quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo!

Tem coisa mais ridícula do que as simpatias de 31 de dezembro? Pule sete ondinhas, coma lentilha, se vista de vermelho, de branco, de amarelo... O pior é que todo mundo entra em um consenso e ai daquele que resolver burlar a regra. Se não tiver azar na vida, no mínimo vai ser amaldiçoado pela própria família.

Neste ano não foi diferente. Estava na casa de uns amigos, esperando o ano novo chegar, comendo pernil, bebendo champagne, jogando conversa fora, quando chega o último casal com um saquinho na mão:

- E aí? O que vocês trouxeram de bom?
- Romã! Pra dar sorte.

- Ahh, não. Isso é o fim. Além de pular ondinhas, ficar vestido que nem um papagaio de branco, verde e amarelo e me entuchar de lentilhas, tenho que comer esse troço?, pergunto.

- Claro que sim. Se você não comer sete caroços de romã, vai se arrepender durante os próximos 365 dias.

Todos os meus amigos concordaram, afinal, estavam com suas respectivas esposas. Como estava sozinho, pude discordar:

- Eu é que não vou comer essa coisa sem gosto. E o que isso tem a ver com sorte ou azar? E nos países que não tem Romã? As pessoas vivem azaradas para sempre?

Minha pergunta foi simplesmente esquecida depois de alguns "me passa o sal?", "tem mais champagne?", "que horas são?". Eu também não me importei muito, mas estava decidido não comer nem um carocinho da fruta da sorte.

Faltavam 10 segundos para a meia noite e meus amigos, uníssonos, cantarolavam dez, nove, oito... todos em uma grande roda, entusiasmados, esperando 2009 chegar... sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um.

- Feliz Ano Novo!

Neste momento, quando os dois ponteiros ficaram lado a lado, eles ficaram também. Cada um virou para o seu par, deu um abraço e se derreteu num beijo cinematográfico.

Todos os casais, sem exceção, em roda, se apertavam sem parar. E eu, sozinho no meio da roda, não tive dúvida: virei para o lado, agarrei, e abocanhei a Romã.

Quem sabe ela não me traga mais sorte no próximo ano novo?

Pra começar 2009 quente!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

E a quadrilha continua...

Carlos amava Dora que amava Lia que amava
Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos
que amava Dora Que amava Rita que amava Dito
que amava Rita que amava Dito que amava Rita
que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro
que amava tanto que amava a filha
que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
que amava toda a quadrilha
que amava toda a quadrilha


domingo, 28 de dezembro de 2008

Idéias que surgem assim

05/07/2006

Os primeiros cacos natelha foram virtuais.
Cósmicos-místicos, sobre: naturais.
Gosto de sangue;

De um lado, caranguejos imorais
Sabor menta-sabor,
mortes neuronais - naturais -.

Do outro, pernas e patas, venenos e baratas,
Gosto do fim, gosto do sim;

Idéias que surgem assim.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Suzana 0:44

A menina era perdida e promíscua. E não sou eu quem diz. Ela própria se denominava assim: Suzi Pró, a promíscua da boca quente e peito caliente. Usava botas pretas brilhantes, calça justíssima (para não falar enfiada na bunda), camada tripla de batom rosa, gloss, perfume embaixo do pé, tatuagem de um pênis ereto nas costas, calcinha asa-delta, marquinha aparecendo e um decote que ia até o umbigo.
Tinha vários namorados. Alguns eram primos, e freqüentar casa de swing era como ir à feira. Lá, todo mundo a conhecia:

- Boa noite, Suzana.
- Olá, Suzi.
- Corte de cabelo novo, Su?
- Suzana.. quanto tempo! Já faz mais de três dias que não nos vemos, não é?

Esta era a vida da nossa Suzana. Namoro de dia, balada à noite, swing na madrugada, duas vodkas pra cá, três caipirinhas pra lá, whisky, champanhe, muitos amigos, dois amantes, namorados e tudo o que uma vida bandida poderia lhe proporcionar.

Mas, como já dizia o sábio, tudo passa. E um dia algo passou pelos olhos da nossa garota Rebelde. Indo tomar um café, às 6h46 da manhã, quando voltava de suas noitadas, Gerson, com um avental branco de tão humilde, chegou à moça:

- Bom dia, Senhora.

Aquilo bastou. Ela sorriu e não conseguiu proferir uma palavra. Era um sentimento tão intenso, verdadeiro e único que ela nem pensou em ter vergonha daqueles trajes malvistos.

Ela estava apaixonada por Gerson que, por um mero capricho da natureza, era um pouco diferente da moça. Gerson era católico praticante, filho de dona Zita, carola e freqüentante assídua da paróquia de Santo Agostinho. Gerson tinha o primeiro grau completo e sonhava em fazer faculdade de medicina. Sonho que já estava guardado na gaveta há mais de dez anos. Trabalhava como atendente naquela padaria há quatro anos. No horário que Suzana saía da noite, ele costumava entrar no serviço. Para o Gerson, 4h30 era hora de pular da cama. Para Suzana, era hora de pular para cama ou, com alguém na cama. Gerson não reclamava da vida. Descansava bem todos os dias. Para acordar neste horário, tinha que ir dormir às 22h, horário que Suzana tomava banho para sair.

Sete meses depois deste primeiro encontro, eles já comemoravam seis meses de namoro apaixonado. Suzana só tinha olhos para Gerson e ele só vivia pela Suzana. Foi bem no começo do namoro quando ela aceitou toda aquela caretice e ingenuidade do menino. E ele, por sua vez, aceitou toda aquela badalação e vida perversa da menina. Todos os preconceitos foram deixados de lado, as armaduras de cada um, os julgamentos que os limitavam de viver uma vida plena, foram jogados ao chão e uma vida voltada para a sociedade foi transformada numa vida voltada apenas aos seus corações.

- Nós vamos nos casar. Já preparei tudo. O local, a igreja, as madrinhas, os padrinhos, o coroinha, meu vestido, a viagem, tudo! Vai ser o dia mais feliz da minha vida.

Suzana contava todos os detalhes do casamento e lua de mel para Edson, enquanto apenas de calcinha, sutiã e com um cigarro na mão subia as escadas do motel. Edson até sentiu um pouco de ciúme na hora, mas logo ficou com vontade de conhecer Gerson, o mais novo integrante da turma. Gerson, por sua vez, dormia e sonhava com os pãezinhos doces que teria de fazer na manhã do dia seguinte. Nem imaginava que estava entrando para a turma...
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Édipo Rei - OIDIPOUS TYRANNOS

Tragédia grega escrita por Sófocles em 427 a.C.

Édipo nasceu em Tebas e era descendente de seu mítico fundador, Cadmos. Seu avô foi Labdacos (o "coxo") e seu pai foi Laios (o "canhoto").

Laios casou-se com Jocasta e teriam sido felizes como reis de Tebas se não fosse um problema: não conseguiam ter filhos. Por essa razão, muito religiosos, foram consultar o Oráculo de Delfos.

No templo, a pitonisa délfica revelou que teriam um filho dentro de pouco tempo, mas que ele estava destinado a matar o pai e casar-se com a mãe.

Eles se alegraram pelo filho. Quando ele nasceu, Laios lembrou-se do oráculo e mandou os servos matarem o bebê.

Levaram-no para uma a floresta, furaram-lhe os pés e o amarraram de ponta cabeça em uma árvore para ser devorado pelos animais selvagens.

Passaram por ali uns pastores de Corinto e o levaram. Deram-no aos reis de Corinto, que também sofriam por não ter um filho. O rei e a rainha adotaram-no como se fosse seu, e lhe deram o nome de Édipo, que quer dizer "pés furados".

Quando cresceu, Édipo começou a sentir-se diferente dos seus concidadãos e foi consultar o Oráculo de Delfos. Aí soube que estava destinado a matar o próprio pai e a casar-se com a mãe. Horrorizado, decidiu não voltar a Corinto, Pegou o carro e foi para bem longe.

Em uma estrada estreita, nas montanhas, encontrou um carro maior na direção contrária. Tentou desviar-se mas os carros acabaram chocando-se de raspão. O cocheiro do outro carro xingou Édipo que, revoltado, o matou. Então o patrão do cocheiro avançou sobre Édipo, que o matou também. E continuou a viagem.

Chegou a Tebas e encontrou a cidade consternada por dois problemas: o rei tinha morrido e um monstro, a Esfinge, estabelecera-se na porta da cidade propondo um enigma. Como ninguém sabia responder, a Esfinge ia matando um por um. Jocasta tinha oferecido sua mão a quem livrasse a cidade desse monstro.

Édipo foi enfrentar a Esfinge. Era um ser estranho, com corpo de leão, patas de boi, asas de águia e rosto humano. Seu enigma: O que é que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três à tarde?

Édipo respondeu que era o homem, porque engatinha quando criança, passa a vida andando sobre dois pés mas,velho, tem que recorrer a uma bengala. A Esfinge matou-se e Édipo, casando-se com Jocasta, tornou-se o rei de Tebas.

Tiveram quatro filhos. Os gêmeos Eteócles e Poliníces, Antígona e Ismênia. Foram felizes durante muitos anos. Mas, depois, uma peste assolou a cidade.

Édipo quis ir consultar Delfos, mas foi aconselhado a chamar Tirésias, um velhinho cego e sábio que vivia em Tebas. Este revelou que a causa era o assassino de Laios, que continuava na cidade. Édipo prometeu prendê-lo e matá-lo, mas o sábio revelou que ele mesmo era o assassino, porque Laios era o dono do carro que ele enfrentara.

Jocasta, envergonhada, suicidou-se. Édipo furou os próprios olhos e renunciou ao trono. Cego, precisou ser guiado por Antígona para ir a Delfos. Aí soube que devia ir a um bosque sagrado, em Colonos, perto de Atenas. Ajudado por Teseu, rei de Atenas, chegou lá. Encontrou um lago, onde tomou banho, e uma caverna, onde penetrou depois de mudar de roupa. Entrou na eternidade.

O mágico do mal - Especial de Natal

Por meu amigo Wagner Spolaor, el gran Rasputin!

Depois do fiasco que foi seu último aniversário - Raquelzinha ainda treme ao lembrar-se do capuz em sua cabeça e seus amigos correndo todos em direção ao microônibus do maldito mágico – a ceia de Natal seria perfeita! Cada minúsculo detlhe preparado a meses, planos A, B e C para quaisquer eventualidades que surgirem e, principalmente, nada daquela peste de mágico.
Dez da noite... Todos começam a chegar para a ceia. Primos do interior em suas roupas bregas, primas da capital com seus cabelos esquisitos e aqueles tios que a cada ano parecem mais bizarros, como se passassem o ano inteiro dentro de um vidro de conservas. Tudo bem. Vale o preço para ter o prazer de mostrar como é boa para organizar festas.
Os pais confiaram em Raquelzinha (agora Raquel... Afinal, já é uma moça!) e agora ela será um sucesso total. Depois do Especial do Roberto Carlos, todos teriam uma surpresa. Roberto canta Emoções, a mulherada chora, os adolescentes sentem ânsia de vômito e, dez minutos depois, todos vão à mesa para saborear o banquete.
Barrigas cheias. Conversas fiadas pela casa. De repente, toca a campainha. É agora! – Raquel pensa satisfeita. A mãe vai atender à porta, os ouvidos da mocinha se aguçam:
- Então, o Seu Pacheco teve um problema lá com o filho bebum dele e não pôde vir, aí a agência me mandou no lugar dele, beleza?
Ai meu Deus! Deu rolo com o Papai Noel! Pelo menos mandaram alguém no lugar dele, tomara que não seja um velho magrela com uma barba de algodão amarelo.
- Ho, ho, ho! Feliz Natal! Venham todos receber seus presentinhos! Ho! Ho! Ho!
Sucesso! A surpresa de Natal! Mas é melhor dar um tempo antes de ir à sala colher os frutos da vitória. Por essa ninguém esperava... Economizei cada centavo da minha mesada, mas vou dar presente pra todo mundo. E vou ficar com o Ibope lá em cima! Hahaha!
Raquel vai lentamente até a sala com seu melhor sorriso no rosto e... NÃO! Olhos azuis, queixo com furinho e as covinhas infernais! É ele!
- O que você está fazendo aqui?!
- Ho! Ho! Ho! Minha filha, eu vim do Pólo Norte trazer os presentinhos de Natal dessa gente bonita!
E cochichando:
- Negócio é o seguinte, o trampo de mágico não virou, a polícia me pegou no grande número do desaparecimento do relógio usando uma bolsinha que eu comprei na Internet (Balbag, tenha a sua você também!). Agora pega esse despertador de R$ 1,99 e deixa eu trabalhar decentemente!
Bom, Raquelzinha (agora ela se sentia uma pirralha de novo) pensou, todo mundo deve ter uma segunda chance. Quem sabe ele se regenera, né?
Virando para comer mais uma rabanada, ela ainda tem tempo de ver o Papai Noel com três cartas de baralho na mão e falando para o tio Valdemir:
- Então, meu senhor, quer apostar seus cinqüenta reais que a carta vermelha não está mais no meio das duas?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O que eu desejo

Um natal repleto de felicidade; Um ano novo de paz para todos;
Um natal com muita alegria; Um ano em que todos os seus sonhos possam se concretizar... e um ano com muita harmonia, paz e amor para toda a sua família.

É o que eu venho desejando há 29 anos. É, todo ano esta ladainha: paz e amor pra família toda, sucesso praquele cara que você odeia, muita saúde praquela safada que você quer ver longe da sua vida e outros tantos hipócritas blábláblás.

Hoje eu só aceito de coração quando me dizem "boas festas". Porque aí sim eu lembro de coisas boas: festas. Com bastante champanhe, muita gente conversando e se divertindo. Este, para mim, é o verdadeiro espírito de natal: parar de trabalhar um pouco e só pensar em diversão.

Hipocrisia à parte, hora de ser solidário, de amar o próximo e de viver em paz, não é no dia 24 de dezembro, à meia-noite, quando o peru está sendo devorado. A hora de harmonia deveria ser naquela hora em que você está no trânsito, leva uma puta fechada e dá vontade de matar o sujeito que nem te viu passar. Hora de paz deveria ser a hora em que você está na balada e um bêbado mexe com a sua mulher. Hora de solidariedade deveria ser em janeiro, fevereiro, março, abril...

O que eu desejo agora? Nada demais. Desejo que a Julia Roberts apareça aqui em casa, nua, no réveillon, ou que a Sandra Bullock faça uma visitinha surpresa a mim na noite de natal, com uma mini saia a lá mamãe noela. É isso o que eu realmente desejo. Porque o que eu disse aí em cima, pode ser mera ilusão. Metade depende da sorte, metade depende de ação.
E no MSN, um amigo completa meu post. Tive que inserir aqui...
"E te digo mais: sempre enchi o cu de sopa de lentilha na virada do ano. Era para estar rico hoje."

domingo, 21 de dezembro de 2008

Seus beijos calientes

Ela era apaixonada por ele há muito tempo. Ele gostava bastante dela, mas não do jeito doente dela.

No último encontro, entre beijos e amassos, sem dó, ele lascou um tapa no lado esquerdo do rosto dela. Antes que ela pudesse reclamar, ele colocou sua mão em sua nuca, puxou seu cabelo e a beijou loucamente. Ela se deliciava com uma mistura de amor e ódio da melhor qualidade.

Dez minutos depois a vontade chegou, e ele, novamente, não hesitou: lascou outro tapa na face esquerda dela.

Uma lágrima caiu, mas ele nem percebeu. Continuou beijando-a sem fôlego, sem pudor, sem se preocupar com o tempo, com nada. E continuaram assim. Para ela, hora aumentava sua paixão, hora desejava que ele nunca tivesse sequer existido.

Poucos minutos depois, suando, e desejando aquela mulher, ele levantou sua mão e já em direção ao seu rosto, ela não agüentou. Segurou a mão dele com fúria. Respirou fundo enquanto seus olhos avermelhavam. Pela primeira vez, ele teve medo daquela moça linda.

E apontando o dedo rígido para ele, ela esbravejou:

- Por favor, bate um pouco do outro lado.

Ele bateu no mesmo lado. Só para ela não ficar mal acostumada.
Sorriu e continuou com seus beijos calientes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

João Motorista

12/12/2008 – 09h16

João era motorista de ambulância do único hospital de Calmênica do Sul – uma cidadezinha minúscula de aproximadamente três mil habitantes. O trabalho era o seu maior motivo de orgulho. O problema é que não tinha trabalho.

Calmênica era uma cidade muito calma. As pessoas, quando bebiam, bebiam com calma. Quando corriam, corriam com calma, e o pior: Quando brigavam, brigavam com calma. Na direção, eram cautelosos também. Paravam no sinal amarelo, só aceleravam depois de cinco segundos de sinal verde, respeitavam o pedestre, eram realmente muito calmos.

Toda esta calmaria, todavia, não deixava nosso João assim tão sereno. Pelo contrário, João andava estressado. Com toda esta calma, não tinham muitos corpos para socorrer em sua ambulância. Muitos, não. Nos últimos 5 meses, ele não tinha sido chamado nem uma única vez.

Foi em sua casa, calma também, que João teve sua primeira grande idéia: eu saio pelas ruas atropelando os pedestres. Jogo na caçamba e encaminho para o hospital. Meu emprego fica garantido e a calma volta para mim.

E assim começou a saga do João em prol de sua calmaria: de manhã, indo para o hospital, João avistou uma senhora atravessando a faixa. Não pensou duas vezes e PUM! Dez minutos depois a velhinha já estava sendo encaminhada ao hospital pelo próprio João. À noite, de volta para casa, um rapaz de bicicleta aparece ao lado da ambulância do João. Nosso amigo não pensou duas vezes: Paft. Deu só aquela viradinha e derrubou o bicicleteiro no chão. Só para não ter perigo do moço se lembrar de algo, João foi para frente e para trás três vezes, até o rapaz perder a consciência.

A coisa estava indo bem. O hospital estava agitado e o emprego de João não mais estava comprometido. Em um mês ele havia mandado quarenta e cinco para o hospital. Em seis meses, quinhentos e trinta. Após dois anos, mais de três mil pessoas já estavam ocupando algum lugar no hospital. Precisamente, três mil quatrocentos e trinta pessoas. Exatamente o número de habitantes de Calmênica do Sul.
Daquele dia em diante, João não tinha mais ninguém para atropelar. Crianças, velhos, moços, moças, católicos, judeus, todas as pessoas da cidade já estavam no hospital. Sabendo disso, o diretor geral do hospital, seu Manoel, não poderia ter outra postura:

- João, não existe mais ninguém na cidade. Agora, seu trabalho é dispensável. Para cortar custos, vou ter que mandar você embora.

João não teve dúvidas: atropelou o seu Manoel.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Jogando dados

(9/12/2008 – 9h25)

Era para ser uma linda história de amor. Desta que faz os homens mais duros se amolecerem e se acabarem em lágrimas no cinema.

Era aproximadamente nove da noite. Ele estava entrando em uma reunião de negócios. Já com a mão na maçaneta, colocando seu primeiro pé na sala, seu telefone tocou. Ele olhou no visor, mas a ligação era privada, oculta. Não sabia quem era:

- Alô.

Falou bem baixinho, para não atrapalhar mais seus colegas. Entrou meio agachado, meio na ponta dos pés, até que ela respondeu:

- Oi.

Apenas no "Oi" dela, em uma fração de segundo, já deu para ver que a chamada não era de negócios.

- Sérgio?

Ele não era Sérgio. E não se lembrava de nenhum Sérgio que poderia estar... bom, o que importa? Ele se virou e foi saindo pela sala, gesticulando com a mão para que as pessoas o aguardassem. A vontade era de simplesmente dizer "Desculpe, não tem nenhum Sérgio aqui. Foi engano.", mas não. Preferiu jogar dados e conhecer o que o destino estava aprontando:

- Olha, não tem nenhum Sérgio aqui, mas eu garanto que sou mais interessante que ele.

Ela riu, demonstrando que não existia um vínculo com o tal de Sérgio que não permitisse as piadas. Primeira jogada: 6 em um dado, 5 no outro.

- Que estranho... acho que eu liguei errado, então.

O tom de sua voz não exprimia nenhuma vontade de desligar. Ela também estava gostando da brincadeira.

- Ligou errado? Claro que não. Você acredita em certo, errado, sorte, azar? Eu, não! Acredito em destino. Todos nascemos com um caminho traçado à lápis. O caminho está lá e as coisas acontecem do jeito que tem que acontecer. Lápis porque é fácil de apagar, reforçar ou reescrever. Você, por exemplo, está com um lápis na mão esquerda e uma borracha na direita. Você pode me dar o seu telefone, reforçar este caminho que ainda é tão suave, ou desligar e apagar uma história que está em suas linhas iniciais...

Não, ele não pensava tudo isso. E nem era tão filosófico ou erudito assim. Ele estava jogando, simplesmente jogando. Agarrou os dados, olhou para ela, e lançou.

- Sua voz é bonita, você fala bonito, deve ser um homem bem inteligente, também. Sinceramente, até que gostei de você, mas eu nem sei quem você é.

Segunda jogada: 5 em um dado, 2 no outro. Havia uma vontade enorme de saber quem possuía aquela voz sensual, inteligente, certeira no que dizia. Por outro lado, ela queria se esquecer de tudo isso. Poderia também ser um bandido, um marginal, um seqüestrador. Com tantas notícias trágicas na TV, era difícil confiar apenas no instinto.

- Vamos fazer assim, disse ele, vou deixar o destino em suas mãos. Se você sentir confiança, ligue-me mais tarde. Se não, simplesmente apague o meu número. Aí conversamos mais um pouco, ok?

Ele deixou os dois dados nas mãos dela, e desligaram os telefones.

Deste dia em diante, durante duas semanas, ele esperava ansiosamente por uma ligação inesperada daquela voz, mas ela nunca mais ligou. Esta pequena história rapidamente virou esquecimento nas mentes daquelas pessoas sortudas que não erraram na jogada, mas não acertaram apenas por não jogar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Amores em vão - Parte 1

- Isso é hora de me ligar, criança?

Vamos por partes. Quem ligou foi Marcelo, 23 anos. Estudante de administração. Descolado, baladeiro e namorador.

Quem atendeu foi Julia, 42 anos. E este era o motivo para chamá-lo de criança. Ela com 42, ele com 23. Julia era empresária, mulher séria, mãe de suas filhas - Jasmim e Ana - e casada com Claudio. Os dois namoravam há um ano. Não Julia e Claudio, mas Julia e Marcelo, seu amante.

Exatamente um ano. Parecia muito mais para quem conhecesse o casal. Foi neste exato dia, há um ano que deram o primeiro beijo:

- Olá, a moça está acompanhada?
- Obrigada pelo moça, mas eu acho que tenho idade para ser sua mãe, não acha?
- Se eu tivesse uma mãe dessas, eu não estaria num bar a essa hora.
- Como você é ridículo. Estou acompanhada, sim. Meu marido está chegando. Se manca e cai fora.
- Você é tão brava como minha mãe. Já estou ficando excitado... vou ficar ali te admirando.

- "Por que só atraio cachorro?", pensou Julia.

Depois de 2 horas estavam os dois atracados na porta do banheiro, enquanto Claudio pagava a conta no bar. Foi assim que tudo começou.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Retrovisor

Era um senhor de, aparentemente, 82 anos. Barba branca, calça cinza, camisa salmão dentro da calça e barriga apertada por fora.

Após as compras, não fez questão de pagar o estacionamento. Deu o ticket para a esposa e ficou esperando dentro do carro.

Ela voltou, entrou no carro e colocou o cinto. Ele quase não se mexeu.
Deu a partida e, lentamente, foi saindo do estacionamento.

Ele tinha um carro grande, bonito, prateado. E eu estava no carro de trás vendo tudo.

Em sua frente, a uns dois metros da calçada, andava um rapaz. Mais tranqüilo que o senhor do carro. Andava e balançava os braços. Eu, de onde estava, o vi. O senhor, não.

Puff! Foi o som que ouvimos.
O senhor quase arrancou o retrovisor de seu carro na bunda do moço. De onde eu estava, avistei três cenas:

O rapaz, xingando o carro prata, a acompanhante do senhor passando um batom e velho esticando o braço e arrumando o espelho automático. Como se nada tivesse acontecido.

Depois de dois dias, a única coisa que o jovem se lembrava é que aquela rua era perigosa;
A senhora que acompanhava o senhor, se lembrava que tinha se esquecido de comprar uma bolsa;
O velho se lembrava que a atendente da loja de celular tinha uma bunda muito gostosa.

E eu, me lembrei de escrever a cena exatamente como eu vi. Salvo algumas pequenas invenções.

- Às vezes, após um final de semana inteiro, com churrascos, bebidas e passeios ao shopping, a única coisa que realmente vale a pena é uma visão de uma bundinha redonda. O resto, nada presta. Pensou.

Don Juan

Saíram os dois amigos para andar de bicicleta:

- Hoje acordei com uma vontade tremenda de fazer uma boa-ação. Uma não, várias. Falou Rodrigo, com o peito estufado.
- Ah, é? haha. Que tipo? Disse Marcelo.

E Rodrigo, tentando andar com a bicicleta em uma roda, freou e, com a mão direita ao alto - apontando para o horizonte - disse:

- Xavecar a mulherada. Fazê-las feliz. Destilar meu mel e exalar paixão nas gatinhas do parque...

O outro, quase gargalhando, não se conteve:

- Haha. Mas desde quando isso é novidade pra você, Don Juan?

- Aí é que está o detalhe, caro amigo. Hoje é o dia das coroas. Mulher com menos de 50 nem vai sentir o meu perfume. Esta manhã os meus olhos são para as tias da terceira idade. Hahahaha.

Um ria se imaginando chegando nas ex-gatinhas. O outro ria da babaquice do amigo sem-noção.
Andavam mais lento que o normal. Um se fazia de garoto-propaganda tentando pedalar de uma forma sensual. O outro mantinha uma certa distância. Perto demais para se divertir com as cenas surreais que o amigo o propiciara; longe o suficiente para não passar vergonha junto dele.

A primeira senhorinha (65) sentiu um bafo quente atrás da orelha, junto da pérola:

- Acho que estou no mar, pois acabei de encontrar uma sereia.

A reação não podia ser outra:

- Socorro! Socorro! Tem um tarado no parque...

Enquanto um não se continha de tanto rir, o outro saía disparado fugindo de um guarda-chuva voador.

- Você ganhou o prêmio máximo! Você e meu ídolo! haha. Aquela tia tinha idade pra ser sua vó! Tu é um sem-noção, mesmo.

- Você não viu nada. Olha pra frente, ali perto do bebedouro.

- O quê? Você vai chegar naquela senhora de amarelo?

- Nah... essa é muito jovem. Vou alegrar o dia daquela de verde (77), sentada no banquinho.

Naquele instante ouviu-se nitidamente um sonoro PUTAQUEOPARIU! E ele foi:

- Estou morrendo de calor... quer tirar a minha blusa?

A senhora olhou para o rapaz e soltou um sorriso que devia estar preso há uns 30 anos:

- Agora mesmo, meu gostoso.

Enquanto a tia abraçava Rodrigo, Marcelo deitava na grama e sentia seu abdômen doer de tanto rir.

Passou menos de 5 minutos e os dois já estavam relembrando os bons momentos, prontos para outra:

- Que tal aquela de costas (54)?

Marcelo até se entusiasmou:

- Não dá pra ver a cara, mas até que é gostosinha, digo, gostosona. Haha.

Agora que você aprendeu, quer ir nessa?

- Tá achando que eu não tenho coragem? Essa tia eu até traço.

Nem relutou. Esfregou a mão na cabeça, ajeitou a camisa, e, bem pertinho da nuca dela, avançou:

- Já treinou bastante, delícia? Vamos fazer um exercício lá em casa, agora?

Ela se arrepiou toda. Olhou lentamente para trás e disse:

- Filho?

- Mãe?

Depois de dez minutos já estava tudo resolvido. Mãe é mãe, sabe? Elas foram feitas para entender as idiotices dos seus filhos.

No caminho de volta, os dois quase não conversaram. Não por mágoa ou coisa assim, mas eles tinham a cabeça cheia de coisas pra ficar pensando. Rodrigo levava um suave sorriso no rosto. A idéia das coroas tinha sido melhor que sua expectativa inicial.

Já Marcelo pedalava com um ar pensativo. Ainda continuava excitado pensando na mãe.

sábado, 27 de setembro de 2008

Felicidade

Felicidade é tomar sopa da minha mãe depois da meia noite;
Com queijo ralado e pãozinho picado;
É ficar mais cinco minutinhos embaixo da cama;
É adorar o trabalho que se tem;
Ou é não ver a hora de mudar de emprego.
Felicidade é nadar de manhã cedinho;
É jogar poker com os amigos aos domingos;
É ter namorada e ficar pensando nela o dia todo;
Ou é não ter ninguém. E ficar pensando como será o futuro amor.
Felicidade é estar rodeado de amigos;
É tomar caipirinha de limão;
De uva,
De abacate. De abacate?
Felicidade é se jogar na cama de barriga pra baixo;
É curtir um monte de crianças pulando em você;
Ou é sentir uma lambida na orelha daquele cachorro fedorento que você tem.
Felicidade é ouvir aquela voz gostosa do outro lado da linha;
É sentir o coração palpitando mais que a respiração;
Felicidade é isso.
É o sim, o não, o talvez;
É sentir-se vivo;
É não se importar com a idade;
É vibrar pela conquista de cada dia;
Sem se preocupar com o fim;
Ou então, felicidade não é nada disso;
É mais simples que isso.
Felicidade é escolha.

domingo, 20 de julho de 2008

A princesa Sofia

Por Rafael Baltresca – 18, 19 e 20 de julho de 2008

1 - O ENCONTRO

- Bom dia.
- Bom dia.

Uma senhora simpática me atendia e me convidava para entrar:

- Não repare a bagunça. Estamos fazendo faxina. Aceita um café, suco?
- Um suco. Concordei.

Enquanto aguardava por meu suco, sentei-me numa poltrona azul, ao lado da escada. Deixei os livros apoiados num banco e fiquei olhando para a casa. Pelos móveis dava para tirar a idade daquela senhora. Tudo em perfeita condição, muito bem-tratados, mas nitidamente muito antigos. A escada ficava à esquerda de quem entrava pela porta da frente. Ao lado, uma poltrona azul, onde estava sentado. No centro da sala, uma mesa redonda, média. Ao fundo, uma mesa e umas cadeiras, imitando um mini-bar.

O jarro sobre a mesa de centro era o que mais distoava na decoração daquela sala. Era algo dourado, com uma listra vermelha na parte inferior e uns escritos que pareciam árabe ou aramaico, sei lá. Procurei uma revista para folhear enquanto a senhora não chegava, mas, além de umas vassouras, panos de chão e um balde azul com água e desinfetante, não tinha nada de avulso por lá.

Bem do outro lado, perto da porta, algo me chamou a atenção. Era uma foto ou uma pintura envolta em uma moldura marrom-clara. Levantei-me e cheguei bem pertinho. Realmente era uma foto. Foi praticamente impossível não franzir a testa procurando por detalhes. A foto mostrava uma moça de pé, na grama de um jardim com flores azuis e verdes. Os olhos se assemelhavam muito com os da senhora que havia me atendido, mas, pela idade, uns 25 ou 26 anos, não poderia ser sua filha. Talvez sua neta.

Aquele quadro me hipnotzou por alguns minutos. Não era uma beleza convencional. Alguma coisa me chamava atenção. Era como se aquela foto tivesse sido tirada para mim, como se ela queria se comunicar comigo, dizer algo que estava preso naquele sorriso.

Por alguns instantes eu cheguei a pensar que era loucura minha, que eu estava fantasiando para tentar tornar aquela tarde menos chata, mas mudei rápido de idéia. A foto foi tirada para mim, pensei.

Era uma moça loira, olhos lindos esverdeados, dentes brancos e perfeitos, tinha pernas longas e coxas grossas. Estava descalça e vestia uma camiseta florida e um sortinho pouco acima dos joelhos. Em um instante eu decidi conhecer aquela mulher. Cheguei a não me importar se ela era casada, se tinha filhos, se estava noiva, nada. Estava apaixonado por aquela estranha, aquela foto, aquele quadro que tinha algo a dizer. Estava disposto. Acho que a palavra é esta: disposto.

- Desculpe a demora. Estava quase voltando quando o telefone tocou.
- Tudo bem, obrigado. Agradeci enquanto saboreava o suco de goiaba, o meu favorito. Pensei em perguntar se ela estava bem quando notei seus olhos vermelhos, mareados, mas resolvi ficar calado neste momento.

Sorri, agarrei o copo, enquanto formulava a pergunta:

- Quem é a moça naquele quadro ao lado da porta? Perguntei.

- Esta moça linda de 24 anos? Haha, faz tanto tempo. Ela riu.

Nesse momento, eu comecei a perder minhas esperanças. Como assim faz tanto tempo? Será que é sua filha, que talvez esteja casada? Ou, será que, talvez...

- Sou eu. Há 40 anos. Na época da faculdade. Eu era bonita, não?

Meu mundo caiu. Estava eu apaixonado por uma senhora de 64 anos? Ou estava apaixonado pelo passado dela? Ficava me questionando essas loucuras enquanto assentia com a cabeça. Não estava mais prestando atenção ao que ela dizia. Só ficava imaginando aquele corpo esguio, aquelas coxas grossas, aquele pezinho lindo dentro daquela senhora.

A evidência do olhar das duas começou a se acentuar, mas o sorriso ainda era o mesmo.


2 - A CULPA

- Como foi o dia, meu anjo? Vendeu muito?

Tentava pensar nas vendas da semana, ou na meta mensal, mas estava perturbado. Como que uma visita pacata a uma senhora pacata poderia mexer assim comigo?

- Estou falando com você, Julio.
- Hã? Desculpe-me. O que foi?

Não conseguia me concentrar em algo que fosse distinto daquela imagem, daquele quadro, daquele sorriso. Por um segundo desejei ser um senhor de 70 anos apenas para poder ter tido a oportunidade de conhecer a moça que morava dentro do quadro marrom, há quarenta anos.

- Estou perguntando dos livros, vendeu muitos?
- Ah, sim, quero dizer, não. Vendi poucos hoje. Estava meio indisposto à tarde. Acho que foi alguma coisa que eu comi e não me caiu bem.
- Tudo bem, você deve estar cansado. Vem comer que a janta está pronta.

Adoro canja. Acho que é o prato mais perfeito que existe. É leve, não engorda, alimenta e tem algo que me faz lembrar mãe. Sei lá. Devo ter comido muita canja quando pequeno.

- Sua comida é especial, princesa. Cada dia que passa, você cozinha melhor. Está ficando cada vez mais experiente na culinária.
- Você que dizer velha?
- Ai, vai começar novamente.
- Ué, foi você quem disse que estou mais velha.
- Eu disse experiente, anjo. Experiente.
- Julio, olha bem pra mim e responde com sinceridade.
- Diga!
- E quando eu ficar velha, com uns 50, 60 anos, toda enrugada, você ainda vai gostar de mim?

Olhei para ela, dei um leve sorriso e passei minha mão em seu rosto:

- Não importa como você vai ser. Aí dentro sempre vai existir a menina que eu conheci. Aquela por quem eu me apaixonei e jurei amor eterno.

Não deveria ter dito aquilo. Me inundei com uma certa culpa e um arrependimento. Não sei exatamente por quem. Talvez pela minha esposa, por não estar dizendo o que realmente pensava sobre ela no futuro. Talvez pela senhora, por exigir um passado que não volta mais. Ou, pior, talvez por mim mesmo.

Fui até o quarto, deitei-me ao lado dela e abracei-a, enquanto pensava no sorriso do quadro.


3 - A DECISÃO

Levantei-me com uma disposição fora do normal. Estava disposto a encontrá-la novamente. Não sei o quê um jovem de 28 anos queria com uma senhora de 64, mas nada demais poderia acontecer. Passar mais alguns momentos com aquela senhora, contemplar um pouquinho aquele quadro não poderia me fazer mal. Liguei o carro com o destino certo.

Trimmm. Trimmmm.

- Alô.
- Bom dia, querido. Estou te ligando apenas para dizer que te amo e que você é o homem da minha vida.
- Você também, princesa. Só não posso falar muito pois estou ocupado, ok?
- Ah, tudo bem. Só queria te desejar bom dia. Um beijo.
- Outro. Tchau.

Mentindo eu não estava. Realmente estava ocupado pensando na senhora, ou no quadro, ou nos dois. Ahhhhh. Agora além da culpa do dia anterior, sentia uma ponta de traição. Será que se apaixonar por um quadro é trair alguém? Será que um abraço apertado ou, talvez, um beijo numa senhaora de 64 anos é desrespeitar a minha esposa, trair sua confiança? Não, um beijo, não. Não seria capaz de beijar uma mulher tão velha, mesmo se eu quisesse muito.

Difícil confessar isto, mas eu queria. Muito.

Estava quase chegando à sua residência. Chovia bastante e decidi parar no posto para abastecer. Talvez comprar um chocolate ou alguma coisa assim. Não conseguia entender como estava agindo daquela forma. Parecia um jovem apaixonado que tudo que vê é sinônimo da sua amada.

Comprei um chocolate, abasteci e continuei firme na minha decisão.

“E quando eu ficar velha, com uns 50, 60 anos, toda enrugada, você ainda vai gostar de mim?”

O rosto da minha esposa perguntando se ainda iria amá-la quando ficasse velha não saía da minha cabeça e a idéia da traição me consumia. Estava a poucos minutos de fazer uma besteira, de desrespeitar minha família por intermédio de um quadro. Se por um lado eu queria ver uma nova velha paixão, do outro eu queria voltar. Eu tinha a nítida impressão que a senhora queria me ver novamente, me abraçar, me beijar, mas o mais próximo que ela chegou de mim foi no momento em que entregava os cheques pelos livros. De onde vinha esta loucura toda? Essas histórias inventadas? Cheguei até a pensar que seria uma desculpa que eu estava inventando para me livrar da minha mulher. Mas por que me livrar? Pelo motivo dela estar envelhecendo?

Parei o carro.

Uma loucura me consumia e minha cabeça começou a doer. Não pensei duas vezes. Decidi: Virei o carro e voltei para casa.


4 - O RETORNO

Não pensava mais naquele quadro. Não foi preciso de psicólogo, remédios, nada. Aprendi comigo mesmo uma grande lição: O tempo cura, reconcilia e também apaga.

Vivi nesta mentira por dois anos e, numa tarde sem chuva – mas fria - , aprendi que o tempo não apaga exatamente. Digamos que coloca outras coisas por cima, mas é bem fácil dar uma olhadinha por baixo quando se quer.

Voltei ao bairro da minha ex-musa, do ex-quadro, quase por coincidência. Precisava entregar alguns livros por perto e acabei me perdendo. Rodei pelos bairros vizinhos, entrei em uma rua sem saída, perguntei para alguns transeuntes, entre eles uma menina que usava uma calça engraçada e um senhor barbudo que tinha um cachorrinho pink. Acabei dando no portão de ferro da senhora de nome desconhecido por quem me apaixonara no passado. Em poucos minutos eu começaria a acreditar em destino.

Desliguei o motor e fiquei fitando aquele sobrado por 4 ou 5 minutos, relembrando o passado, aquele dia tão fascinante. Não tinha a real intenção de entrar e reviver um amor, mas uma vontade de dizer um oi. Como se estivesse visitando uma ex-namorada. Tive um leve sentimento de perdão, mesmo que não tivesse o que perdoar. Talvez estivesse me perdoando.

Deixei que pensamentos sem lógica entrassem e saíssem. Tinha a visão lá longe, no meio do nada. Aos poucos o meu olhar ia se embaçando e só via uma mancha bege no meio do céu azulado.

- Foi uma pena, não foi?
- Hã?
- Uma grande perda, não acha?

Não tinha notado a sua presença. Enquanto eu mirava aquela casa grande, um senhor com calças pretas, velhas, uma camisa branca listrada e barba por fazer, se juntara ao lado do carro e olhava para a casa junto comigo.

- Desculpe-me. Ao que o senhor se refere? Perguntei já imaginando a resposta.
- Estou falando da Dona Sofia, que morreu na semana passada. Respondeu.

Eu sabia que algum dia eu sofreria por não tê-la visitado novamente. E este foi o dia. Uma lágrima escorreu por meu rosto e, lentamente, pude senti-la salgar o canto esquerdo de minha boca. Desejei que meu passado tivesse sido outro. Desejei ter estado naquela casa para dar um abraço apertado nela e ouvir de sua própria boca o seu nome: Sofia. Sim, agora fazia sentido aquele rosto no quadro. O que ele queria dizer era “fale comigo, pergunte meu nome, faça-me feliz”.

- Dizem que ela morreu de tristeza. Pela falta que o marido lhe fazia. O Seu Julio.

Aquilo me cortou o coração. Compreendi por que ela demorou tanto ao fazer um suco para mim na primeira e única visita. Compreendi por que ela sabia que goiaba era minha fruta preferida. Compreendi o porquê do encanto e das lágrimas da senhora quando disse a ela que meu nome era Julio também.

Forcei-me pensar que tudo aquilo era coincidência: eu me apaixonando por uma senhora que viveu e morreu por um homem que tinha o mesmo nome que eu. Realmente queria que tudo aquilo fosse coincidência.

- Realmente. É uma pena.
- O senhor a conhecia?, perguntou o homem.
- Não, digo, sim. Bom, cheguei a falar com ela uma única vez. Encantadora.
- Realmente, uma senhora que vai deixar saudades. A casa já foi alugada. Já estão embalando seus pertences.

Desta vez eu não pensei duas vezes. Não deixei nenhum sentimento tentar me controlar. Foi só o tempo de fechar o carro para eu tocar a campainha:

- Boa tarde, meu nome é Julio. Acho que a Dona Sofia tinha uma encomenda para mim, posso entrar?
- Claro, fique à vontade.

Quem me atendeu não estava muito para papo. Abriu a porta e já começou:

- Desculpe-me, mas estamos com um pouquinho de pressa. O que o senhor disse que tinha para você?
- Bem, na verdade não era para mim, mas, talvez, eu gostaria de comprar um quadro que a Dona sofia tinha por aqui.

Como eu queria aquele quadro. Talvez minha esposa nem notasse se eu o guardasse bem guardado. Ou, talvez, eu poderia dizer que era de uma prima. Não sei. Queria muito poder olhar para aquele sorriso todos os dias pela manhã. Como eu queria poder ter voltado àquela casa para pedir este presente para a própria Sofia.

- Não tem nenhum quadro, moço. Estamos encaixotando o que sobrou. Seus filhos já estiveram por aqui e só estamos limpando a casa para iniciarmos a nossa mudança.

Não tinha porquê aquela moça esconder um quadro velho, sem valor. Sorri, dei meia volta e, nas escadas, dirigindo-me ao portão, lembrei-me da primeira e última vez que estive por lá. Arrependi-me novamente por não ter contemplado aquele lugar pela última vez e voltei.

- Posso dar uma olhadinha por aqui? Perguntei.
- Se está à procura do quadro, eu já te disse que não tem nada.
- Não, eu só quero olhar.

Nada. O sofá que fiquei sentado não estava mais lá. As cadeiras que faziam o bar estavam empilhadas e o jarro com a listra vermelha também já não fazia parte do cenário da casa, agora empoeirada. Fechei meus olhos e imaginei cada momento passado. Desde o instante em que fui recebido, quando passei pelo quadro, lembrei-me de cada detalhe: o sorriso, suas pernas, seus lábios, seu olhar. Lembrei-me da senhora contando-me de sua infância e enfatizando sua beleza. Respirei bem fundo e voltei ao carro.

Lembra-se quando eu disse que uma hora eu acreditaria em destino? Esta hora chegou.


5 - O REENCONTRO

Desisti de visitar meu último cliente. Minha cabeça não estava doendo, mas não via muita importância em cumprir este compromisso. Aliás, eram só dois livros.

Andei mais dois quarteirões e parei num posto de gasolina para comer algo. Fui lembrar-me depois que era o mesmo posto que eu havia parado para comprar um chocolate, há dois anos. Deixei meu carro com o frentista e entrei na loja de conveniência. Pedi um café, um lanche e aguardei no balcão. E foi enquanto eu passava meus olhos pelos produtos daquele lugar, procurando nada em especial, que eu prendi a minha respiração.

Entrava pela porta de vidro uma garota. Devia ter aproximadamente 25 ou 26 anos. Era uma moça loira, olhos lindos esverdeados, dentes brancos e perfeitos, tinha pernas longas e coxas grossas. Vestia uma camiseta florida e um sortinho pouco acima dos joelhos. A imagem do quadro veio à minha mente e fez minha fome desaparecer.

Esperei ela chegar mais perto e sorri:

- Boa tarde.
- Boa tarde, respondeu a moça extremamente simpática. Nós nos conhecemos?
- Acho que não, mas você me parece ser bem familiar. Qual o seu nome, perguntei.

Ela apenas sorriu:
- Se eu te disser, você não vai rir de mim?

E eu, confuso e feliz:
- E por que eu faria isso?

- Porque é um nome de velho. É o mesmo da minha avó.

Não hesitei:
- Sofia?

- Você a conhecia? Perguntou.

Sem pensar, respondi:

- Ainda não, mas tenho muito tempo para conhecê-la como eu sempre quis.

Ela não entendeu muito bem o que eu queria dizer com isso, mas não me perguntou mais nada. Pegou seu troco e saiu. Eu, sorridente, respirei aliviado novamente.


6 - O RECOMEÇO

- Querido, você anda estranho. Nunca te vi tão sorridente assim. O que está acontecendo? Perguntou minha esposa.

- Nada, paixão. Quero apenas fazer algo diferente hoje. Vamos ao parque, mas quero que você coloque esta camisa e este shortinho.

- Ai, lá vem você com suas loucuras. E o tênis, qual devo usar?

- Nenhum. Quero que vá descalça.

Posicionei-a do jeito que eu queria. Pé direito para frente, pé esquerdo para trás, cabelo jogado para o lado, mão na cintura.

- E cadê o meu sorriso? E ela, sorrindo, concordou.

Respirei, mirei e click. Estava apenas constrindo um quadro que um dia eu achei que tivesse perdido.

- Dá pra você me explicar o que vai fazer com a foto de uma velha, Julio?

Nada demais. Quero colocar uma moldura marrom-clara e pendurar no meu escritório. Apenas para realizar um sonho que tive quando te conheci, naquele posto de gasolina.

- Ah, faz tanto tempo, Julio. Já são quase 40 anos que nos conhecemos. Naquele dia eu ainda era bonita. Devia ter uns 24 anos.

- Eu sei. Mas para mim sempre vai existir, aí dentro, a minha jovem e linda Sofia. A minha princesa Sofia.

7 – O FIM

E viveram. Para sempre, felizes.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O segundo que antecede o beijo

Ele olha para ela; ela olha para ele e durante um segundo,

Ele pensa no rosto dela que pensa na boca dele que pensa no nervosismo que pensa na calma que pensa na saudade que pensa no amanhã que pensa no ontem que pensa no hoje que pensa no depois que pensa nela que pensa nele que pensa que pensa e pensa denovo e não pensa mais e pensa no cheiro dela que pensa no sorriso dele que pensa que não que pensa que sim que pensa que...

E eles se beijam.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Debaixo do chapéu

Debaixo do chapéu eu já não vejo mais
Aquilo que um dia foi real pra mim
Sozinha me questiono a cada dia mais
por que o seu desprezo me machuca assim

Debaixo do chapéu não posso mais sentir
O gosto do seu beijo que foi sempre meu
E o tempo, tão sagrado, que te fez partir
Apaga, lentamente, aquele gosto seu


Debaixo do chapéu, onde falta vida
Faltam os olhares, sobra solidão
Mas algo que não deixa abrir mais a ferida
É saber que aquilo tudo foi mera ilusão

Ah.

Ah, esse lençol escorregando sobre o seu corpo.
Esse que você insiste em dizer que é apenas uma blusa qualquer.
Faz a minha cabeça voar. E voa mais do que esse lençol qualquer que me desliza sobre o seu peito.

Ah, essa fonte de mel escorrendo o seu doce.
Essa que você tenta me convencer que são apenas seus lábios sorrindo para mim.
Faz a minha boca salivar. E salivo mais do que essa fonte de mim escorrendo sobre você.

Ah, esse perfume que cheira você.
Esse que você diz que é apenas sabonete líquido sobre a sua pele molhada.
Faz o meu corpo derreter. E derreto mais do que este perfume de mim que molha você.

Ah, você em mim.
Que me escorrego enquanto você.
Que me saliva sobre você.
Que me derrete por você.
Ah, esse eu em você.

Ah.

Arma branca

Compro as armas ou pego emprestado? Tanto faz.

- Fique tranquilo. É arma branca, príncipe. Machuca, mas não mata.
- Paixão, pode tirar a camisa, por favor?
- Vai um pouco mais para trás, doçura. Isso.
- Toma esta caneta. Desenhe um alvo aí no peito.
- No lado direito, não. No esquerdo, docinho.
- Ok. Tá bem visível assim.
- Cadê o arco? Ah, está aqui. Com as flechas.
- Hummm. Afiaram as pontas? Melhor ainda.
- Olha pra frente, meu amor.
- Isso. Estufa o peito para a naná ver melhor.
- Deixa eu ver aqui. Hmm, esta mira está perfeita.

Olho para você e te mando um beijo.
Olho para o seu peito. Puxo a fleha, aponto


e solto.

Viro-me e caminho na direção contrária ao seu corpo caído.

Dou um leve sorriso e sussurro:

- É arma branca, príncipe. Machuca, mas não mata.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Olá, estranha. (Versão realista)

Esta carta é para você. Ainda não te conheço e nem você a mim, mas o nosso caminho já está traçado. Provavelmente o destino se encarregará de nos colocar no mesmo bar, na mesma fila, ou sei lá onde. Mas ele sabe direitinho onde iremos nos conhecer. Nossos olhares se cruzarão, um dos dois abrirá um sorriso involuntário e o outro não vai consegir ficar mais sério. Vamos trocar poucas palavras, telefones e logo estaremos almoçando juntos ou, talvez, almoçando. Café da manhã, não. Isso vai ficar para depois. Talvez na cama, bem de manhã. Vamos nos encontrar algumas vezes e fingir que foi por acaso e vamos nos ver muitas outras vezes bem de propósito. Aí virá a paixão. Não vamos querer nos desgrudar, vamos nos ligar todos os dias, vamos só pensar em nós. Apenas em nós dois. Ah, quase que eu me esqueço! Vamos fazer juras de amor e planejar nosso futuro, também. Vamos nos deitar na grama, olhar para as estrelas e escolher o nome de nossos filhos, passarinhos e cachorros. Vai ser tão bom ficar com você. Depois vamos nos amar muito e o amor vai passar a existir como nunca existiu. Vamos jurar que sabemos o que é o amor. E vamos jurar que nunca iremos nos separar. Aí a paixão irá embora e curtiremos apenas o amor e o carinho que ficou. Aí, depois, o carinho também irá embora e falaremos para todo mundo que só o amor ficou. Aí, bem depois, quando o amor também for embora, diremos que, talvez, exista ainda respeito, consideração. Mas mesmo com respeito, vamos nos separar. E aquela dorzinha no estômago que apareceu no primeiro dia irá voltar mais forte. Mas não vai ser uma dor boa. Vai ser uma dor bem no fundo. Então, eu vou pensar em você todos os dias e certamente irei sofrer sozinho. Aí eu vou querer nunca ter te conhecido, nunca ter ido naquele bar, fila, ou sei lá onde. Aí eu vou ficar bastante triste e depois de bastante tempo vai passar. Não vou mais sofrer. Mas o destino vai se encarregar de me apresentar você, nova estranha. Olá, nova estranha. Esta carta é para você. Ainda não te conheço e nem você a mim, mas o nosso caminho já está traçado. Provavelmente o destino se encarregará de nos colocar no mesmo bar, na mesma fila, ou sei lá onde. Mas ele sabe direitinho onde iremos nos conhecer.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Amor é Serafim

É melhor ser afim ou então será fim.

fim.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Eu voltei

Voltei ao lugar de nosso primeiro encontro.
Lugar, que juntos, aprendemos a descobrir.
Revirei os detalhes, andei naqueles lugares que andamos e andamos e andamos.
Mas lá, você não estava.

Voltei aos meus sonhos.
Lugar que você morou por muito tempo.
Revirei cada pedaço de meus pensamentos, cada espaço de minhas ilusões.
Mas lá, você não estava, também.

Voltei, então, ao nosso último quarto.
Lugar que compartilhamos todos os nossos segredos.
Revirei as cobertas, analisei cada quadro daquela parede.
Mas lá, não tinha mais nada.

Quase cansado de tanto procurar, resolvi ao meu coração voltar.

Voltei, então, ao meu coração.
Lugar que pensava que você nunca estaria.
Lugar que pensava nunca ser sua final moradia.
E lá estava você, ocupando quase a totalidade.

Sorrindo, abriu os braços e disse: Que bom que você voltou.
- Eu voltei.

domingo, 4 de maio de 2008

Desejo

Ela olhou pra mim com aquela cara que eu já conhecia, e disse:
- Tira meu sapato, tira.

Olhei para ela com aquela cara que ela já conhecia, e tirei.

- Agora tira a minha blusa, vai.
Não hesitei. Com toda a minha força, fiz o que ela ordenou.

- Agora tira minha saia, tira.
Continuei obedecendo.

- Só falta a calcinha e meu sutiã. Tira, rápido.
Pronto. Tirei tudo.

- Tirou tudo? A mala está vazia? Então coloca as suas coisas aí dentro e vai embora, seu filho da puta.

sábado, 3 de maio de 2008

Copo de água. parte 2.

Num boteco, ela e ele batiam um papo-furado:

Ela: - Você é bom, fazer o quê? Seus textos são perfeitos! Mas não é para se gabar.
Ele: - Não dá para não se gabar. Ainda mais com um elogio desses. Me dá um tema e eu escrevo um texto para você.

- Ai, adoro isso. Deixe-me pensar. Copo de água.
- Copo de água? Simples, né? Torna tudo mais complicado. Adoro.

- Eu sei que você gosta.
- Vamos misturar? Acho que vai dar samba. O que é a coisa mais insana, nojenta e deplorável para você?

- Mais insana, nojenta e deplorável? hum.... Que tal pensar nas coisas que geralmente as pessoas só têm coragem de fazer sozinhas, muito bem trancadas em um quarto?
- E se fosse algo que você só tem coragem de fazer sozinha trancada em um quarto? Acho que seria bem mais insano, não?

- Tonto.
- Acho que você está com medo.

- Não estou com medo.
- Pegou na ferida, é? Adoraria escrever sobre uma loucura sua.

- Ferida? não. Uma loucura minha? Por que você não me diz qual loucura minha que você imagina?
- Ah, não. Aí só teria graça para mim. Vai, vamos brincar. Vai ser bem interessante.

- Brincar? Você é quem vai se divertir.
- Última tentativa. O que é que você não conta para ninguém?

- O que eu não conto pode fazer com que as pessoas deixem de crer que sou uma anjinha.
- Anjinha, claro. Com auréola e tudo mais.

- Só me faltam as asas, pois a cara eu já tenho.
- Faz-me rir.

- Adoro fazer as pessoas rirem.

Despediram-se como de costume. Ela se levantou e lentamente se dirigiu ao carro. Ela sabia como provocar suspiros. Do manobrista ao dono do bar. Olhou no espelho e retocou sua maquiagem. Mas depois se arrependeu; estava voltando para casa.

Ele resolveu ficar mais dez minutos no bar. Pediu outra caipirinha e saboreou gota por gota, sem pressa.

Ela chegou cedo em casa. Quase 21h30. Ainda no escuro, trancada em seu quarto, ligou seu computador e iniciou sua maior paixão: Escrever. Escreveu sobre a vida, seus amores, escreveu sobre o amor. Escreveu como via o mundo e como amava a natureza. Escreveu sobre sua mente limpa e seu doce olhar. Escreveu sobre suas paixões eternas, também. Escreveu.

Mais tarde, depois de tudo escrito, caiu em um choro desesperador. Correu para o banheiro e vomitou compulsivamente.

Vomitava por tantas e tantas mentiras escritas. Talvez, a coisa mais insana, nojenta e deplorável para ela fosse sua própria vida, que, através de textos inventados, tentava modificá-la de algum jeito. Daí o medo de contar qualquer detalhe para um estranho.

Limpou sua boca suja de vermelho e amarelo na toalha seca e voltou ao computador.
Olhou para a tela, releu seus textos, e gargalhou. Gargalhava como uma criança de três anos ou como uma velha de sessenta e três que vê a vida passar por sua mente em segundos.

Gargalhou, mas só deu aquela piscadinha depois de beber um copo de água gelada.

Ele, olhou para o copo quase terminado, mordeu um limão e disse:
- Garçon, traz mais uma.

Simplesmente não

Estudando um pouquinho de neurociência, descobri que o cérebro não processa corretamete a palavra NÃO. Dou um exemplo:

Não pense em um avião.

Viu? Qual foi a primeira coisa em que você pensou? Em um avião!

Com ou sem neurociência, já está decidido:

Simplesmente não

De hoje em diante,
Não quero mais você.
Não quero que volte para mim.
Não quero que me ame.
Não quero que pense em mim.
Não quero que me queira.
Não quero seu amor.
Nao quero que me faça feliz.
Não quero te fazer feliz.
Simplesmente não quero.
Simplesmente, não.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Copo de água.

Saiu de casa e foi numa granja mais próxima:

- Tem pato?
- Coxa ou sobrecoxa?
- Não, quero um vivo.
- Vivo? Deve ter, mas é mais caro.
- Me dá o maior.

E assim foi feito.
Já em casa, com uma tesoura pouco afiada, ia cortando, com a delicadeza de uma chef de cozinha, as azinhas do pobre coitado. O patinho chorava, gritava, uivava. E ela, uivava junto, aproveitando cada momento de dor.

Pronto, as duas já estavam cortadas. Agora as asas não lhe faltavam mais.

Era um anjinho completo.

continua...

domingo, 27 de abril de 2008

Diário de um maníaco (Insano. Bingo!)

Sexta-feira, 18h01.

Olá. Eu sou maníaco.
Sim, maníaco. Desses que explodem bombas, matam velhinhas, abusam sexualmente de animais etc. Imagino que você já tenha ouvido falar de mim. Bom, para não deixar as coisas muito impessoais, vamos criar um nome fictício para mim: você pode me chamar de Aníbal Antunes José Ferreira Martins Oliveira.

Agora estou no centro de São Paulo, pensando em algum terror para fazer. Porque, se você não sabe, isto é o que nos dá prazer. Fazer terror, colocar pânico nas pessoas etc... A troco de quê? De fama, cartazes, notícias de jornais etc.

Quero fazer algo diferente hoje. Algo que eu nunca fiz.
Algo que seja mais macabro do que simplesmente sufocar velhinhas, explodir ônibus, torturar crianças. Quero algo que eu nunca fiz... já sei. Um ato de masoquismo em dupla. Isso. Quero torturar e ser torturado ao mesmo tempo. Provavelmente será uma experiência fantástica. Mas tem que ser muito forte.

Hmmm. Pode ver aquela senhora na escada rolante? Que tal se eu pulasse no pescoço dela e caíssemos, nós dois, no andar de baixo?

Não. Muito fraco.

Já sei. Olha aquele mendigo fora do prédio. Vou pegá-lo pelo cabelo sujo e vou nos jogar debaixo daquele ônibus.

Não. Muito simples.

Pronto! Pego um avião, mato o piloto e o copiloto. Aí o avião cai e apagamos uma centena.

Não. Muito normal.

Pensa, pensa, cabecinha. Pense em algo que realmente fira as entranhas de uma pessoa. Que seja sujo, imoral, que humilhe, traumatize, silencie e sufoque alguém.

Difícil pensar. Difícil encontrar algo que realm... Bingo!

Como eu não tinha pensado em algo tão insano antes? Como?

- Moço do taxi, por gentileza, poderia me levar até este bairro aqui?
- Claro senhor. Tem alguma rodovia de preferência?
- Depende. Que dia é hoje?
- Sexta-feira.
- Que horas são?
- 18h30.
- Ótimo. Vamos pela marginal Tietê.

Insano. Bingo!

Aquelas cartas (metade de você)

O que é que eu faço com aquelas cartas?
Aquelas cartas que falavam a língua do seu coração.
Aquelas que diziam amores e suspiros em cada linha rabiscada.

E aquelas cartas improvisadas?
Aquelas cartas improvisadas com papel achado no bar.
Aquelas mensagens improvisadas com palavras achadas lá dentro.

E o que é que eu faço com os sorrisos tristes daquelas cartas?
A tristeza de partir misturada com a alegria de saber que vai voltar.
A alegria de saber que vai voltar... O que é que eu faço agora que eu sei que não vai mais voltar?

O que é que eu faço com aquelas cartas?
Aquelas que eram colocadas escondidas só para o outro brincar de encontrar.
O que é que eu faço para encontrar o que não existe mais?

E as juras de amor eterno? E as promessas de felicidade? Diz o que é que eu faço.
Envio-as de volta e fico sem metade de mim?
Ou fico com elas guardando metade de você?

O que é que eu faço com essa metade de você?
Fico pra mim ou deixo guardada com aquelas cartas?

http://www.youtube.com/watch?v=6jpXaZhezIo

Inércia

Toda vez que te vejo, fico assim. Imóvel.
Quando sinto seu cheiro, me torno uma estátua. Paralisado.
Sempre que penso em você, minha respiração trava. Não me mexo e nem quero me mexer.

E quando você vai embora, meu coração pára, minha respiração dispara.
Se não olha mais pra mim, fico perdido. Sem saber o que fazer, ou onde ir.
O mundo pode até tentar girar, mas continuo parado.


Meu mundo é você quem faz.
Meus passos é você quem trilha.
Meu formato é você quem molda.

E essa inércia dos infernos é o que realmente me alucina.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Dá até gosto de ver

Só a vida é perfeita em seu estágio elementar, principal.
Só a vida é bela por natureza. E única.
Se há vida, há pureza, há perfeição.

Se há sorrisos, estórias, histórias, há vida.
Se há amor, alegria, pureza, há vida.
A vida desaflora, se reproduz e cresce.

Mas a morte tem uma objetividade que dá até gosto de ver.
Dá até gosto de ver.

Deus não existe

Deus passa a existir...

Quando você vê o mar, à noite, quieto, calmo.
Quando você ouve os passarinhos de manhã.
Quando você caminha na areia úmida descalço.
Quando você percebe o ar que entra.
Quando você encosta o seu dedo indicador em seu rosto perfeito.
Quando você nota perfeição do ser.
Quando sua mãe almoça aroz e feijão com você.
Quando você toma caipirinha ao som de piano, descalço, no bar.
Quando você ama.
Quando amam de você.
Quando você aprende que você é muito mais do que aparenta ser.

E não se importa para onde vai... porque você sabe que, quando você for, ele vai existir para te esperar.

Morte

Morte é pura. Pra quem foi;
Morte é tortura. Pra quem fica.
Morte é saudades;
Morte é verdade.
Morte é rápida;
Morte é muito cedo;
Morte é tarde demais;
Morte é alegre para frente;
Morte é triste para trás;
Morte não é mais.
Morte foi.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pessoas jurídicas

Às 10 da manhã.

- Muito prazer. Meu nome é Jorge Farias. Sou CEO da Johnsey CO. Trabalho com processos, métodos, formas inovadoras de gerenciamento aplicado à negócios.

- O prazer é todo meu. Meu nome é Rebeca Gurmondes Freitas. Sou sócia-proprietária da Freitas & Fagundes advogados. Não advogo mais. Hoje eu apenas controlo nossas 35 filiais pelo Brasil. Me formei em direito, letras e sociologia política. Leciono em duas faculdades e estou terminando meu doutorado em ciências pseudo-econômicas.

- Bom, já que estão se apresentando, deixe-me falar de mim: Meu nome é Thaís Amaral. Sou responsável pelo marketing administrativo da Karuck Freitas. Estudo há 8 anos perfis de compradores. Estou desenvolvendo um estudo revolucionário na área.

Às 15h30 estão lá na Atrativa, academia de ginástica e natação, vendo seus filhos de 3, 5 e 7 anos na piscininha brincando com os tios.

Jorge, Rebeca e Thaís são pessoas de sorte. Ainda podem desfrutar de alguns prazeres verdadeiros que só pessoas físicas podem ter.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Como frangos

- Galerinha da mamäe, adivinhem o que tem para jantar?
- Com a fome que eu estou, querida, como até um boi.
- O que é mamäe? O que é?

- Ninguém vai tentar adivinhar?
- Hummm. Frango?

- Sim. Frangooooooo!

- Ai, que delícia, mamäe. Adoro frango.
- Hoje vocë acertou, querida. Um franguinho vai cair muito bem.
- Mnham mnham mnham.. quero frango, mamäe. Adoro frango. Quentinho, tostadinho, que gostoso.

- Todo mundo pra mesa que tem muito frango para vocës: Empanado, frito, cozido, na salada e com alho.

- Eu vou pegar esse aqui.. hmm. Que delícia!
- E eu fico com esse e esse e esse... como gostamos de frango.
- Viva frangooo! Vivaaaaa!

Duas horas depois...

- Nossa.. quanto frango sobrou. Vou fazer frango para vocës amanhä.
- Ahh näo, mäe. Frango näo. Näo aguento mais frango.
- É, querida. Pode jogar fora. Frango, näo queremos mais....

...

Vocë é o que vocë come.
E assim caminha a humanidade.
E continuamos vivendo... como frangos.

Um dia eu descobri

Que psicólogos ficam tristes;
Que terapeutas de casais se separam;
Que palestrantes motivacionais também acordam desmotivados;
Que top-models nem sempre se sentem tão belas;
Que psiquiatras podem ser loucos;
Que atores famosos também são inseguros;
Que os professores erram de vez em quando;
Que padres cometem pecados;
Que os maestros nem sempre estão no tom certo;
Que médicos também erram;
Que as mães dos políticos não são o que falam;
Que juízes de futebol tem time do coração;
Que dentistas não têm dentes perfeitos;
Que os taxistas se perdem de vez em quando;
Que alguns amantes, não necessariamente se amam;
Que gêmeos idênticos são diferentes;
Que cada pensamento é diferente;
Que mesmo os pensamentos diferentes, podem ter algo em comum;
Que muita gente passa a vida tentando descobrir;
Que muita gente sonha em ser descoberto.

E o pior. Que o viado do Papai Noel existe de verdade.
Putaquepariu. Bem que eu desconfiava.

Ótimos votos

Quantos votos de Feliz Natal você já mandou nesta semana? E quantos já recebeu?
É, digo mandou e recebeu porque agora este clichê eletrônico está na moda. Com o advento dos e-mails, ganhamos o e-clichê.

Esses dias recebi um e-mail com o título "Meus votos...". Bom, o resto eu não me lembro, pois, antes de chegar a mensagem toda, ela já tinha sido apagada. Sem dó.

Depois de alguns dias vim a descobrir que não era "Meus votos de Feliz Natal" como imaginava, mas sim, "Meus votos recebidos na última eleição". Era do síndico do meu prédio, grande amigo. Coitado.

Pedi para enviar de novo. Ainda bem que ele entendeu a minha indignação....

Antes de explicá-la, responda a seguinte questão:

Quando você recebe um virtual - ou real - "Feliz Natal!", você...

a) Se comove?
b) Se alegra?
c) Fica puto?
d) Continua igual?

Se a sua resposta for a d, qual é a motivação, ou seja, o motivo que o leva a desejar um Feliz Natal para os seus amigos, ou pior, para toda a sua lista de e-mails?

Vou a fundo: A comunicação é baseada em interpretações.

Você vê, ouve ou sente algo. Esta informação é passada para o cérebro que interpreta o que foi recebido, daí, temos uma reação. Esta reação, que pode ser um sorriso, uma cara de mal ou apenas um sentimento interno, fecha o ato da comunicação.

Se uma informação é passada e a mesma não provoca nenhum sentimento, qual é o significado dela? Nenhum!

É aí que mora o problema do Feliz Natal - entenda "Feliz Natal", "Feliz Páscoa", "Feliz Ano Novo" e extrapolo para "Feliz Aniversário com muita saúde, paz e dinheiro": E daí? O que muda? Se não serve pra nada, pra que dizer? Para manter a clichezisse aguda depois de uma despedida sem-assunto, ou para aumentar seu marketing pessoal em suas mensagens virtuais?

Bom, faça o que quiser, mas eu já decidi. Quando ouço um clichê desses, dou um sorrisinho maroto e só. Nem me atrevo a retribuir o que eu sei que não vai servir para nada. Prefiro guardar minhas energias natalinas pra hora da ceia, o fim do peru. Xiii, a ceia natalina. Isso dá outro post regado à lentilhas e panetones.

Por hora, fico por aqui.

E aproveito para desejar-lhe um feliz natal, feliz ano novo, feliz páscoa, feliz dia da árvore, feliz dia do índio e o que mais você quiser engolir. Junto com o peru.
Pra você e pra quem for da sua família.

Ah, uma informação muito mais importante e relevante que "Feliz Natal": O síndico do meu prédio foi reeleito.

Ele teve, como sempre,...

Ótimos votos!

Pessoas são como Baratas.

baratas.

O presente

Bateu na porta e soluçou:

- Estava jogado no chão. É seu?

Quase pelado, atendeu:

- Não, mas gostei do embrulho. Vende pra mim?
- É caro.
- Não te perguntei o preço, moleque.
- Compra?
- Compro. Quanto?
- Quarenta.
- Pago setenta.
- Faço por noventa.
- Dou cem.

Leiloaram.

- Feito.

O menino se virou e sumiu pela chuva. O homem fumou mais meio cigarro, mijou e voltou para a cama. Nunca lavava as mãos.

- O que é?
- Não sei. Ganhei agora. É presente.
- Posso abrir?
- Abre.

Deitada, abriu:

- É novo. Tá limpo.
- Deixa eu ver. Limpo tá o seu cérebro. Não vê o que tem?

- Vejo um bloco de papel em branco. Todas as folhas assim, branquinhas. Sem nada.
- Sem nada está a tua alma. Olha denovo.

- Já te disse, homem. Folhas em branco e um rodapé. Nem capa tem.
- Não vê que é um livro de poesias, crônicas, verdades imaginárias e imaginações reais?

- Voltou a cheirar pó, desgraça?
- Pega uma folha.

- Hã?
- Coloca contra o sol. Vê o quê?

- A sombra das crianças brincando.
- Faz um furo no meio e olha pra lá. Enxerga alguma coisa?

- O vizinho batendo na esposa, e ela ri.
- Passa o papel no pulso, rápido.

- Ai, me cortou!
- Se com uma única folha de papel você viu a sombra de teus filhos, o vizinho espancando a esposa e teu sangue escorrendo pelo pulso, como pode sua ignorância dizer que em centenas dessas não há nada?

E ela sangrou até a morte.
E ele sorria, apertava e beijava as folhas em branco, contidas de infinitas possibilidades e apenas um rodapé: http://sucodesangue.blogspot.com/