terça-feira, 25 de julho de 2006

Sabe?



Sabe?
Sabe quando você sente aqueles tremores, sabe?
Sabe aquela hora que quando você menos espera, te sobe uns calafrios, sabe?
É difícil de explicar, mas parece que a gente está enlouquecendo... a gente sente falta de ar, taquicardia, palpitações, vertigens. Sabe?
É uma coisa diferente... te deixa doido, te dá fortes náuseas, sufocamento.
Sabe... será que tem um nome pra isso? Será que tem cura?


Tem sim.
Isso é transtorno do pânico.
Toma Rivotril que passa.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Musa-de-hoje

Nove e quarenta e cinco. pm.
A razão pelo que começo escrever este começo de conto não tem lá suas muitas razões.
Prometo que não vou deixar de escrever toda a verdade e nem vou usar muitas metáforas. Prometo. Pelo menos até onde a verdade quiser ir... o resto eu invento, prometo.

Certamente eu veria neste texto uma espécie de conto melancólico surreal se não viesse de um jantar, no mínimo especial, que acabou de acabar.

Meu estômago já estava cheio de escarola com carne com palmito e com marisco.
Tudo isso embrulhadinho dentro de uma empanada do seu Guaton, lá na Arthur de Azevedo. Tinha sido um ótimo jantar. Eu, acompanhado de mim mesmo.

Já vinha voltando pro meu escritório, bem calminho e tentando espremer as últimas gotas de um Flash Power que não queria sair da lata. Então eu vi. Estava na padaria, ao lado. Não pensei e entrei - com o pé direito -.

Era ela mais branca que leite condensado. Seus cabelos eram tão escuros como a noite e seus olhos, fundos e sombrios. Usava uma sandália bege, barata e tinha os dedos do pé pintados com uma tinta vermelha-sangue. Vermelha como a carne que saltava de seus dedões, fruto da incompetência de alguma cabeleireira metida a manicure.
Ela era muito mais magra que você pode pensar em imaginar. Seus braços pareciam duas varetas e suas escápulas pareciam asas.
Asas. Tudo levava a crer que era um anjo que havia pousado na padaria pra tomar um café e, em suas costas, a tatuagem de um “A” alado. Definitivamente um anjo.

Fiquei parado por alguns segundos, atônito, esperando que simplesmente fosse notado por ela. Ao seu lado, uma morena magra sem nenhuma importância ou beleza. Era tão feia como um poodle. Prefiro nem tentar lembrar daquela presença desagradável. Se bem que tudo se tornava desagradável e sem importância em sua presença.

Minha barriga doía de tanta coisa no estômago, mas mesmo assim resolvi beber e conseguir desculpas pra ficar sonhando acordado. Entre um gole e outro de suco Xandô, via nela um futuro no céu, um furo nas nuvens, mas minha introspecção não me permitiu que a pegasse em meus braços, a jogasse no chão e rolasse com ela sobre aquele chão forrado de sangue de rato, para ser levado ao paraíso com minha musa-de-hoje.

Levantei, terminei meu penúltimo gole no suco, me vi em seu espelho ocular e dei cinco passos em direção à porta. Os três últimos me fizeram virar à direita e parar, parar pra ela. Esperar por ela. Esperar por um final feliz.

Ela sai, não olha pra mim e vira à esquerda.
Respira, pega na mão do cachorro e anda.

Tomara que a carrocinha leve as duas.

Provocação

Parte 1: Por Rafael Baltresca

Tam, tam, tanam.
Tam, tanam, tanam, tanaaaam.

O céu estava limpo naquela manhã chuvosa.
Muitas lágrimas se ouviam no dia em que a morte chegou.

Fúnebremente, a cor-de-carvão-molhado trajava os espectadores ainda limpinhos.
Deles, os passos lentos empurravam o pó pra frente e pra cima.

Abre-se espaço no mar de gente.
A grande caixa vem, aberta, e umidecida pela falta de sorriso dos espectadores.

Parte 2: Por Ana M. Costa

(Aguardando postagem)

Separado e sem acento

Separado e sem acento

Quando tinha 2 anos, caí do berço. Fraturei o antebraço esquerdo.
Não entendia muita coisa naquela época, mas depois de alguns muitos anos queria saber o porquê.

No meu 7º aniversário, meus amiguinhos jogaram meu bolo no chão. Era de chocolate.
Isso me causou um transtorno compulsivo obsessivo e um trauma que levei até meu último dia: não podia mais ver crianças em festas que corria para beliscá-las. Com força. Até ficar preto, como o chocolate.

Quando fiz 16 anos, reprovei de educação física.
Isso era proibido nas escolas da região, mas não na minha. Perdi um ano inteiro por causa de uma bosta de uma aula de handball. Porquê? Porquê?

Aos meus 19 anos, peguei minha namorada com meu melhor amigo.
4 anos jogados ao léu. Perdi o amigo e a namorada. Só queria saber o porquê.

Aos 22 anos fui humilhado por meu professor de línguas porquê ainda não sabia o uso dos porquês. Eu quero que essa merda de porquê vá pro inferno.
Hoje só uso o porquê junto e com acento. Acho que tem mais cara de porquê do que por quê ou porque. Porquê tem tanta gente que se pensa que é mais que os outros simplesmente por causa de um porquê?

25 anos de idade. Perdi meus pais num acidente imbecil.

29. Fiz muitos amigos. Ganhava muito dinheiro.

32 anos nas costas e reencontrei minha ex-namorada de quando eu tinha 19.
Casei-me com ela. E fui muito feliz. Até ela ir embora e levar tudo o que eu tinha.
Maldita conta conjugada do Bradesco. Porquê será que inventaram esse banco dos infernos? Porquê?

33 anos. Não tinha mais amigos. Só um, o Laércio. Que morreu quando eu tinha 34.
(???)

45 anos. Descobriram que eu estava doente.
Deram-me 3 anos de vida. Passei esses últimos 1095 dias tentando descobrir o meu porquê e os porquês da minha vida. Vivia numa constante entrevista, onde eu era o entrevistador e o entrevistado ao mesmo tempo. Procurando os porquês e quase nunca os encontrando.

Aos 48 anos encontrei Deus. (Porquê? Porquê morri.)
Deus é uma figura esbranquiçada, quase uma marca d´água celestial.
Grande, com barba azul. Seus pés são grossos e seus calcanhares grandes. É bem parecido com o que imaginava.

Neste dia tive uma conversa com Ele.
Não sabia disso, mas quando a gente morre, a gente tem uma sessão de bate-papo com Deus. Lá ele te explica todos os porquês da sua vida.

Porquê você não se casou, porquê você teve 15 filhos, porquê você nunca pôde ter filho, porquê seu namoro com aquela menina, porquê você nunca foi um profissional de sucesso, porquê você sempre ganhava dos seus amigos no truco etc, etc, etc.

Naquele momento, minha vida fazia todo o sentido.

Descobri o porquê da queda do berço, o porquê do bolo no chão, o porquê do trauma (de todos eles), o porquê de mais um ano na escola por causa do handball, o porquê da chifrada que tomei, o porquê da traída que dei, o porquê que não entendia os porquês, o porquê de quando fui humilhado, o porquê de quando humilhei, o porquê de meus pais, o porquê de mim, o porquê de meus quase amigos, o porquê do Bradesco, o porquê do Laércio, o porquê das felicidades e o porquê das desgraças.

Naquele momento, minha vida fazia todo o sentido.
Os porquês tinham um porquê!

E então, Deus estalou seus dedos e eu sumi
E não fui nem pro céu e nem pro inferno.

Naquele momento, eu não tinha sentido.


E o porquê continuou,

separado

e

sem

acento.

terça-feira, 18 de julho de 2006

Minutos

O médico olhou aquele aparelho grande, olhou para mim, olhou novamente para o aparelho, olhou para baixo e disse:

- "Você tem 184 minutos de vida"

Segue os minutos...

• Faltando 169 minutos cheguei em casa;

• Faltando 49 minutos visitei meus parentes, abracei, beijei e disse tudo aquilo que você já sabe;

• Faltando 39 minutos liguei praquela que eu sempre amei, mas nunca tive coragem de falar. E falei;

• Faltando 29 minutos liguei praquela que pensava que eu a amava, mas nunca amei. E falei também;

• Faltando 12 minutos liguei praquela que pensava que eu a amava, e amava mesmo! E fiquei mudo. Só pra não ficar se achando, na hora do velório.

• Faltando 2 minutos entrei no Orkut® e mandei uma mensagem para todos os meus amigos. E o rodapé dizia: "Se não mandar essa mensagem para 15 pessoas, vou voltar e puxar sua perna."

• Faltando 4 segundos: "Bad, bad server... No donut for you!"

Orkut de bosta!

sábado, 8 de julho de 2006

Amor sincero

Era amor sincero.
Doentio, mas sincero.
Era tão frágil quanto sincero. Mas ainda assim sincero
e doentio.

Era uma carona casual.
Ela entrou e se sentou.
Ele verificou a trava e pediu que colocasse o cinto. Sinto.
Ela obedeceu.

Ele a amava e não sabia mais nada. E nem como.

10, 20, 30,
40, 50, 60,
70, 80, 90,
100 (cem) quilômetros. Por hora.

Ele verificou se seu cinto estava preso. Sim.
Ele, então, verificou se o cinto dela estava preso. Sim. E destravou. Não!

