domingo, 2 de julho de 2006

Bota na bunda do coelho na cartola.

A assistente: Bal, porquê você não tira o coelho da cartola?
O Bal: Porquê não dá...

- Como assim não dá?
- Não dá, ué!
- Imagina... eu mesma já vi um mágico tirando o coelho da cartola.
- Não viu não. Deve ter visto uma pomba se transformar num coelho, de uma caixa de fogo sair um coelho, mas da cartola não.
- Você tá dizendo que a mágica mais famosa do mundo não existe?
- Isso. Não existe.
- Mas como? Dá pra você me explicar melhor?
- Não.
"De dia, amante e amigo, à noite, desconhecido."
Como que a mágica mais famosa do mundo pode não existir?
Talvez ela até exista, mas simplesmente no inconsciente da população mundial. Exatamente como acontece com muitos porcentos do que você imagina que seja verdade por sermos rodeados internamente e eternamente por paradigmas e mais paradigmas.

Paradigmas são pensamentos enraizados em nossa mente. É muito mais que um preconceito, é uma verdade inventada, transformada e materializada por nós, trazidas inconscientemente para nosso consciente.
É triste, mas às vezes vivemos num mundo de faz-de-conta e não damos conta de que tentamos e conseguimos nos enganar transformando nossos desejos em fatos.

Esses dias estava fazendo uma faxina no meu computador e me deparei com alguns arquivos de conversa que havia tido com uma ex-namorada:

Ela: "Você promete que nunca vai me deixar? Promete que vai viver comigo para sempre? Por favor... não fique longe de mim. Sem você eu morro."

Depois de alguns meses, levei uma bota { na bunda } e, acreditem, ela não morreu.

Porque aquele amor explosivo, aquela paixão ardente, aquela necessidade de estar juntos, aquela mulher ideal, aquele sorriso perfeito e aquele sonho imaginativamente significativo se transformou em uma realidade significativamente imaginária?

Fácil. Simplesmente porque aquele amor explosivo, aquela paixão ardente, aquela necessidade de estar juntos, aquela mulher ideal, aquele sorriso perfeito e aquele sonho imaginativamente significativo eram frutos de meus paradigmas. É o que os psicólogos tentam nos mostrar após anos de estudo e horas de divã: que somos 80% imaginação e 20% verdade. E que fazemos mais que sonhar, materializamos pesadelos e imaginações para depois nos culpar e sofrer pelo imaginário que nunca quis ser real.

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, era apaixonado por uma menina chamada Julia.
Sonhei com ela durante o ano todo. Esperava ansioso para terminar a aula, vinha correndo pra casa, apagava as luzes, deixava a janela meio aberta, me deitava - e pensava -.

No começo, pensava nela apenas me olhando, depois, vindo em minha direção, pegando em minha mão e me beijando.
Em minha mente, namoramos durante alguns meses e quase repeti de ano por ficar mais tempo na cama com os livros embaixo da cabeça do que dentro dela.

Ainda em sonho e pensamentos nos tornamos os melhores amigos, companheiros de vida e de alma.
Eu só não esperava o que acabou acontecendo... ela me trocou, me deixou e se foi.

Tudo isso em meu imaginário.
Realidades inventadas e vividas como se não fossem o que sempre foi ... ou o que fosse o que nunca deveria ser.

No último dia de aula, ela tentou se aproximar, mas, meu orgulho paradimatizado fez com que eu me virasse e fosse embora. Depois disso, nunca mais a vi.

Esses dias, pelo orkut, a reencontrei e fiquei sabendo que eu fui a paixão da vida dela por muito tempo e apenas não tinha vindo falar comigo pois, imaginava...

- Você tá dizendo que a mágica mais famosa do mundo não existe?
- Isso. Não existe.
- Mas como? Dá pra você me explicar melhor?
- Não.
- Mas e se você fizer um corte na cartola, um fundo falso na mesa e um alçapão?
- Boa idéia. Aí, dá.
Eu sabia que dava.

Rafael Baltresca
22h27, domingo.

Nenhum comentário: