Pensou no sonho que acabara de ter e confundia-se com bolos à sua frente, pessoas cantando parabéns, uma menina com seu rosto a chamando de mãe, um livro, tudo numa festa que não aconteceu.

Seus pensamentos cruzavam-se em falso e logo voltou a seu mundo e imaginou se a prova já tinha começado.
Levantou. Olhando para o relógio, apoiou sua mão na parede procurando o livro sob a prateleira.

Não havia prateleira; muito menos livro.
O celular toca:

- "1 new message"

Abriu:

- Tudo certo para a festa?

- Festa? Pensou ela.
Não entendia mais nada. Não conseguia definir o que era sonho do que era real. O que era sua vida e o que era imaginação.

- É normal acontecer. Alguns segundos antes do sono profundo, o cérebro entra num semitranse e não se pode diferenciar certos fatos. Tendemos a tentar tornar real algumas de nossas vontades nos nossos sonhos.

- É normal também termos algumas lembranças que nunca aconteceram, digo, aconteceram, mas apenas em sonhos; nos lembramos do que, uma vez, sonhamos e juramos que aconteceu de verdade!

- Nossa vida é, na verdade, uma mescla de realidade com imaginação. Fantasia com verdade. E esta é a delícia da vida.

Explica Dr. Rubenstein no programa da meia-noite.

E o celular toca novamente. Ela, sonolenta, deitada na cama sobre os lençóis, nem escuta.
E alguém chega bem pertinho de seu ouvido e sussurra:

- Parabéns.

Ela sente apenas um longo fio de cabelo tocando seu lado direito. Vira o rosto, pensa no bolo de chocolate, agora com leite condensado e mel, e de tênis, saia e camiseta, esboça um leve sorriso, respira fundo...

E dorme.

Nenhum comentário: