segunda-feira, 30 de abril de 2007

Todo chocolate era amargo perto de sua boca. Qualquer vinho, fraco demais.

Não sei se foi sonho ou apenas mais um pesadelo para atormentar a minha vida. Talvez tenha sido tudo fruto da minha imaginação; talvez não. Hoje, a mulher perfeita olhou para mim.

Para imortalizar este rosto, este sorriso misterioso, nada melhor do que esboçá-lo aqui, em meu caderno de anotações...


A descrição da mulher perfeita

Seus olhos foram responsáveis por gelar a minha escoliose e acentuar, sensivelmente, a lordose que ainda me acompanha. Em uma piscada, estremeceu meus joelhos e fez-me, trincando minha espinha dorsal, suar frio. O sorriso não existiu.

O mistério atrás de seus lábios cerrados ainda não me deixa dormir. Uma hipnose oposta às razões: Não me dava sono. Quanto mais eu olhava, mais queria ficar acordado para poder ver. Suspiros puros e fundos.

Sinceramente, ela não era a minha alma gêmea. Os iguais não combinam, repelem, e ela era ao contrário: O formato de seu rosto era o exato inverso do meu. Como numa inequação do segundo, terceiro, quarto grau. Como se algum ser supremo tivesse espulpido-o para encaixá-lo em minhas imperfeições.

Sua delicada levesa no olhar paralisava, ao mesmo tempo que estremecia e fazia meu coração disparar. Fato: Todo chocolate era amargo perto de sua boca. Qualquer vinho, fraco demais.

sábado, 28 de abril de 2007

O homem mais desprezível do mundo

Vou contar a história de Fred, o homem mais desprezível do mundo.

Fred era alto, esguio, tinha cabelos loiros, curtos, olhos pequenos e negros, vestia sempre terno azul escuro e sapatos pretos.

Era manhã de sábado. Esperava, de braços cruzados, do lado de fora da sala, o início da reunião. Muita gente já estava lá dentro. Fred, que não suportava atrasos, chegara às sete da manhã para a reunião que só começaria às 8. Cada vez mais, pessoas entravam e saiam da sala, impacientes.

Algumas conversavam, outras reservavam o lugar com bolsas e pastas de papel e outras apenas jogavam papo fora enquanto o palestrante não chegava.

Fred, o homem mais desprezível do mundo, não se incomodava em esperar, porém, não se sentia muito à vontade em conversar com um estranho. Não que ele fosse anti-social, pelo contrário: Fred era conhecido por longas e duradouras amizades, papos de horas e horas, porém, normalmente de manhã, até umas 9 ou 10, ele preferia ficar mudo, quieto, pensando no nada.

Trinta minutos já haviam se passado. Fred, o homem mais desprezível do mundo, com seu olhar baixo e nada imponente, pensava e julgava seus companheiros de reunião. Via hipocrisia em tudo e em todos: O modo das pessoas se vestirem, os ternos e as bolsas caras das madames, tinham, certamente, um feitiço: Toda aquela posse fazia-os sentirem-se importantes, como se fossem intocáveis, imortais. Besteira.
Naquele momento, Fred se lembrava de um amigo morto há alguns dias: Acontece com todo mundo. Com ou sem terno de marca.

Andou para um lado, para o outro, beliscou um bolo de laranja com calda de limão, tomou um café com pouco açúcar. Sentou em sua mesa, abriu seu laptop e enrolou até o início da palestra.

E assim passou o dia 28 de abril. Normal, como seria todos os seus dias seguintes e pacato como foram todos os anos que antecederam sua morte.

Os detalhes, que viviam apenas e tão somente em sua mente, o tornariam o homem mais desprezível do mundo; isto, se algum dia, ele tivesse permitido-os visitar o mundo real. Mas não visitaram.

E você? E se sua idéias ganhassem vida? O que seus pensamentos fariam de você?

Um pacato empregado, o presidente do Brasil, ou um maníaco sexual?
Não precisa responder. Sua mente já o fez.

domingo, 22 de abril de 2007

As sessenta mulheres de Carlos.

