terça-feira, 17 de julho de 2007

A magia interior

Ela não era nem alta, nem baixa. Nem loira, nem morena. Nem extravagante, nem recatada. Ela era, simplesmente, ela. A busca por um ideal, a eterna vontade de vencer e sua força de menina espelhavam a beleza de sua essência. Seu sorriso cativante e o seu perfume apaixonante, combinados com seu jeito único de ser, tinham um grande poder de encantar quem passasse por seu caminho.

Sua vida poderia ser tida como perfeita, não fosse um único detalhe. Detalhe este que guiava sua vida e a fazia viajar. De leste a oeste, de norte à sul, quando mergulhada na racionalidade de seu inconsciente ou quando pairava na magia de sua razão.

Que detalhe é este? Qual era o mistério ainda perdido na mente desta sonhadora? Ele era um só. Ela, simplesmente, não conseguia prever os passos de seu futuro.

O futuro, como sabido por todos à sua volta, nunca foi algo a ser compreendido. A magia e o mistério deste estranho desconhecido, nunca guiaram os pensamentos dos mais sábios aos mais espertos, pois, como eles mesmos julgavam, o futuro é um livro com páginas brancas. Impossível de ser lido às pressas se, antes de qualquer coisa, não for escrito na velocidade de sua vida.

E assim foi a luta desta bela adormecida, que estava prestes a despertar.

Não demorou muito para, quando menos esperava, conhecer algo novo. Novo, mas com a sensação de já tê-lo visto antes.

Iluminadamente misterioso e ao mesmo tempo verdadeiramente sombrio. Um desconhecido que aos poucos ia se revelando e se mostrando presente.

Aquilo que a levou a não mais temer e nem se importar com seu futuro, aquele que iria ajudá-la a escrever as páginas de seu próprio livro.

Muitos nomes são dados a ele. Das explicações mais simples, às teorias mais complexas, mas ela, com seu jeito simples de ser, decidiu chamá-lo de sua "verdadeira e única magia interior".

E ele se sentou, respirou e disse: Abra seus olhos.
E ela abriu.

E sua história começou. Déjá vu.

domingo, 1 de julho de 2007

Foi...

Foi quando você se recusou em falar comigo...
... é que meus ouvidos encontraram a voz dela.

Foi quando você se recusou em me olhar...

... é que descobri o verdadeiro brilho dos olhos dela.

Foi quando você me jogou ao chão frio...
... é que meu corpo, quente, foi levantado por ela.

Foi quando você, propositalmente, me ignorou...

... é que notei, casualmente, a presença dela.

Foi quando você disse que eu não valia nada...
... é que ela me mostrou o meu verdadeiro valor...


Foi quando você, em público, se negou me beijar...
... é que descobri os lábios dela, em particular.

Foi quando você deixou de me amar...

sábado, 30 de junho de 2007

O tudo ou o nada?

- Seus olhos me lembram tanta coisa... O mar, o infinito, um mundo misterioso, o reflexo do céu.

- Mas o mar é perigoso...
- Discordo. As pessoas que se colocam em perigo.

- Mas o mar não é muito grande para você? Não tem medo?
- Não, adoro o mar. Sempre adorei.

- E o infinito que tanto fala? Descreva o infinito para mim, rapidamente, sem pensar muito.

- Infinito... ele representa o tudo e o nada ao mesmo tempo.
- Como assim?

- A segurança do "para sempre" e a incerteza do "nunca chegará".

- O nada recorda vazios, sulcos, buracos que podem ser preenchidos. O tudo te transborda, te enche, mas seu limite é eminente. Escolha. O tudo ou o nada?

- hmmmmm. o Nada.

E assim começou a história da...


... Princesa Sofia

Era uma vez...

terça-feira, 26 de junho de 2007

No MSN: Jaqueline fica offline no final.

No MSN... Jaqueline fica offline no final.


:: Jaqueline diz:
Por que não gosta que os mágicos ensinem na TV? Me ensina que paro de ver na tv.

:: Bal3K diz:
Ensinar pra quê? Só pra você saber como faz?

:: Jaqueline diz:
É.

:: Bal3K diz:
Quer segredos? Ok. Eu te conto.

:: Jaqueline diz:
Me conte.

:: Bal3K diz:
Shrek 3: No final ele tem 3 filhos e o rei Arthur assume o trono.

:: Bal3K diz:
Qual mais vc quer? O homem-aranha 3?

:: Jaqueline diz:
naummmmmmmmm.

:: Jaqueline diz:
Pára!!!!!!!!!!!

:: Jaqueline diz:
Num conta o filme, poxa!

:: Bal3K diz:
Ué.. não quer saber segredos?

:: Bal3K diz:
O homem-aranha se casa com a ruivinha no final.

:: Jaqueline diz:
Pára.

:: Bal3K diz:
E o amigo dele morre no meio.

:: Jaqueline diz:
Num queru mais saber. chegaaaa!

:: Bal3K diz:
Vou te contar. Vc não queria saber segredos?

:: Jaqueline diz:
Ô paraaaaaaaaaaaaaa fiodaputa!!! paraaaaaaaa!

:: Bal3K diz:
Agora aguenta. Quer peças de teatro também?

:: Jaqueline diz:
naummmmmmm. naummmmm quero.

:: Bal3K diz:
"Miss Saigon" ou "O fantasma da ópera"?

:: Jaqueline diz:
Nããããããããããããão caraio cacete pqp porra cacete fiodumaégua!

:: Bal3K diz:
Miss Saigon: A Kim se mata no final e o Chris Fica com a Ellen.

:: Jaqueline diz:
Putoooooooooooo viadoooooooooooo porraaaaaaaaaaaaaaaaa caraio

:: Bal3K diz:
No Fantasma da ópera, O Fantasma desaparece e deixa a Christine ficar com o Raoul.

:: Jaqueline diz:
paaaaaaaaaaaaaaaaaaara meu, por favor. to ficando puta com você!!!!

:: Bal3K diz:
Calma... A Eddie Britt se suicida em Desperate Housewives. Quer mais? Quer?

:: Jaqueline diz:
Você é um puto de uma figa de merda. caceteeeeeeeeeeeee! páraaaaaaaaaa porrrraaaaaaaaaaa pqp cacete

:: Bal3K diz:
Não quer saber segredos???

(( Jaqueline está offline. Sua mensagem não pôde ser entregue))


:: Bal3K diz:
É assim que nos sentimos quando revelam nossos segredos. Entende agora?

(( Jaqueline está offline. Sua mensagem não pôde ser entregue))

:: Bal3K diz:
Offline? Justamente agora que eu ia contar o final do Harry Potter e a ordem da Fênix? Bah.

(( Jaqueline está offline. Sua mensagem não pôde ser entregue))


Você já sabia que ela ficava offline no final?
Que coisa...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Conto segredos...

No final do Shrek 3o, ele tem 3 filhos e o rei Arthur assume o trono.

Contei o final do filme? Desculpe-me... foi só pra dar IBOPE.

É assim que nos sentimos quando contam os nossos segredos. Leia o manifesto em http://omagico.com/segredo/

Salut!

domingo, 17 de junho de 2007

Sou feliz por não ser gay.

Aposto que já está pensando que vou gastar alguns de meus minutos escrevendo um texto discriminatório e preconceituoso sobre a sexualidade dos outros. Aposto!
Engano seu.

Voltando de Atibaia, hoje, já na Av. Paulista, deparei-me com um fato no mínimo estranho, mas que - realmente - não deveria ser.
Dentre a multidão corriqueira desta movimentada avenida paulistana, vejo, em letras negras, grandes, num fundo amarelo-ouro, os seguintes dizeres, vindo de um banner ao alto: "1a parada do Orgulho Hetero".
Me acabei em gargalhadas.

Aposto que o banner não durou muito. Provavelmente foi taxado como discriminatório e, sem razão, picado em trocentas partes. Particularmente, achei genial.

Pergunto: Por que não podemos nos orgulhar por sermos normais e triviais? Não, não é isso. Não quero dizer que gays são anormais; Longe disso, porém, você há de concordar comigo que ser gay é, no mínimo, diferente da grande massa.

Bom, não tenho nenhuma intenção em discutir assuntos relativos à sexualidade aqui, pois não tenho competência alguma para tanto. Quero é celebrar os poucos donos de pensamentos iguais, porém, imparciais, ativos e decididos.
Difícil de entender?

Explico:

Celebremos, em letras garrafais, os que se orgulham por...

Não fumar em público e nem em lugar privado. Simplesmente não fumar.
Passear com a esposa no shopping, sem medo de encontrar a amante.
Levar o filho à escola e, na volta, tirar dúvidas de matemática, geografia e português.
Dizer à esposa que vai jogar bola com os amigos e realmente ir jogar bola com os amigos.
Dizer por favor, obrigado e desculpe.
Sair à noite com a aliança polida e à mostra.
Ficar até tarde na empresa para uma reunião de negócios e realmente estar numa reunião de negócios. E na empresa.
Pechinchar por não poder pagar e realmente não ter para poder pagar.
Vender, entregar e dar nota fiscal.
Marcar às 20h03 e chegar às 20h02.

Celebremos os normais!

Pensando bem, hoje em dia, se orgulhar e agir normalmente já é diferente.
Celebremos, então, os que pensam diferente!

Salut!

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Lúcia

Ele era alto, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro, pernas grossas e se chamava Lúcia. Ela era alta, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro, pernas grossas e se chamava Lúcia.
Os dois se conheceram através de sua amiga Lúcia que era alta, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro e pernas grossas, irmã da prima da Lúcia, que também era alta, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro e pernas grossas.
Depois de 5 meses de casados, ganharam um bebê lindo: alto, cabelos longos, loiros, um rosto magro, pernas grossas. Pensaram muito em seu nome e, depois de algumas conversas, decidiram que se chamaria Lúcia.
Lúcia, a caçula da classe, era a queridinha da professora Lúcia, que era alta, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro, pernas grossas, mas não se dava com Lúcia, o menino do fundo: alto, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro, pernas grossas. Um dia Lúcia chegou em casa e se emocionou ao ver o presente que seu pai, Lúcia, havia deixado em sua casa: Um cachorrinho. Ele era lindo. Era alto, cabelos longos, loiros, tinha um rosto magro, pernas grossas.
Seu nome? Lúcia. Não havia mais opções.

domingo, 3 de junho de 2007

Apenas isto

Quando estiver feliz, mas muito feliz,
não me chame.

