sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

João Motorista

12/12/2008 – 09h16

João era motorista de ambulância do único hospital de Calmênica do Sul – uma cidadezinha minúscula de aproximadamente três mil habitantes. O trabalho era o seu maior motivo de orgulho. O problema é que não tinha trabalho.

Calmênica era uma cidade muito calma. As pessoas, quando bebiam, bebiam com calma. Quando corriam, corriam com calma, e o pior: Quando brigavam, brigavam com calma. Na direção, eram cautelosos também. Paravam no sinal amarelo, só aceleravam depois de cinco segundos de sinal verde, respeitavam o pedestre, eram realmente muito calmos.

Toda esta calmaria, todavia, não deixava nosso João assim tão sereno. Pelo contrário, João andava estressado. Com toda esta calma, não tinham muitos corpos para socorrer em sua ambulância. Muitos, não. Nos últimos 5 meses, ele não tinha sido chamado nem uma única vez.

Foi em sua casa, calma também, que João teve sua primeira grande idéia: eu saio pelas ruas atropelando os pedestres. Jogo na caçamba e encaminho para o hospital. Meu emprego fica garantido e a calma volta para mim.

E assim começou a saga do João em prol de sua calmaria: de manhã, indo para o hospital, João avistou uma senhora atravessando a faixa. Não pensou duas vezes e PUM! Dez minutos depois a velhinha já estava sendo encaminhada ao hospital pelo próprio João. À noite, de volta para casa, um rapaz de bicicleta aparece ao lado da ambulância do João. Nosso amigo não pensou duas vezes: Paft. Deu só aquela viradinha e derrubou o bicicleteiro no chão. Só para não ter perigo do moço se lembrar de algo, João foi para frente e para trás três vezes, até o rapaz perder a consciência.

A coisa estava indo bem. O hospital estava agitado e o emprego de João não mais estava comprometido. Em um mês ele havia mandado quarenta e cinco para o hospital. Em seis meses, quinhentos e trinta. Após dois anos, mais de três mil pessoas já estavam ocupando algum lugar no hospital. Precisamente, três mil quatrocentos e trinta pessoas. Exatamente o número de habitantes de Calmênica do Sul.
Daquele dia em diante, João não tinha mais ninguém para atropelar. Crianças, velhos, moços, moças, católicos, judeus, todas as pessoas da cidade já estavam no hospital. Sabendo disso, o diretor geral do hospital, seu Manoel, não poderia ter outra postura:

- João, não existe mais ninguém na cidade. Agora, seu trabalho é dispensável. Para cortar custos, vou ter que mandar você embora.

João não teve dúvidas: atropelou o seu Manoel.

4 comentários:

Anônimo disse...

Nossa!!!

Seu poeta, seu poeta....

Anônimo disse...

Poeta, poetinha...O Elvis tá perdendo pra vc em moço...mas como canta a Ana Cañas: -Meu coração não se cansa de ter esperança...de um dia ser tudo que quer..meu coração vagabundo..quer guardar o mundo em mim...Acertei a letra? Acho que acertei...Essa vai pra João, em homenagem ao "João motorista". kkkk

Xau poeta!!
Até um dia poeta!!

Unknown disse...

Oi Rafa to passando para dar um oi, faz tempo que não passo por aqui.....
Eu gosto de entrar aqui e ver coisas novas!!

BJO

Anônimo disse...

Olha, eu até ia postar um comentário... Mas a hora que fui tomar um café no bar em frente ao serviço, veio uma ambulância doida e me atropelou! Agora estou aqui no hospital de uma cidadezinha de nome estranho digitando com a língua (lingüitando?)e o teclado está todo babado... Por isso páro por aqui. Seu Manoel manda lembranças.

Rasputin