100, 110, 120,
130, 140,
0 (zero) quilômetros por hora.

Era amor sincero.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Maxilar

Nasceu o primeiro filho do "omagico poeteiro".
E já veio com todos os dentinhos...

É a junção das articulações de Mr. Bal e Ms. Veet Maya.
O nome dele?

Maxilar.
http://maxilar.blogspot.com

terça-feira, 4 de julho de 2006

Para os fumantes

1) Crie um arquivo chamado “sua vida” e salve-o em seu computador;
2) Clique com o botão direito sobre ele selecione “Excluir”;
3) Aparecerá a seguinte mensagem:


A escolha é sua.
Clique em ‘Sim’ ou então renomeie o arquivo para ‘Cigarro’.

domingo, 2 de julho de 2006

Bota na bunda do coelho na cartola.

A assistente: Bal, porquê você não tira o coelho da cartola?
O Bal: Porquê não dá...

- Como assim não dá?
- Não dá, ué!
- Imagina... eu mesma já vi um mágico tirando o coelho da cartola.
- Não viu não. Deve ter visto uma pomba se transformar num coelho, de uma caixa de fogo sair um coelho, mas da cartola não.
- Você tá dizendo que a mágica mais famosa do mundo não existe?
- Isso. Não existe.
- Mas como? Dá pra você me explicar melhor?
- Não.
"De dia, amante e amigo, à noite, desconhecido."
Como que a mágica mais famosa do mundo pode não existir?
Talvez ela até exista, mas simplesmente no inconsciente da população mundial. Exatamente como acontece com muitos porcentos do que você imagina que seja verdade por sermos rodeados internamente e eternamente por paradigmas e mais paradigmas.

Paradigmas são pensamentos enraizados em nossa mente. É muito mais que um preconceito, é uma verdade inventada, transformada e materializada por nós, trazidas inconscientemente para nosso consciente.
É triste, mas às vezes vivemos num mundo de faz-de-conta e não damos conta de que tentamos e conseguimos nos enganar transformando nossos desejos em fatos.

Esses dias estava fazendo uma faxina no meu computador e me deparei com alguns arquivos de conversa que havia tido com uma ex-namorada:

Ela: "Você promete que nunca vai me deixar? Promete que vai viver comigo para sempre? Por favor... não fique longe de mim. Sem você eu morro."

Depois de alguns meses, levei uma bota { na bunda } e, acreditem, ela não morreu.

Porque aquele amor explosivo, aquela paixão ardente, aquela necessidade de estar juntos, aquela mulher ideal, aquele sorriso perfeito e aquele sonho imaginativamente significativo se transformou em uma realidade significativamente imaginária?

Fácil. Simplesmente porque aquele amor explosivo, aquela paixão ardente, aquela necessidade de estar juntos, aquela mulher ideal, aquele sorriso perfeito e aquele sonho imaginativamente significativo eram frutos de meus paradigmas. É o que os psicólogos tentam nos mostrar após anos de estudo e horas de divã: que somos 80% imaginação e 20% verdade. E que fazemos mais que sonhar, materializamos pesadelos e imaginações para depois nos culpar e sofrer pelo imaginário que nunca quis ser real.

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, era apaixonado por uma menina chamada Julia.
Sonhei com ela durante o ano todo. Esperava ansioso para terminar a aula, vinha correndo pra casa, apagava as luzes, deixava a janela meio aberta, me deitava - e pensava -.

No começo, pensava nela apenas me olhando, depois, vindo em minha direção, pegando em minha mão e me beijando.
Em minha mente, namoramos durante alguns meses e quase repeti de ano por ficar mais tempo na cama com os livros embaixo da cabeça do que dentro dela.

Ainda em sonho e pensamentos nos tornamos os melhores amigos, companheiros de vida e de alma.
Eu só não esperava o que acabou acontecendo... ela me trocou, me deixou e se foi.

Tudo isso em meu imaginário.
Realidades inventadas e vividas como se não fossem o que sempre foi ... ou o que fosse o que nunca deveria ser.

No último dia de aula, ela tentou se aproximar, mas, meu orgulho paradimatizado fez com que eu me virasse e fosse embora. Depois disso, nunca mais a vi.

Esses dias, pelo orkut, a reencontrei e fiquei sabendo que eu fui a paixão da vida dela por muito tempo e apenas não tinha vindo falar comigo pois, imaginava...

- Você tá dizendo que a mágica mais famosa do mundo não existe?
- Isso. Não existe.
- Mas como? Dá pra você me explicar melhor?
- Não.
- Mas e se você fizer um corte na cartola, um fundo falso na mesa e um alçapão?
- Boa idéia. Aí, dá.
Eu sabia que dava.

Rafael Baltresca
22h27, domingo.