Quando vencer na vida, for campeã,
não me avise.

Quando tornar-se estupidamente alegre, não se incomode
em me ligar.

No dia em que estiver cheia de amigos, sugiro que apenas
aproveite a noite. Apenas isto.

Mas quando estiver em prantos,
Chorando como um bebê
sem os braços da mãe,

perdida,

magoada.

Sofrendo e soluçando como quem não tem rumo,
sem direção, nem vida,
fique à vontade em me achar.

Te darei o que tenho de melhor:

Meu ombro, meu colo, meus braços, meu abraço.

Apenas isto.

domingo, 27 de maio de 2007

Pena

Décimo quinto andar.
Ele estava descalço, apenas de bermuda, espalhado na cama. Ela, de camisola, chinelos, fazendo café na cozinha. O sol estava forte naquele domingo às 10h13.

Era um apartamento pequeno no centro de São Paulo. Da cama, ele podia admirá-la.

Com um sono matinal, conversavam:

- Não aguento mais a Ana.
- Quem, a sua ex?
- É. A própria. Fica me ligando, me mandando mensagens. Já estamos separados desde que te conheço, há uns 2 anos, e ela insiste em me amolar.
- É normal. Ela ainda é apaixonada por você.
- Eu sei, mas ela sabe que não damos certo. Acho que o problema é que somos muito iguais. Já ouviu falar que os opostos se atraem? Então, acho que a única coisa que ela é meu oposto é que sou homem e ela mulher. De resto, é tudo igual.
- Por que você não senta e conversa com ela?
- Conversar com aquela maluca? Nem pagando. No máximo, um e-mail.
- E-mail, não. Pelo amor de Deus. Esses recados tecnológicos são uma punhalada por trás. Escreve uma carta, então. Sabe onde ela mora?
- haha. Mas é claro. Morei lá 3 anos com ela.
- Então vai. Escreve o que você sente. Assim ela vai se conformar mais fácil. O silêncio dói muito. Ela deve estar sofrendo.
- Bom, mas não agora, né? Em pleno domingão, com um sol desses, você não vai me fazer sair da cama, vai?
- Folgado. É por isso que gosto de você, seu preguiçoso. Deixa que eu escrevo. Você dita e eu escrevo.
- Feito!

Vasculhou umas gavetas, pegou uma folha de sulfite nova, tirou as xícaras e o bule de café da mesa, limpou tudo com um pano velho, se espreguiçou e começou:

- Pronto,é só ditar.
- Bom, vamos lá:

- "Ana, "

E ela escreveu:

- "Querida Ana, "

E ele continuou:

"esta é a última vez que você ouvirá falar de mim. Já tentei de todas as formas te mostrar que você não é mais nada para mim. Na vida, tudo tem um fim. E o que havia entre nós, acabou.

Nosso amor existiu no passado e tudo o que sobrou foram lembranças. Estou com outra pessoa. E ela é com quem quero ficar pelo resto da vida. Espero que entenda.

Por favor, não me procure mais,

Sérgio"

E ela escreveu:

"esta não será a última vez que você ouvirá falar de mim. Já tentei de todas as formas desistir de tudo para ficar com você, mas ainda me sinto inseguro e com medo. Na vida, tudo tem um fim, mas o nosso amor está sempre em nossos corações.

As nossas lembranças estão cada vez mais presentes em minha memória. Estou com outra pessoa, mas quero que saiba que com quem eu quero ficar pelo resto da vida é você. Tento enganá-la, mas acho que estou enganando a mim mesmo.

Tudo o que quero dessa vida é você. Te amo muito.

Até breve,

Sérgio."

- Pronto! Agora ela não me procurará mais e eu terei o mínimo de sossego.

Ela levantou, dobrou a carta em três, e foi saindo:

- Onde você vai?
- Levar a carta nos correios.
- Por que está com lágrimas nos olhos?
- Nada.

Olhou para a carta pela última vez, selou, suspirou e pensou:

- Ahhh, mas essa vagabunda não vai ter esse gostinho, não.

Amassou a carta e jogou no chão. Voltou para casa com uma deliciosa sensação de missão cumprida.


Pena...

Pena que o carteiro viu uma carta no chão, amassada, e resolveu postar.

Pena...

Pena que o CEP estava errado.

Pena...

Pena que a carta voltou para o remetente.

Pena...

Pena que quem recebeu a carta de volta não foi ele.

Pena...

Pena que também não foi a namorada dele. Foi a amante.

Pena.

sábado, 19 de maio de 2007

Maná - Se Me Olvido Otra Vez

Probablemente ya de mí te te has olvidado
y sin embargo yo te seguiré esperando
No me he querido ir para ver si algún día
que tú quieras volver me encuentres todavía

Por eso aún estoy en el lugar de siempre
en la misma ciudad y con la misma gente
Para que tú al volver no encuentres nada extraño
y sea como ayer y nunca más dejarnos

Probablemente estoy pidiendo demasiado
se me olvidaba que que habíamos terminado
Que nunca volverás que nunca me quisiste
se me olvidó otra vez que solo yo te quise

Por eso aún estoy en el lugar de siempre
en la misma ciudad y con la misma gente
Para que tú al volver no encuentres nada extraño
y sea como ayer y nunca más dejarnos

Probablemente estoy pidiendo demasiado
se me olvidaba que habíamos terminado
Que nunca volverás que nunca me quisiste
se me olvidó otra vez que sólo yo te quise

Se me olvidó otra vez que sólo yo te quise
se me olvidó otra vez que sólo yo te quise
seme me olvidó otra vez que sólo yo te quise

se me olvidaba que habíamos terminado
Que nunca volverás que nunca me quisiste
se me olvidó otra vez que sólo yo te quise

terça-feira, 15 de maio de 2007

Urszula Sipinska

Rafael

A kto to slyszal, kto to widzial,
miec na imie Rafael.
Czy przy muzyce, czy przy winie
ktos ci dal imie to, Rafael.

Rafael, Rafael,
czy ty masz, czy ty masz, w zyciu sens.
Rafael, Rafael.
Rafael, nie zatanczysz, nie zagadasz,
to nie styl.
Rafael, zycie mija trudna rada, a ty wciaz
chodzisz zly, Rafael.

Gdzies na tym swiecie jest dziewczyna
ktorej nie smieszy to.
To twoje imie znaczy dla niej
srebrna noc, zloty dzien, sniegu biel.

Rafael, Rafael, czy ty masz .......

domingo, 6 de maio de 2007

O homem que sabia de tudo

"O mundo não se lembra do que não aconteceu"

Ninguém sabe de tudo, diz o ditado.
Na verdade, nem o ditado sabe de tudo, pois, existe um homem que sim, sabe de tudo nessa vida.
Quando digo que ele sabe de tudo, é por que realmente sabe de absolutamente tudo.

Seu nome: Christoffer Reinaldo Bermudas.

Bermudas não saiu de casa no sábado pela manhã. Ele sabia que se saísse, seria assaltado e, posteriormente, espancado. Ficou em casa numa boa. Comendo pizza e vendo TV. Sem nenhum perigo.
Um dia, Bermudas resolveu levar o guarda-chuvas num dia ensolarado. Depois de três horas estava ele, feliz da vida embaixo de um pé d'água. Como ele sabia que iria chover? Ninguém sabe. Apenas ele, que sabe de tudo.

E assim corria a vida de Bermudinha. Bermudinha... era assim que sua mãe o chamava e o encabulava na frente de seus amigos. Sempre certo. Sempre certeiro. Acertando de primeira. Acertando em cheio, o homem que sabia de tudo.

Um dia, numa prova de geografia, o aluno mais estudioso de sua classe na faculdade, Jonathan Rodrigues Reis, tirou 9,5. Impossível! Isso por que o professor cometeu um erro na correção da prova.
Bermudas, por sua vez, tirou 10. É claro que sabendo que o professor iria corrigir errado, resolveu responder errado também. É. Ele realmente sabia de tudo.

Aposto que você deve estar se perguntando: - "E no amor? Ele sabe de tudo, também?"

Então, realmente, Bermudas sabia de tudo. No amor, ele nem se preocupava em sair com diversas. Não saía para se divertir com as erradas. Ele, absolutamente, sabia quem seria e quando a mulher certa apareceria em sua vida: Sozinha. Num carro preto, pequeno. Ela não seria nem bonita, nem feia. Nem magra, nem gorda. Nem alta, nem baixa. Cabelo preto, com cara de má, porém meiga e cuidadosa. Cheirosa e carinhosa. Isabel.

Chegou o dia. Bermudas saiu com apenas um intuito: Encontrar Isabel no terceiro farol, do lado esquerdo do seu carro, como já sabido.

Dito e feito. Passou um, dois e no terceiro farol, o farol fechou. Bermudas olhou no espelho retrovisor e não viu ninguém. Repentinamente, sobe um carro pela rua ao lado e, à sua esquerda, pára um carro preto, pequeno, com uma garota nem bonita, nem feia. Nem magra, nem gorda. Nem alta, nem baixa. Cabelo preto, com cara de má, porém meiga e cuidadosa. Cheirosa e carinhosa. Isabel.

Bermudas abriu o seu vidro e sorriu.
Isabel, com medo do estranho, avançou no farol vermelho e sumiu da vista do homem que sabia de tudo.

Bom, ele sabia de tudo, mas ela, aquela vagabunda, não sabia de nada, quero dizer, sabia apenas ensinar aquelas criancinhas carentes. E só.
Bermudas nem foi atrás dela. Sabia que não a alcançaria jamais.
E ela nunca soube o que estava perdendo. Mas ele sabia o que perdeu.



"O mundo não se lembra do que não aconteceu"

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Junto ou separado

Por que você sumiu?
ou
Você sumiu, por quê?


Este porquê é com ou sem acento?

É junto ou separado?
Por que às vezes é assim que está certo?

Por que às vezes dá tudo errado?

Por que tantas respostas pra uma só pergunta?
Tantas interrogações, por quê?

Porque agora deve ser assim,
ou é o assim que muda o porquê?

Quem define este porquê?

Ou é mais um sujeito indefinido?
Será que é só questão de aprender?

Ou é mais um caso perdido?


Eu nunca me dei bem com regras.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Todo chocolate era amargo perto de sua boca. Qualquer vinho, fraco demais.

Não sei se foi sonho ou apenas mais um pesadelo para atormentar a minha vida. Talvez tenha sido tudo fruto da minha imaginação; talvez não. Hoje, a mulher perfeita olhou para mim.

Para imortalizar este rosto, este sorriso misterioso, nada melhor do que esboçá-lo aqui, em meu caderno de anotações...


A descrição da mulher perfeita

Seus olhos foram responsáveis por gelar a minha escoliose e acentuar, sensivelmente, a lordose que ainda me acompanha. Em uma piscada, estremeceu meus joelhos e fez-me, trincando minha espinha dorsal, suar frio. O sorriso não existiu.

O mistério atrás de seus lábios cerrados ainda não me deixa dormir. Uma hipnose oposta às razões: Não me dava sono. Quanto mais eu olhava, mais queria ficar acordado para poder ver. Suspiros puros e fundos.

Sinceramente, ela não era a minha alma gêmea. Os iguais não combinam, repelem, e ela era ao contrário: O formato de seu rosto era o exato inverso do meu. Como numa inequação do segundo, terceiro, quarto grau. Como se algum ser supremo tivesse espulpido-o para encaixá-lo em minhas imperfeições.

Sua delicada levesa no olhar paralisava, ao mesmo tempo que estremecia e fazia meu coração disparar. Fato: Todo chocolate era amargo perto de sua boca. Qualquer vinho, fraco demais.

sábado, 28 de abril de 2007

O homem mais desprezível do mundo

Vou contar a história de Fred, o homem mais desprezível do mundo.

Fred era alto, esguio, tinha cabelos loiros, curtos, olhos pequenos e negros, vestia sempre terno azul escuro e sapatos pretos.

Era manhã de sábado. Esperava, de braços cruzados, do lado de fora da sala, o início da reunião. Muita gente já estava lá dentro. Fred, que não suportava atrasos, chegara às sete da manhã para a reunião que só começaria às 8. Cada vez mais, pessoas entravam e saiam da sala, impacientes.

Algumas conversavam, outras reservavam o lugar com bolsas e pastas de papel e outras apenas jogavam papo fora enquanto o palestrante não chegava.

Fred, o homem mais desprezível do mundo, não se incomodava em esperar, porém, não se sentia muito à vontade em conversar com um estranho. Não que ele fosse anti-social, pelo contrário: Fred era conhecido por longas e duradouras amizades, papos de horas e horas, porém, normalmente de manhã, até umas 9 ou 10, ele preferia ficar mudo, quieto, pensando no nada.

Trinta minutos já haviam se passado. Fred, o homem mais desprezível do mundo, com seu olhar baixo e nada imponente, pensava e julgava seus companheiros de reunião. Via hipocrisia em tudo e em todos: O modo das pessoas se vestirem, os ternos e as bolsas caras das madames, tinham, certamente, um feitiço: Toda aquela posse fazia-os sentirem-se importantes, como se fossem intocáveis, imortais. Besteira.
Naquele momento, Fred se lembrava de um amigo morto há alguns dias: Acontece com todo mundo. Com ou sem terno de marca.

Andou para um lado, para o outro, beliscou um bolo de laranja com calda de limão, tomou um café com pouco açúcar. Sentou em sua mesa, abriu seu laptop e enrolou até o início da palestra.

E assim passou o dia 28 de abril. Normal, como seria todos os seus dias seguintes e pacato como foram todos os anos que antecederam sua morte.

Os detalhes, que viviam apenas e tão somente em sua mente, o tornariam o homem mais desprezível do mundo; isto, se algum dia, ele tivesse permitido-os visitar o mundo real. Mas não visitaram.

E você? E se sua idéias ganhassem vida? O que seus pensamentos fariam de você?

Um pacato empregado, o presidente do Brasil, ou um maníaco sexual?
Não precisa responder. Sua mente já o fez.

domingo, 22 de abril de 2007

As sessenta mulheres de Carlos.

Trinta anos é, sem dúvida alguma, a pior idade do homem.
Entenda que quando digo trinta, é só trinta. Nada a mais, nada a menos. Vinte e nove ainda está na casa dos vinte; trinta e um, já teve um ano para se acostumar, mas, trinta anos... ahh trinta anos. Isto sim, é o pior que um homem pode sentir: Começa a reparar nos fios de cabelo brancos, nas rugas, no jeito "tiozão de andar", entre outros.

Carlos faria trinta anos em quatro dias e, repentinamente, a euforia e preocupação relativa às conseqüências dos trinta vieram à tona. Pouco tempo depois, já tinha a saída:

- Já li sobre isto, é psicológico. Já vi uma dúzia de psicólogos dizendo que temos que tratar é da auto-estima. O resto, se resolve sozinho.

Fácil. Carlão encontrou, em poucos minutos, a resposta para o seu psico-problema. Na verdade, o problema apenas mudou de nome. Agora, ele só tinha que descobrir como dar um jeito nesta tal de auto-estima.

- Não, Carlão. Auto-estima não tem nada a ver com carro. O auto vem de você, do self, de dentro. Você tem que provar pra você
mesmo que não são três míseras décadas de anos que farão você perder o seu poder interior. Auto-estima tem a ver com mulher.

Quanto mais mulher você tiver, melhor - e maior - a sua auto-estima.

Bingo. A resposta estava lá, na frente de seus olhos o tempo todo: Mulheres!
A idéia de Carlão seria genial se não tivesse o fim que teve:

- Vou ligar para todas as mulheres da minha vida. Desde aquelas que peguei na balada até aquelas que namorei por anos. Incluindo a Silvia: dois anos de casada e dois filhos morando no Paraguai. Ligo para todas e marco um encontro. Convite individual, muito som, bebida à vontade e praticamente uma legião de mulheres falando de mim, me querendo, me desejando e tudo mais. Quer remédio melhor para aumentar nossa auto-estima?

Plano perfeito... para uma criança de 10 anos, mas Carlos, mesmo com seus trinta anos nas costas, não desistiu da idéia, assim, tão fácil. Fazer a lista foi uma tarefa árdua.

Carla, Gabriela, Renata, Vivian, Juliana, Raquel, Priscila, Fátima, Irma, Rafaela, Paulinha, Pedra, Bárbara, Alessandra e mais quarenta e seis nomes de gatas. Bom, nem todas tão gatas.
De qualquer forma, Carlos não teve nenhum tipo de preconceito e chamou todas que tinha certeza que eram mulheres. (!)

Pronto. Já eram oito e quarenta da noite. O pequeno salão já estava cheio com as sessenta mulheres de Carlos, além da DJ, as treze hostess e as quatro policiais que ele fez questão de chamar no caso de histeria coletiva e surto generalizado das participantes do sexo feminino.

Tempo depois de todos se acomodarem, Carlão decidiu entrar na festa para colocar em prática a sua idéia genial.

Bom, seria genial se não tivesse o fim que teve.

.

Qual o fim que teve?
Sei lá, eu não fui convidado.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Cuco

Ou leia lentamente, ou não leia.
Imagine cada linha, respire cada palavra, sinta cada intenção.


Cena1
: Lado esquerdo do palco aceso. Lado direito apagado.
Cena2: Lado esquerdo do palco apagado. Lado direito aceso.

A cada mudança de cena, um lado é apagado e o outro é aceso.

Cena1: Cena cinza, roupas novas, abajur aceso, rádio grande, cinza também.
Na frente do palco, em preto e branco, um jovem de 20 anos. Ao fundo, um calendário de 1945 e um relógio novo de 1945 com ponteiros grandes.

Cena2: Cena colorida, roupas antigas, abajur falhando, rádio quebrado.
Na frente do palco, colorido, um senhor de 70 anos. Ao fundo, um calendário de 1995 e um relógio antigo de 1945 com ponteiros grandes.


Cena1: O rapaz tem mocidade, força, vontade. Ao seu lado, uma companheira que o aplaude a cada tentativa, porém, falta-lhe experiência. Falta-lhe maturidade. Sobram os amigos. Falta-lhe sabedoria.

Cena2: O velho tem maturidade, experiência, sabedoria. No quadro, a foto de sua companheira. Apenas a foto e uma vela ao lado. Falta-lhe mocidade, falta-lhe força. Sobra a solidão. falta-lhe os amigos.

O lado direito é apagado. No escuro completo, ouve-se três batidas do relógio. As duas cenas se acendem gradativamente. O moço e o velho se olham. Lentamente, sem desviar o olhar, caminham, um em direção ao outro. Os passos são guiados pelo tic-tac ensurdecedor do relógio.

Quando bem próximos, olham para o relógio ao fundo, olham para a platéia, se olham, levantam suas mãos e, no momento do toque, as luzes se apagam. Blackout.

Ouve-se, durante 3 vezes, o canto do cuco.

Cena1:
Tudo o que ele quer é avançar no tempo. A juventude é supérfula. A experiência é necessária. Vai até o relógio, segura o ponteiro com suas duas mãos e briga. Com muito esforço, consegue movê-lo para frente 1 vez.

Inverte-se as cenas. Ao som do tic-tac:

30% da luz da cena 1 é apagada.
A cena 2 é acesa em 30%.

O ponteiro é movido mais uma vez.

Mais 30% da luz da cena 1 é apagada.
A cena 2 é acesa em mais 30%.

O ponteiro é movido mais uma vez.

100 % da luz da cena 1 é apagada.
A cena 2 é acesa em 100%.

Cena2: Tudo que ele quer é voltar no tempo. A experiência é supérfula. A juventude é necessária. Vai até o relógio, segura o ponteiro com suas duas mãos e briga. Com muito esforço, consegue movê-lo para trás 1 vez.

Inverte-se as cenas.

Cena1:
O jovem está mais velho. As cores se misturam com o cinza. O calendário diz 1950. Ele ainda não se satisfaz com sua experiência. Quer mais. A imagem de sua companheira está fraca, quase transparente. Um quadro em branco aparece ao fundo.

Ele vai até o relógio e o força, novamente, tentando movê-lo para frente.

Inverte-se as cenas.

Cena2:
O velho está mais jovem. O cinza se mistura com as cores. o calendário diz 1970. Ele ainda não se satisfaz com sua mocidade. Quer mais. A foto de sua companheira no quadro está fraca, quase transparente. A imagem de uma moça começa a aparecer.

Ele vai até o relógio e o força, novamente, tentando movê-lo para trás.

Inverte-se as cenas.

Cena1:
O jovem está velho. Não existe mais cinza. O calendário diz 1995. Ele, agora, se satisfaz com sua experiência. Não existe mais a imagem de sua companheira. Vê-se apenas o quadro e uma vela ao lado. Agora falta-lhe mocidade, força, vontade.

Inverte-se as cenas.

Cena2:
O velho está jovem. Não existe mais cor. O calendário diz 1945. Ele, agora, se satisfaz com sua juventude. Não existe mais apenas a lembrança de sua companheira. Falta-lhe experiência, maturidade, sabedoria.

Agora, tudo o que ele precisa, é acelerar o tempo. Vai até o relógio, força o ponteiro para baixo. Ao som do tic-tac:

30% da luz da cena 2 é apagada.

Força novamente. 60% da luz da cena 2 é apagada.

Força novamente. O ponteiro quebra. Blackout.

Ouve-se uma vez: Cuco.

Acende-se as luzes.
Os dois agradecem os aplausos.
Blackout.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

domingo, 1 de abril de 2007

Para a namorada

E a menina, toda afobada, rasgou o envelope e leu:

"Por que demorei a perceber? Meu mundo é nada sem você.
Nunca amei tanto como te amo. Agora não é mais um mero engano.
Para sempre seja minha. Prometo ser seu Rei; prometa ser minha Rainha.

Quer casar comigo?"

Ela sorria, ao mesmo tempo que enxugava suas doces lágrimas.
Dobrou a carta e viu que, no dorso do papel, havia um pequeno bilhete :

"Agora que você já leu, que estás com o corpo a mil,
te digo que se fodeu. É primeiro de Abril."

Seu namorado.




“Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cômodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória.

Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira, raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte».

Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer diretamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil.

Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência.”

Friedrich Nietzsche, in
'Humano, Demasiado Humano'

terça-feira, 27 de março de 2007

Os monstros de Eliana

- Com a luz apagada, não!
- Tá bom assim? Luz do banheiro acesa, portas fechadas, janelas fechadas. Não há o que temer.
- Claro que há. Eles não entram pela porta, eles já estão aqui debaixo.
- Eles quem, Eliana?
- Os monstros, ué.

- E meu nome é Elaine, cacete.

Quem ouvisse esta conversa, certamente pensaria que Eliana tinha uns nove ou dez anos completos. Errado. Eliana, ou cascatinha para os íntimos, já tinha seus vinte e quatro anos muito bem vividos. Vividos, porém, com alguns medos. Bobos, mas, minuciosamente estudados e entendidos por ela.

- Acende mais... assim... pronto.

Eliana tinha medo, medo não, pavor, de dormir no escuro. E ela tinha suas teorias:

- Os monstros entram pelas portas e janelas e, uma vez lá dentro, não saem mais. Eles se instalam debaixo da minha cama e ficam lá para sempre. Não deixo as portas abertas para não acumular mais monstros; acendo a luz para assustar os que moram embaixo da cama. Simples.

- Sabe como é, né? Eles têm um baita medo de claridade.

Assim, continuou a vida de Eliana até seus trinta e cinco anos, quando decidiu se casar. O noivo não era lá tão feio, como ela gostava, mas tinha os padrões de marido-normal: Inteligente, charmoso, bem-humorado e, principalmente, rico.

Casada, ela exigiu:

- Quero uma casa nova. Erguida do chão. Do começo. Quero tomar cuidado para que seja construída sob a luz do sol, para que nenhum monstro se instale embaixo de minha cama.

A teoria era simples: Se ela acompanhasse a construção, vigiaria sua cama e nenhum monstro migraria para lá. Assim, Eliana mantendo as portas e janelas fechadas, poderia dormir no escuro - sem monstros, sem preocupações.

E a casa foi feita: Paredes, lajes, o banheiro, a cozinha, o quintal e os tão sonhados quartos. Tudo sob a luz do dia, tudo sob os olhos grandes de Eliana.

Depois de 5 meses da casa ser construída, Eliana parecia outra pessoa. Dormia e acordava com as luzes apagadas. Nunca um monstro ousou perturbá-la, visto que as portas e janelas sempre se mantinham como a dona quis. Fechadas.

Mas foi numa segunda-feira de manhã que tudo veio por água abaixo. Eliana, correndo atrás do leiteiro, descuidou e deixou a porta semi-aberta por alguns instantes. E isto bastou.

Eliana nunca mais dormiu direito.

Quando ela voltou, eles já estavam lá embaixo da cama.


De mala, cuia e trouxinhas na mão.

domingo, 25 de março de 2007

Morrendo aos poucos

Parte I - A descoberta

- Como você faz isto?
- Não sei. Juro.

E ele realmente não sabia.
Este poder, dom, ou qualquer coisa que se queira chamar, acompanhava-o desde sua infância, porém, apenas aos 18, 19 anos, Téolo começou a notar.

O que acontecia era simples de se explicar, não tão fácil de compreender.
Téolo tinha visões, premonições. Alguma ligação com um ser supremo e, durante um acontecimento estranho, uma pontada no dedão de seu pé esquerdo, uma imagem aparecia para o rapaz. Pronto. Era só aguardar alguns minutos e aquilo se concretizava.

Andando pela cidade, num sábado, enquanto pagava a passagem do ônibus, seu dedo doeu. No mesmo instante, a imagem de um ônibus virando e três pessoas feridas e uma morta, apareceu em sua mente. Téolo respirou e se jogou no chão.
Dito e feito. Uma moto desgovernada apareceu na frente do ônibus, o motorista tentou desviar, subiu na calçada e, tentando contornar a situação, tombou o veículo.

3 pessoas feridas. 1 senhor morreu.

O que mais deixava Téolo desesperado, era o fato de não poder fazer nada. Era uma visão que apenas servia para avisá-lo. Ele, e mais ninguém. Como se fosse um presente para ele. Apenas para ele.
Um poder mesquinho, uma força solitária. Uma tristeza constante, premeditada.


Parte II - A culpa

Estava numa festa. Essas com DJs, bebidas, música alta, mulheres, loucuras. Téolo dançava, podia sentir a música, as batidas dentro dele. Seu sono se confundia com o êxtase proporcionado pela frenética noite que havia começado a apenas algumas horas. Um instante de silêncio, seu dedo dói. Téolo fecha os olhos: A imagem de uma moça ao chão, vomitando sangue.

O rapaz não sabia o que fazer. A imagem embaçada não o permitiu notar quem poderia ser naquele rosto distante, mas, ele tinha a certeza de uma moça no chão. Com muito sangue.

Foi para o banheiro, lavou seu rosto, vomitou e, quando volta, viu a cena mais aterrorizante que já havia presenciado em sua vida.

Há alguns minutos, ela, fazendo charme para seu provável futuro namorado, sorri para ele, pega um copo qualquer sobre o balcão e dá um gole em alguma coisa que estaria lá dentro. Apenas para fazer charme. O garçom, enquanto recolhia os outros pedaços de vidro do chão, diz:

- não!

Ela havia engolido vodka com groselha e vidro.


No chão, a moça loira. Seus olhos estavam abertos e, sem parar, vomitava sangue com groselha.

Parte III - O erro fatal

Téolo, mesmo sabendo que nada tinha a fazer, culpava-se por cada acontecimento, cada tragédia que passava por sua vida. O rapaz não sentia que este dom fosse um presente dos céus, e sim, uma maldição dos infernos. Sua vida estava sendo vigiada, protegida, porém, as conseqüências eram sempre com os outros.

No dia em que Téolo conheceu Sabrina, sua vida mudou. Sabia que agora teria alguém para cuidar. Sabia que sua vida começava a ter algum sentido.

No dia em que se viram pela primeira vez, no supermercado da esquina, Téolo pôde provar da paixão à primeira vista. Ela, da mesma forma, sentiu algo que não pudesse explicar. Era como se aquele garoto tivesse um feitiço, uma magia.

Terminaram suas compras, começaram a conversar e, andando pela rua, Téolo sentiu a pontada no pé. Fechando seus olhos, o menino teve a visão de Sabrina triste e morrendo aos poucos. O desespero veio à mente de Téolo. Inconformado com a cena e decidido, largou os pacotes no chão, segurou o braço da menina e saiu correndo, arrastando-a. Ela, sem entender, tentou - em vão - parar. Ele, cada vez mais aflito e ofegante, corria em direção à sua casa.

Chegaram bem. Olhou para a menina, rapidamente tocou seus braços, seu rosto, suas pernas. Nada de errado. Se abraçaram, deram seu primeiro beijo e, naquele mesmo dia, tiveram sua primeira noite de amor.

Téolo começava a sentir orgulho de seu poder e sabia, agora, que poderia realmente ajudar as pessoas com aquele dom dos céus. O que ele não sabia, é que era HIV positivo e, daquele dia em diante, Sabrina também seria.

A profecia, de uma forma justa e trivial, acontecera. Daquele dia em diante, Téolo veria Sabrina, triste, morrendo aos poucos.

sábado, 10 de março de 2007

City of angels

- If you'd known this was going to happen, would you have done it?

- I would rather have had one breath of her hair, one kiss of her mouth, one touch of her hand than eternity without it.

One.

Iris

And I'd give up forever to touch you
Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
Cause sooner or later it's over
I just don't want to miss you tonight

And I don't want the world to see me
Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am

And you can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in your lies
When everything seems like the movies
Yeah you bleed just to know your alive

I just want you to know who I am

Quanto vale o show?

Picasso estava almoçando num pequeno restaurante, numa cidade vizinha à sua. Quando o artista chamou o garçon para pagar a conta, o rapaz não se conteve:

- O Sr. não é o Picasso?
- Sou sim. Muito prazer.
- Nossa, que honra. Será que o senhor pode fazer um desenho aqui neste guardanapo?
- Então.. eu queria pagar a conta.
- Vamos fazer assim, então. O senhor faz um desenhinho pra mim e não precisa pagar nada.
- Mas eu não estou entendendo. Eu quero apenas pagar a conta e não comprar o seu restaurante. ..

E você? Vale quanto?

O Bolo

Ele nunca tivera sorte no amor.

- Namora comigo?
- Claro.
- Sabe, nunca me senti assim, tão bem.
- Eu te amo, amor. Nunca vou te deixar.

Duas semanas depois, estava ele, lá, todo choramingando. Havia sido largado, ou, como diziam, havia recebido um pé nas nádegas.
Foi assim com a primeira, segunda, terceira namorada. As outras tinham sido só rolo, ou como eles diziam, pegação. Nada sério. Ele, contrariamente do que a vida pedia, não se sentia mal, sentia-se bem, às vezes, por não ter ninguém ao seu pé. Ninguém grudado a ele. Mas na verdade, as mulheres, as desculpas e suas culpas, estavam lá pela certeza de que nunca conseguiria nada firme com alguém.

- Dona Ana, tem figo?
- Tem não, Tião.

Ah, deixe-me apresentar-me. Meu nome é Sebastião Salgado, mas como eles dizem, Tião. Sou solteiro por opção, macho por convicção e inteligente por força de Deus. A vida dá para alguns, a sorte no amor, para outros, a sorte no trabalho, na profissão. Alguns pensam que têm os dois, mas enganam-se. Esses não têm sorte nem em um, nem em outro, pois, quando menos esperam, um dos dois pede mais atenção do que o outro, e aí, baubau. Ou se tem um, ou se tem outro. Sempre assim.

- Sabe, Ana, queria fazer uma torta, hoje. Nunca cozinhei na vida, mas uma torta não deve ser difícil de fazer e quem sabe não aprendo?
- É não, Tião. Fácim. Ia fazê de figo? Faz de banana. É mais fácil.

Desculpe-me a indelicadeza. Esta é Dona Ana. Viu Tião crescer, praticamente. Tinha uma quitanda na esquina da segunda rua que lhe rendia um mil e setecentos reais por mês. Menos quinhentos do aluguel, trezentos do Gerson, o balconista, sobrava-lhe novecentos para passar seus dias. Dona Ana já tinha uma certa idade e sua disposição não era como a de antes. Ana, agora, só conseguia abrir a vendinha depois das seis e meia. Mas mesmo assim, os clientes esperavam Gerson tocar a campainha e o pãozinho chegar.

- Vai ovo, farinha, manteiga, banana. Que mais?
- Você viu a nova inquilina do seu João?
- Fiquei sabendo, só. Ainda não vi.
- Hehe. Se fosse você, não perdia tempo.
- É solteira?
- Solteiríssima e morena. Olho azul e tudo mais.
- Conta mais dela.
- Ahã... claro que o bolo fica bom.
- O que a senhora tá dizendo?
- Claro que sim. Banana é uma delícia.
- Dona Ana, não muda de assunto, eu tô perguntando da nova inqu..
- Bom dia, Senhora, meu nome é Clara, me mudei ontem. Sabe onde eu posso encontrar farinha?
- Claro, quer dizer, prazer. Eu sou o Gerson. Moro aqui ao lado
- Oi Gerson. Muito prazer.
- Minha filha, você quer que tipo de f...
- Pode deixar Dona Ana. Eu mostro pra ela. Acredita que eu estava a procura de farinha pra fazer um bolo, também?
- E você sabe cozinhar?
- Se eu sei? Hmm. Claro que sim. É o que faço de melhor na vida. Anos de prática.
- Obrigado, Senhor!, para o céu, tudo o que eu precisava era alguém pra me ajudar a fazer um bolo. Acabei de chegar na cidade e queria preparar uma surpresa pra mamãe.
- Se não se importar, podemos fazer na sua casa. Eu te ensino.
- Jura?
- Claro.
- Tchau Dona Ana.
- Tchau Gerson.
- Tchau Dona Ana.
- Vai com Deus, Clara.

E foram os dois, lá, na casa da menina. Ana já o olhava diferente. Não estava realmente pensando na torta, ou no bolo que iria fazer. Já ele, tinha todas as más intenções possíveis e imagináveis. Estava certo, obviamente, que poderia, na melhor das hipóteses, ser mais um romance que não daria em nada em sua vida.

Chegaram logo na cozinha. Sem muitas palavras. Mal se olhavam. No liquidificador, colocaram os três ovos, um pouco de farinha, leite, fermento e meia xícara de água para dissolver melhor. Ele era um exímio enganador-chef. Bateu por três minutos. Colocaram a massa na tigela e deixaram no formo por aproximadamente trinta minutos. Retiraram do fogo e picaram as bananas, que tinham sido esquecidas, sobre o bolo.

Foi, certamente, a pior torta que já foi feita no mundo. O fundo ficou queimado, o meio estava cru e a parte de cima, uma pedra. As bananas picadas até que ficaram boas. Ainda lembravam bananas.

Foi, certamente, o amor mais intenso que aconteceu no mundo. Namoraram por quatro anos, estão casados há cinco e hoje, têm três filhos: o Gerson, o João e a Ana.

Tião não conseguia dormir sem pensar na velha máxima: “sorte no amor, azar no trabalho”. Isto lhe incomodava desde o dia em que casara com Clara.
Um dia, voltando do trabalho:

- Clara, precisamos conversar.
- Desembucha, homem!
- Tenho uma amante.
- Desde quando?
- Ainda namorávamos. Te traio há sete anos.
- Canalha.

Clara chorou, desesperadamente, por ininterruptos setenta minutos. Tião sentia-se bem, pois, sabia que a mentira era para uma nobre causa: “Azar no amor, sorte no trabalho”. E, ainda assim, este azar era de mentira. Só para desequilibrar a balança da vida.

Ficaram, assim, por mais alguns meses, até Clara reencontrar Gerson, o moço da quitanda, e resolver dar o troco. Foi lá e fez vários bolos com o rapaz.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Pé de rúcula.

Por que devemos ter qualidade de vida? Do que se trata esta tal de qualidade?
Dizem que ter qualidade de vida é acordar pra fazer cooper às 7h35min, comer fibras e cereais, não abusar do açúcar e dormir 8 horas por dia, no mínimo.
Pra quê tudo isso? Para aumentar em algumas décadas nossa vida? Para não termos problemas de gordura, pressão alta e desacelerarmos algumas doenças?

Infelizmente, nossa visão de qualidade de vida está completamente distorcida. Colocaram uma lente azul-avermelhada em nossos olhos e não podemos mais enxergar a verdade.

Caros, estou aqui para isso. Para mostrar-lhes a verdade.
Eu serei o limpa-lentes da sua vida, trocarei seus óculos e te farei enxergar além.

Pra começar, quem disse que temos que viver 70, 80, 90 anos?
Nossa vida deveria ter 30 anos, no máximo. Repito: 30 anos.
Imagine a beleza que seria: Nasceríamos, cursaríamos o colegial, entraríamos na faculdade, degustaríamos alguns anos de vida profissional e pumba. Morreu.

Voltemos à qualidade de vida. Neste caso, o correto seria ter a seguinte qualidade de vida: Comer cachorro-quente, trufas, leite condensado e um frango frito pela manhã. Para os vegetarianos, nhoque, lasanha e couve-flor empanada.
Aceita algo para beber? Que tal uma coca-cola, milk-shake de chocolate e uma caipirinha de limão no almoço ou jantar? Isso é qualidade de vida!

Explique-me a graça que tem um alface com tomates frescos. Explique-me a alegria que se tem comendo uma rúcula, um agrião, ama acelga! Ah acelga. Não é possível que se veja qualidade de vida numa acelga, absolutamente. Nesses 30 anos de vida, deveríamos curtir tudo e todos da forma mais frenética e impulsionada possível, deveríamos comer besteiras, muitas besteiras – que mudando nossas concepções, não seriam mais besteiras - , engordarmos bastante, fritarmos nosso fígado e dissecarmos nossos rins para, aí sim, sermos realmente felizes.

E pra completar o ciclo, nada de escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Devemos, sim, ter vários filhos em cima de uma árvore e ler várias vezes o mesmo livro. O livro, diet, de preferência, e a tal de árvore, um pé de rúcula.

Ou então, esqueça esta besteira.
Coma muita acelga, rúcula e agrião, corra bastante no parque e fume muitos, mas muitos, cigarros light.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

A primeira parte está à toa

Quando a chuva cai,
Não distingue se é, se foi ou se vai.
Molha quem tá embaixo,
E suja, acho.

Quando o sol vem,
Queima o que está queimado também.
Queima quem tá embaixo,
Queima, acho.

Quando o vento sopra com força,
Arrepia o seio direito da moça.
E seca quem tá embaixo.
Seca, acho.

E quando a moça passa,
Arrepia, queima, que é uma desgraça.
E dói.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Perfeição

Dois amigos, depois de dez anos, se reencontram:

- E aí Alfredo, tudo bem?
- Tudo legal, Carlos. E você?
- Ahh, estou bem. Alfredo, me diga uma coisa, depois de tanto procurar, você conseguiu encontrar a mulher perfeita?
- Não te falei? Consegui sim.
- Que ótimo! E aí, vocês estão juntos?
- Não. Ela ainda está à procura do homem perfeito.


Perfeição

O que é perfeito? Quem tem esta fórmula? Quem é nosso parceiro ideal? Quem deve ser escolhido para amor eterno?

Procuramos, constantemente, uma pessoa ideal. Aquela que nos faça feliz quando estamos tristes, que nos ligue quando estamos deprimidos e que nem chegue perto do telefone quando não queremos falar.
Queremos alguém que nos pegue em casa quando estamos cansados e que nem ouse a abrir a porta quando estamos saboreando nossa independência. Queremos alguém que ligue para dizer obrigado e que não esteja em casa quando tudo que precisamos, é de uma bela cama. Queremos alguém que leia nossa mente e que faça o que precisamos na hora em que queremos.
Será que existe esta pessoa? Será que existe tal perfeição?

O perfeito está longe disso, e muito mais perto que você pensa.

Perfeito é uma pessoa nos incomodar às 3 da manhã com uma mensagem de celular que nos acorde e, em segundos, faça-nos odiar aquele celular, ao mesmo tempo que apertamos o travesseiro pensando na pessoa amada. Perfeito é alguém nos pegar em casa e ficar contando, durante trinta minutos, como foi o seu dia, mesmo que não estejamos nem um pouco afim de saber. Perfeito é escutar. Perfeito é assistir televisão juntinhos, enquanto você está doida para fazer uma sobremesa de morango e ele está doido pra continuar dormindo e comendo pipoca. Perfeito é um entender o outro e, aos poucos, admirar suas enormes imperfeições.

Perfeito é correr embaixo de chuva e chegar atrasados no cinema. Perfeito é ficar, juntos, planejando o futuro, mesmo que seja irreal, utópico e fora do alcance dos dois. Mas mesmo assim, planejar. Perfeito é realizar tudo isso, depois.

A perfeição não está no 'o quê' e sim no "como". O perfeito não nasce, é feito.
Perfeito é atropelar as razões de nossa mente com os instintos do coração.

E o perfeito, esse sim é eterno, real e imortal.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

O casamento ideal

Começo de namoro é uma beleza. Docinho pra cá, chuchuzinho pra lá, um beijinho aqui, dois abraços acolá. Ahh, quanto amor, quanta paixão! Tudo é novidade, tudo é uma delícia, tudo é motivo para comemorar. Se a menina não gosta de chocolate, o menino vai correndo atrás de sorvete de morango. Se ele não gosta de salada, ela faz um esforço descomunal, sai de sua dieta e, saboreia uma deliciosa pizza quatro queijos com o amado. Nada light.

Tem coisa melhor que começo de namoro? Tudo está bem, tudo está sempre legal. Quem nunca viveu um romance assim? O problema acontece depois de um tempo, quando nem tudo é motivo de tantas risadinhas. Um começa a olhar torto para o outro, não se ver todos os dias não é mais motivo de tristeza e estar juntos acaba se tornando uma obrigação. É aí que eles começam a perceber que tudo está muito igual e, talvez, nunca mude. Seus pensamentos começam a fluir e a separação começa a rodear suas vidas, nada mais apaixonadas.

Pensa que isso só acontece com nossa vida pessoal? Tem uma tal pessoa, a jurídica, que reage da mesma forma. Independente de como e qual é o emprego, sempre sentimo-nos motivados e realizados no início de um novo trabalho. É o cheirinho de novo, o frescor, que nos deixa assim, empolgados e entusiasmados.

Como no início de namoro, o início do emprego é sempre uma delícia para as duas partes. O colaborador se sente valorizado por ser contratado e a empresa se sente bem tendo uma ‘alma nova’ na equipe.

Depois de um tempo, então, tudo volta ao normal e a crise de meio de namoro começa a aparecer. É chefe olhando com a cara feia para o colaborador, é o colaborador fazendo as mesmas coisas de sempre e, como no namoro, o emprego começa a ficar sem gosto e sem muita perspectiva de prosperar.

Assim como no caso dos pombinhos, a solução deve ser pensada antes da crise. O colaborador sempre deve ser estimulado, novos desafios devem surgir, sua individualidade deve ser, em absoluto, respeitada e o frescor deve estar no ar, mesmo com trinta anos de casa. Difícil? Sim. Impossível? Não.

Muita gente me diz que não suporta rotina. E quem suporta? Até mesmo um colaborador que trabalha das nove às seis, rotineiramente, pode, paradoxicalmente, fugir da mesmice em seu dia-a-dia. E cabe ao bom líder mostrar os caminhos e prover diferentes desafios que o faça sentir-se numa empresa que valorize sua garra e que mereça sua motivação.

E brindemos os namoros apaixonados, repletos de novidades, surpresas e carinhos diferentes todos os dias. E que possam ir além, chegando, quem sabe, no casamento ideal.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Farinha pouca? Meu pirão primeiro.

- Gilmar, a nininha tá chorando. Deve estar molhada. Troca ela?
- O que ela fez? O número um ou o número dois?
- Sei lá. Olha ela que eu tô ocupada.
- Argh. Deixa eu ver. Foi o número dois, Telma. Troca você.
- Ai meu Deus. Vem cá minha piquininha. Olha... tá toda sujinha. Fez cocô, nenê, fez? Que bonitinha! Vamos tomar um banhinho, vamos? Isso. Assim você fica bem cheirosinha e gotosa. Que sorrisinho mais lindo.
- Telma, tem cerveja na geladeira?

A população mundial, pelo menos os que têm um mínimo de informação, anda com muito medo do tal do 'aquecimento global'. Tem gente que não vai durar nem mais 10 anos e anda morrendo de medo que o mundo acabe daqui a 100. Pensando nos netos? Filhos? Bah. Hipocrisia. Penso que a humanidade vai acabar muito antes disso. Acho que o tal de aquecimento global, quando chegar ao seu extremo, nem vai ter o que aquecer. Talvez frite um planeta com algumas árvores e uns bichos passeando por ele. Talvez nem isso.

O mal da humanidade é, sem dúvida, a própria humanidade. 'O bom do Brasil é o brasileiro', os quintos dos infernos. O mal do mundo é o povo do mundo, o mal do Brasil é o brasileiro, assim como o mal de São Paulo são os paulistas e assim por diante. O mal das pessoas é pensar somente nelas e em mais ninguém. Farinha pouca? Meu pirão primeiro.

Dia dezoito de fevereiro de dois mil e sete. Hoje. Há algumas horas atrás. Pleno meio de carnaval.
Carnaval é um porre. Um monte de gente se aglomerando para tentar conquistar alguns glúteos, um monte de gente suada, pelada, pulando sob o efeito de energético, vodka, whisky e caipirinhas. Nada contra vodka, nem whisky e muito menos caipirinhas, mas, entre ficar socado com um monte de gente pulando ou ficar numa boa com meus amigos num bar, a segunda opção sempre é 'a opção'!

Resolvo fazer um programa diferente nesse final de semana. Acordo às 5h40, madrugada, e vou correr. Antes, faço um shake de maltodextrina, duas bananas, iogurte, leite de soja e pó de guaraná. Pronto. Alimentado e pronto para o exercício.

Alongo de um lado, alongo de outro, tomo fôlego e começo. Sinto que não haveria coisa melhor a se fazer nesse carnaval. Me sinto disposto e com saúde. Começo a me vangloriar por não ter ido para a farra. Pura babaquice minha. Se soubesse como seria melhor estar num recinto apertado, suado, sujo e com um banheiro, não pensaria assim.
Depois de ter corrido uns dez ou quinze minutos, sinto uma leve pontada no estômago. Ou será que foi na barriga? Corro mais um pouco, outra pontada. Dor de barriga, fato. Viro e começo a correr no sentido oposto, dirigindo-me à minha casa; Coisas começam a acontecer dentro de mim. A medida que a disenteria ia chegando, corria mais rápido. Incrível como seu fôlego aumenta e sua disposição dispara quando a diarréia bate na nossa porta.

- Putaquepariu, não tá dando pra aguentar.

Olho para um lado, para o outro. Vai ser aqui mesmo, penso. Um homem sai de casa e decide fumar um cigarrinho, na minha frente. Desisto.
Corro mais um pouco. Já sinto algo escorrer por minha perna. Deve ser suor. Corro mais. Minha casa não chega nunca, mas Deus é bom. A felicidade se instala em mim. A minha frente, um simpático jovem, aparentando uns trinta e cinco anos, sai de uma casa de construção. Eu me alegro:

- Moço, pelo amor de Deus, deixa eu usar o seu banheiro. É urgente.
- Então, não vai dar não. Eu tô de saída.
- Mas é rápido. Vão ser cinco minutos. Prometo.
- Puuuutz. Acabei de fechar. Vai ficar pra próxima.
- Você não tem coração, não? Eu tô me borrando todo e você não quer me emprestar seu banheiro?
- Vai lá no posto. É aqui do lado. Vai lá.
- Tá bom. Obrigado. Vai com Deus.

O mal da humanidade é, sem dúvida, a própria humanidade. 'O bom do Brasil é o brasileiro', os quintos dos infernos. O mal do mundo é o povo do mundo, o mal do Brasil é o brasileiro, assim como o mal de São Paulo são os paulistas e o mal daquela casa de construção era aquele viado filho da puta.

- Desgraçado miserável de uma figa. Espero que você morra e vá para o inferno. Espero que você tenha uma diarréia como esta, por dia, até o fim da sua vida, penso.

O posto de gasolina está fechado. É carnaval! Ao fundo, ao lado dos banheiros - trancados, óbvio -, vejo um cubículo 1x1 azulejado. Por um segundo pensei em correr até lá e fazer uma obra prima. Com certeza iria me aliviar da dor de barriga e do vexame que iria passar se tentasse correr mais um pouco até minha casa, mas, como disse, pensei nisso por apenas um segundo. Minha consciência não me permitiria tal feito. Resolvi correr mais. Agora, estava a apenas dois minutos de casa. Se corresse, então, chegaria em poucos segundos.