Trinta anos é, sem dúvida alguma, a pior idade do homem.
Entenda que quando digo trinta, é só trinta. Nada a mais, nada a menos. Vinte e nove ainda está na casa dos vinte; trinta e um, já teve um ano para se acostumar, mas, trinta anos... ahh trinta anos. Isto sim, é o pior que um homem pode sentir: Começa a reparar nos fios de cabelo brancos, nas rugas, no jeito "tiozão de andar", entre outros.

Carlos faria trinta anos em quatro dias e, repentinamente, a euforia e preocupação relativa às conseqüências dos trinta vieram à tona. Pouco tempo depois, já tinha a saída:

- Já li sobre isto, é psicológico. Já vi uma dúzia de psicólogos dizendo que temos que tratar é da auto-estima. O resto, se resolve sozinho.

Fácil. Carlão encontrou, em poucos minutos, a resposta para o seu psico-problema. Na verdade, o problema apenas mudou de nome. Agora, ele só tinha que descobrir como dar um jeito nesta tal de auto-estima.

- Não, Carlão. Auto-estima não tem nada a ver com carro. O auto vem de você, do self, de dentro. Você tem que provar pra você
mesmo que não são três míseras décadas de anos que farão você perder o seu poder interior. Auto-estima tem a ver com mulher.

Quanto mais mulher você tiver, melhor - e maior - a sua auto-estima.

Bingo. A resposta estava lá, na frente de seus olhos o tempo todo: Mulheres!
A idéia de Carlão seria genial se não tivesse o fim que teve:

- Vou ligar para todas as mulheres da minha vida. Desde aquelas que peguei na balada até aquelas que namorei por anos. Incluindo a Silvia: dois anos de casada e dois filhos morando no Paraguai. Ligo para todas e marco um encontro. Convite individual, muito som, bebida à vontade e praticamente uma legião de mulheres falando de mim, me querendo, me desejando e tudo mais. Quer remédio melhor para aumentar nossa auto-estima?

Plano perfeito... para uma criança de 10 anos, mas Carlos, mesmo com seus trinta anos nas costas, não desistiu da idéia, assim, tão fácil. Fazer a lista foi uma tarefa árdua.

Carla, Gabriela, Renata, Vivian, Juliana, Raquel, Priscila, Fátima, Irma, Rafaela, Paulinha, Pedra, Bárbara, Alessandra e mais quarenta e seis nomes de gatas. Bom, nem todas tão gatas.
De qualquer forma, Carlos não teve nenhum tipo de preconceito e chamou todas que tinha certeza que eram mulheres. (!)

Pronto. Já eram oito e quarenta da noite. O pequeno salão já estava cheio com as sessenta mulheres de Carlos, além da DJ, as treze hostess e as quatro policiais que ele fez questão de chamar no caso de histeria coletiva e surto generalizado das participantes do sexo feminino.

Tempo depois de todos se acomodarem, Carlão decidiu entrar na festa para colocar em prática a sua idéia genial.

Bom, seria genial se não tivesse o fim que teve.

.

Qual o fim que teve?
Sei lá, eu não fui convidado.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Cuco

Ou leia lentamente, ou não leia.
Imagine cada linha, respire cada palavra, sinta cada intenção.


Cena1
: Lado esquerdo do palco aceso. Lado direito apagado.
Cena2: Lado esquerdo do palco apagado. Lado direito aceso.

A cada mudança de cena, um lado é apagado e o outro é aceso.

Cena1: Cena cinza, roupas novas, abajur aceso, rádio grande, cinza também.
Na frente do palco, em preto e branco, um jovem de 20 anos. Ao fundo, um calendário de 1945 e um relógio novo de 1945 com ponteiros grandes.

Cena2: Cena colorida, roupas antigas, abajur falhando, rádio quebrado.
Na frente do palco, colorido, um senhor de 70 anos. Ao fundo, um calendário de 1995 e um relógio antigo de 1945 com ponteiros grandes.


Cena1: O rapaz tem mocidade, força, vontade. Ao seu lado, uma companheira que o aplaude a cada tentativa, porém, falta-lhe experiência. Falta-lhe maturidade. Sobram os amigos. Falta-lhe sabedoria.