Dez passos a frente, sinto uma pasta grossa, úmida, escorrer por minha perna até meu calcanhar. Não se parece nada com suor. Não quis nem olhar o que era. Continuei correndo. Vinte segundos depois, já estava na frente da minha casa tocando a campainha como um desesperado. Minha mãe acorda, se espreguiça, a passos lentos vai até a janela, olha quem é, abre a porta e ainda com muito sono, vai, vagarosamente, ao meu encontro. Nessas alturas, minha cueca pesava uns 2 quilos e meio.

- Mãe, abre o portão que eu tô me cagando todo. Rápido, abre isso aqui.

Eu já tinha me esquecido daquele corno da casa de contrução e nem pensava em matá-lo mais. Fui correndo até meu banheiro deixando um rastro no chão. Quando fecho a porta, não me seguro e deixo minha vontade tomar conta de tudo.
E eu estava lá. Suado, parado, sentado na privada, me aliviando. Ainda de cueca e de bermuda.

Você pensa que a situação estava acabada? Que não podia piorar? Engano seu.
Tentei tirar minha cueca, minha bermuda, mas não consegui. Havia amarrado meu tênis, antes de correr, e um nó havia se instalado. Se eu tirasse minha roupa naquele momento, iria me borrar mais ainda. Procuro, acho uma tesoura e começo a cortar minhas roupas. Fui tirando aos poucos, à medida que ia me sujando mais ainda. Detalhe: Não havia papel higiênico também.

Quando olho, de relance, pelo banheiro, vejo a obra de arte que havia feito. Tudo, absolutamente tudo, sujo. Uma cagança total. Levanto, puto, entro no chuveiro e vou dando um jeito nas coisas. Depois de uns quarenta minutos, já estava cheiroso, o banheiro limpo e minhas roupas, as que continuaram inteiras, prontas para serem utilizadas.

Respirei.

- Paulo, a Julia tá chorando. Deve estar molhada. Troca ela?
- O que ela fez? O número um ou o número dois?
- Sei lá. Olha ela que eu tô ocupada.
- Ok. Deixa eu ver. Foi o número dois, Magali. Deixa comigo. Olha... tá toda sujinha. Fez cocô, nenê, fez? Que bonitinha! Vamos tomar um banhinho, vamos? Isso. Assim você fica bem cheirosinha e gotosa. Que sorrisinho mais lindo.
- Paulo, cadê vocês dois? Ahh, estão aí no chuveiro fazendo bagunça, é?

- Péééé.

A campainha toca.

- Magali, quem era?
- Ah, não esquenta não. Era o moço da casa de construção aqui do lado. Ele estava verde, suando, tremendo e com frio. Disse que estava passando mal e precisava usar nosso banheiro.
- E você, o que disse?
- Ah, nada demais. Mandei ele pra puta que o pariu! Mamãe pode tomar banho com vocês?

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Salut!

Todo homem, certamente, já teve dois tipos de namorada. A primeira é aquela que namoramos por namorar. Ela é carinhosa, sempre te liga, faz uma comidinha gostosa, você se sente bem ao lado dela, mas é só. Se tiver que ficar uma semana longe, não tem problema. Um mês sem se ver? Dá pra segurar. Sabe aquele romance sem gosto? Aquela coisa sem sal? É isso.

Bom, vamos falar do segundo tipo de namorada. Esta tem algo diferente. Não sei se é o jeito de olhar, se é o sorriso, o perfume. Ah! Quando ela passa, tudo estremece por dentro. O corpo começa a suar, o coração bate mais rápido e não há vontade maior do que ficar com ela o dia todo, passando horas e horas e horas, juntinhos.

Assim como na vida pessoal, muita gente procura um “emprego” do tipo namoro-sem-sal. É aquele emprego que fazemos por fazer, só para nos dar o sustento no fim do mês. Aquele que garante que estejamos paradoxicalmente estáveis e aconchegantes num país nada estável e aconchegante. Até aí, nenhum problema. Todos temos o direito de escolher o que queremos de nossa vida. De um namoro sem sal até um emprego sem gosto. A questão é que este tipo de situação não rima, nem um pouco, com vencer desafios, excelência no trabalho e sucesso profissional.

Se o assunto for superação de limites, quebra de barreiras e excelência naquilo que se faz, precisamos realmente encontrar tarefas que nos deixem como um jovem doido por sua amada, que estremeça nosso corpo, que nos faça suar. Porque assim, como o namoro apaixonado, o trabalho entusiasmado supera até problemas de falta de experiência ou conhecimento mediano. O entusiasmo nos faz vencer desafios e nos colocar acima de qualquer limite.

Brindemos os beijos calientes, os romances ardentes e a busca constante por trabalhos apaixonantes.

E, parafraseando Confúcio, "Escolha um trabalho que ame e não tenha que trabalhar um único dia a mais de sua vida".

Salut!

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Nunca, só.

Se ela soubesse o que estaria prestes a acontecer, não teria se arrependido.


Abriu a porta e esperou que ele tomasse qualquer atitude. Desejava que a beijasse e se dissesse arrependido do que fizera. Tola! O coração dela agora era dela e batia como antes. A vida, como em um sopro, voltou a pertencer só a ela. E era só dela.

Arrependeu-se da mensagem que havia enviado a ele, minutos antes de se dirigir ao banho: ”Te amo”. Não o amava, só queria que ele a olhasse nos olhos e devolvesse tudo aquilo que pertencia a ela.
Com um tiro, recebeu tudo aquilo que a pertencia. Fechou a porta diante do corpo dele estendido no chão, entrou no banheiro e tomou um longo banho de banheira, com a vida dela a seus pés, só dela.

A água escorria por seu corpo e, por mais que caísse quente e molhada, não lavava sua consciência, sua memória, sua alma. Não por tê-lo matado, absolutamente, mas por não tê-lo permitido que a amasse como deveria, como ela desejava e como ele queria. Agora, ele não podia mais falar o que estava preso em sua garganta. Mas mesmo se não estivesse morto, assim, estirado no chão, sua timidez não o deixaria proferir aquelas palavras que a fariam pensar; razão esta pela qual escreveu um bilhete, extenso, com seus pensamentos mais profundos, que, quando lidos, arrancariam as raízes de sua alma.

Enxugou apenas seu corpo, permitindo que seu cabelo demarcasse o caminho de seus últimos passos. Nua, lavada, porém ainda suja, andou pela sala, cozinha, bebeu um copo d'água com gás gelado e, arrependida, decidiu dar-lhe seu último beijo. Se ela soubesse, não teria se arrependido.

Debruçou-se sobre ele e o beijou como nunca tinha o beijado. Suspirou. Todo seu amor aflorava e a fazia suar. Toda a paixão sentida um dia, voltava como um rojão. O sentimento de culpa e arrependimento faziam uma forte dor de cabeça aparecer. Magali o sentia e deixava algumas lágrimas escorrer por seu rosto molhado, enquanto o veneno, tomado por Paulo minutos antes de entrar em sua casa, era degustado pela boca da moça. O mundo entenderia os porquês quando lessem o bilhete escrito à mão, perto de seu coração, mas, o que acharam foi simplesmente cinzas de papel, destruído à queima-roupa, misturado com suor, lagrimas e um pouco de sangue dos dois. Juntos.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

O primeiro retorno

Cinqüenta acionistas aguardavam sua chegada. Não, hoje não teriam mais uma reunião de metas, mas sim, uma palestra do presidente sobre o futuro da companhia e, conseqüentemente, o futuro profissional - e talvez, pessoal - dos empresários que apostavam neste empreendimento.

Paulo tomou uma ducha quente, andou em passos lentos até a varanda e voltou para sua mesa. Preparou os quinze slides, todos recheados de fórmulas, números e gráficos. Projetou as metas anuais, recalculou o market share, growth, year over year, penetração, evolução, variações e todos os índices que o ajudariam a tomar a grande decisão.

Os acionistas mostravam-se inquietos. Dois não paravam sentados. Andavam pela gigantesca sala azul e cinza enquanto bagunçavam seus cabelos com as mãos. Os outros, sentados, tentavam controlar a respiração, e mesmo assim, sem fôlego, fumavam freneticamente. O provável ataque cardíaco era assunto que vinha e voltava à suas mentes a todo instante.

Ele, por sua vez, aparentava-se calmo, mas apenas aparentava. Posso até dizer que sua angustia excedia a soma de todos os outros.
Um mero detalhe o fazia ainda ter dúvida. Um mero detalhe que podia acabar com um império de trinta e cinco anos.

Levantou de sua mesa, fechou seus arquivos, escovou seus dentes e foi. Buzinas viraram concerto em seus ouvidos. Estava praticamente cego aos faróis e mais de dois flashes de velocidade não o fizeram diminuir sua ansiedade. Queria chegar logo. Sim, não, sim, não dançavam em sua mente. Por que o presidente tem que ser eu? Pensou.

Há três minutos da empresa, um barulho seguido por uma vibração avisa que chegou uma mensagem em seu celular. Abre o telefone e lê: "Te Amo"

Reduziu a marcha, deu seta e pegou o primeiro retorno.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Injeta

Vício. Pensei em procurar no dicionário o significado desta palavra, mas, obviamente, seria inútil. Não conheço uma pessoa que não entenda o que vício significa. Se você não consegue parar, você está viciado. Simples. Se fuma maconha um dia, apenas está experimentando. Se fuma para sempre, você está viciado. Se come chocolate todos os dias, você deve estar gordo. Se come toda hora, está viciado. Mas se consegue parar, está curado. Definição simples, não é?

Mas ainda não vou me aprofundar no prefácio. Como sempre, vou mudar de assunto do nada. Que está se tornando um vício. Ah!