Cena2: O velho tem maturidade, experiência, sabedoria. No quadro, a foto de sua companheira. Apenas a foto e uma vela ao lado. Falta-lhe mocidade, falta-lhe força. Sobra a solidão. falta-lhe os amigos.

O lado direito é apagado. No escuro completo, ouve-se três batidas do relógio. As duas cenas se acendem gradativamente. O moço e o velho se olham. Lentamente, sem desviar o olhar, caminham, um em direção ao outro. Os passos são guiados pelo tic-tac ensurdecedor do relógio.

Quando bem próximos, olham para o relógio ao fundo, olham para a platéia, se olham, levantam suas mãos e, no momento do toque, as luzes se apagam. Blackout.

Ouve-se, durante 3 vezes, o canto do cuco.

Cena1:
Tudo o que ele quer é avançar no tempo. A juventude é supérfula. A experiência é necessária. Vai até o relógio, segura o ponteiro com suas duas mãos e briga. Com muito esforço, consegue movê-lo para frente 1 vez.

Inverte-se as cenas. Ao som do tic-tac:

30% da luz da cena 1 é apagada.
A cena 2 é acesa em 30%.

O ponteiro é movido mais uma vez.

Mais 30% da luz da cena 1 é apagada.
A cena 2 é acesa em mais 30%.

O ponteiro é movido mais uma vez.

100 % da luz da cena 1 é apagada.
A cena 2 é acesa em 100%.

Cena2: Tudo que ele quer é voltar no tempo. A experiência é supérfula. A juventude é necessária. Vai até o relógio, segura o ponteiro com suas duas mãos e briga. Com muito esforço, consegue movê-lo para trás 1 vez.

Inverte-se as cenas.

Cena1:
O jovem está mais velho. As cores se misturam com o cinza. O calendário diz 1950. Ele ainda não se satisfaz com sua experiência. Quer mais. A imagem de sua companheira está fraca, quase transparente. Um quadro em branco aparece ao fundo.

Ele vai até o relógio e o força, novamente, tentando movê-lo para frente.

Inverte-se as cenas.

Cena2:
O velho está mais jovem. O cinza se mistura com as cores. o calendário diz 1970. Ele ainda não se satisfaz com sua mocidade. Quer mais. A foto de sua companheira no quadro está fraca, quase transparente. A imagem de uma moça começa a aparecer.

Ele vai até o relógio e o força, novamente, tentando movê-lo para trás.

Inverte-se as cenas.

Cena1:
O jovem está velho. Não existe mais cinza. O calendário diz 1995. Ele, agora, se satisfaz com sua experiência. Não existe mais a imagem de sua companheira. Vê-se apenas o quadro e uma vela ao lado. Agora falta-lhe mocidade, força, vontade.

Inverte-se as cenas.

Cena2:
O velho está jovem. Não existe mais cor. O calendário diz 1945. Ele, agora, se satisfaz com sua juventude. Não existe mais apenas a lembrança de sua companheira. Falta-lhe experiência, maturidade, sabedoria.

Agora, tudo o que ele precisa, é acelerar o tempo. Vai até o relógio, força o ponteiro para baixo. Ao som do tic-tac:

30% da luz da cena 2 é apagada.

Força novamente. 60% da luz da cena 2 é apagada.

Força novamente. O ponteiro quebra. Blackout.

Ouve-se uma vez: Cuco.

Acende-se as luzes.
Os dois agradecem os aplausos.
Blackout.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

domingo, 1 de abril de 2007

Para a namorada

E a menina, toda afobada, rasgou o envelope e leu:

"Por que demorei a perceber? Meu mundo é nada sem você.
Nunca amei tanto como te amo. Agora não é mais um mero engano.
Para sempre seja minha. Prometo ser seu Rei; prometa ser minha Rainha.

Quer casar comigo?"

Ela sorria, ao mesmo tempo que enxugava suas doces lágrimas.
Dobrou a carta e viu que, no dorso do papel, havia um pequeno bilhete :

"Agora que você já leu, que estás com o corpo a mil,
te digo que se fodeu. É primeiro de Abril."

Seu namorado.




“Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cômodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória.

Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira, raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte».

Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer diretamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil.

Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência.”

Friedrich Nietzsche, in
'Humano, Demasiado Humano'