Estudando alguns livros de neurociência - minto, foi num filme. Nunca estudei neurociência -, descobri uma definição fantástica para a paixão, amor, ou qualquer coisa que remeta à romance, corações disparando, estômagos doendo e essas coisas que você já sabe decor (ou de cor? Não sei. Ainda não decorei.) e provavelmente já viveu.
Segundo os neurocientistas, que devem conhecer muito mais do que eu do que se passa em nossa mente, quando você encontra um alguém, seus neurônios se alimentam com informações desta pessoa. Ás vezes, eles, os neurônios, simplesmente respiram, degustam, sentem essa informação e mais nada. Às vezes, eles degustam e querem mais e mais e mais. Sem parar. Pronto! Eles estão viciados pela energia, astral, magia ou qualquer coisa que você queira acreditar desta pessoa. Seu neurônio está viciado. Alucinado. Doidão.
Sabe aquela expressão "rolou a química"? É exatamente isto que ocorre. Reações químicas acontecem em nosso cérebro quando encontramos a pessoa amada. E essas reações nos fazem bem, nos viciam. Emoções alucinógenas.

Pensando desta forma, podemos tirar, ou tentar tirar algumas conclusões: O vício sempre foi considerado algo ruim para nós. Nossa mãe já dizia: "tudo que é em excesso faz mal". E vício, sendo excesso por definição, faz mal. Por sua vez, estar apaixonado é bom, diga-se que de passagem, ótimo. Mas, se estar apaixonado (que é bom) é um vício (que é ruim), estar apaixonado torna-se ruim. Mas também é bom. Ou seja, é um ruim que é bom. Entende? Não? Explicarei novamente.

Amar é bom, mas se amar é um vício, quem você ama te vicia. Fato. Mas é claro que amar é um vício bom, mas, nenhum vício é bom. É mal. Então, uma pessoa que você ama é uma pessoa má porque te vicia, mas te faz se sentir amada, que é bom, ou seja, sua cara-metade é uma pessoa boa que te dá algo de ruim, que é, na verdade, bom, então esta pessoa má, torna-se boa. É algo mal que faz bem. Mas continua mal. E bom. Entendeu agora? Não? Então você entendeu, claro.

Explico. Se você entendeu, você realmente não entendeu nada. Mas se você não entendeu nada e está ainda mais perdido, você entendeu tudo. Isso é o amor: Algo bom e ruim ao mesmo tempo que, até em sua definição, confunde quem lê, machuca quem sente e alegra quem dá. E respectivamente, vice-versa.

E como diria meu amigo otimista: Eu te amo, você me vicia.
E como diria meu amigo pessimista: Você é um vício, me faz mal.
E como eu diria: Injeta.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O monge e o escorpião

O monge e seus discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio.

Foi então à margem, tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados:

- Mestre, deve estar doendo muito! Porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda! Picou a mão que o salvara! Não merecia sua compaixão!

O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu:
- Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha.
Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha.

Autor desconhecido

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Que mágica é essa?

Que mágica é essa que faz o coelho surgir do nada, mas não te faz aparecer aqui, do nada também?

Que mágica é essa que faz uma moeda viajar de uma mão para outra, mas não te faz viajar até minhas mãos?

Que mágica é essa que faz um pombo aparecer com um estalar de dedos e mesmo com o estalar de todos os dedos não consegue te trazer aqui?

Q
ue mágica é essa que some uma, duas, três cartas, o baralho inteiro e não pode fazer sumir essa saudade que aperta o peito?

Que mágica é essa desse mágico que encanta multidões e multidões de pessoas, mas é encantado apenas por uma pessoa?

Será que essa, é a mágica que ilude?

Será que essa ilusão é real?

Ou toda essa realidade é apenas uma ilusão da minha magia?

Que mágica é essa?

domingo, 4 de fevereiro de 2007

2 minutos e meio

São Paulo, uma hora da manhã. É hora de dormir. Meu sono não vem, minha mente vai; vai lá longe, onde as mentes vão quando estamos tentando dormir, apenas para dar um abraço imaginário numa outra mente que também ia. Depois de alguns segundos, volta. Nesse vai-e-vem de idas e voltas, se passam 23 minutos e ainda estou acordado. São quase uma e trinta e cinco da manhã e ainda não consegui dormir. Viro de um lado, viro de outro e quando vou pensar em... puf!. Apago instantaxneamente num sono que seria profundo, profundíssimo, se, após de quatro horas e meia, eu não tivesse que ouvir o despertador falar:

- Trimimimririrmim

Tomo um banho rápido, engulo alguma coisa, carrego meu carro com oito malas, duas delas maiores que eu, pego trânsito, pego minha assistente, pego tudo e chego ao aeroporto. Estaciono o carro, tiro as malas e faço uma pilha gigantesca num carrinho de mão. No guichê para o check-in:

- Senhor, o seu vôo das 10h30 sai de Guarulhos e não de Congonhas. Você tem trinta minutos para chegar no outro aeroporto.

Raiva repentina! Queria colocar a culpa em alguém. Na minha secretária? Na minha assistente? Em quem? Bah! A culpa era minha. Engoli minha burrice, atravessei o aeroporto todo, paguei quase R$ 500,00 e remarquei minha ida à Manaus. Coloco tudo no carro, pago o estacionamento e fico esperando das 10h às 18h em meu escritório.
18h! Triririm!

Saio correndo, dirijo num trânsito obsceno de tão perverso que é, chego então à Guarulhos, agora sem assistente para me ajudar nas malas. Tiro tudo do carro, coloco no carrinho, derrubo três vezes meus pertences no chão, subo, desço, subo, desço e consigo despachar. Minha assistente chega, comemos uma nutritiva, light e saudável Pizza Hutt e embarcamos.

- É só entrar naquele ônibus Senhor. Ele o levará para a aeronave.

Desajeitados, subimos, eu e minha assistente, e aguardamos quase vinte minutos dentro de uma lotação que nos levaria até o avião. Chegamos. Descemos, ficamos numa fila quilométrica para subir no bendito, e dentro da coisa com asas:

- Moça, minhas mãos estão ocupadas. A Sra. poderia fazer a gentileza de pegar o bilhete aqui no meu bolso e dizer qual é meu assento?
- Claro senhor. Deixa eu ver. Hummm. Senhor, o seu vôo é para Manaus e este vai para a Bolívia.

Duzentos passageiros, em coro:

- Bolívia?

Descemos apavorados, corremos atrás do outro ônibus, subimos, brigamos com o motorista, esperamos, esperamos e chegamos ao avião que iria para Manaus - sem escala na Bolívia ou Paraguai.

- Agora sim. Estamos cansados, mas, pelo menos dormiremos no avião.

Dormir? Onde? Se ao menos pudesse sentar-me dignamente já estaria bom. O acento não declina, a aeromoça não vem, minhas pernas são maiores do que o mísero espaço que tinha para elas, as pernas do meu vinho também, ficamos disputando espaço durante duas horas até que eu desisto, tiro meu sapato, e coloco minhas pernas, esticadas, para fora no corredor. Que delícia seria ficar nessa posição nos próximos noventa e dois minutos se a aeromoça não viesse brincando com seu carrinho rápido de comida e não tivesse esmagado meus pés.

- Desculpe senhor, mas o senhor não pode ficar com os pés onde estavam.

Após quarenta e cinco minutos de malabarismos, tentativas de pegar no sono, um bafo com cheiro de azedo do meu vizinho e aeromoças maléficas, consegui dormir. Mas as crianças de trás, espertas, perceberam e começaram a chorar batendo os pés na poltrona da frente. A minha. Levanto-me.

- Moça, eu quero descer.
- Senhor, não é possível, estamos em vôo.
- Jura? Não diga. Eu quero descer mesmo assim. Me dá uma dessas poltronas flutuantes, um pára-quedas ou qualquer coisa, pois, eu preciso descer.
- Um minutinho, senhor. Vou falar com o comandante Barroso.

Quarenta e dois minutos depois:

- Ok, Senhor. O comandante autorizou.
- Senhoras e senhores, preparem-se para a aterrissagem.

Manaus!

Aterrisamos, esperamos todos os trogloditas saírem da aeronave, descemos, fizemos o check-out, pegamos as oito malas, duas delas maiores que eu, e aguardamos na saída do aeroporto uns cinqüenta minutos até perceber que o motorista que viria nos buscar não veio.

Pegamos um táxi, chegamos no hotel, fizemos check-in, nos arrastamos até nossos respectivos quartos, tentei tirar meu segundo sapato e, às quatro da manhã, capotei novamente. Agora sim eu teria muitos e muitos minutos de sono. Para ser exato, cento e vinte minutos. E depois dessas todas duas horas de cochilo:

- Tririmriririrmrmrimrirmirmrrim
- Â? Â? Â?

Tomo um banho rápido, engulo alguma coisa, chamo um taxi, carrego minhas oito malas, duas delas maiores que eu, mas que não sei por quê, estavam maiores e mais pesadas, agora. Chego ao local do evento, monto o circo, as pessoas entram.

- Senhoras e senhores, bom dia!
- Vocês dormiram bem? Que ótimo.

Na segunda fileira tinha um moço de calça jeans e camisa pólo que insistia em fechar e abrir os olhos durante meu show. Isto por quê ele tinha dormido apenas 7 horas nas últimas três noites. Coitado.

Termino o show, desmonto tudo, taxi vai, taxi vem, mala cai, mala fica, assistente reclama, tudo no hotel, puto, cansado, de saco cheio, costas moídas, cérebro cansado e vistas semi-pulsantes.

Felipe, um amigo de infância que reencontro casualmente por lá, me arrasta até um mini zoo, dentro de um super-hiper-hotel próximo ao nosso. O nosso era apenas super.

Já lá dentro, uma arara se vira pra mim e diz OiOiOi, dois macaquinhos fazem tchau e uma tartaruga, gigante, coloca a cabecinha pra fora d'água, fecha os olhos e sorri pra mim, enquanto que o ursinho, bem do outro lado, estava doido de vontade de me dar um abraço de 2 minutos e meio.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Sonhando...

Sonhar é a única coisa que possuímos e que ninguém pode tirar de nós. Podemos fechar nossos olhos, pensar que somos capazes de dominar todos os nossos medos e realizar cada desejo oculto dentro de nossa mente.

Havia uma menina chamada Júlia, de aproximadamente 4 anos, aquela que acredita que o mundo é um lugar cheio de magia e super-heróis.
Todas as noites, essa menina escalava sua cama, abria a janela de seu quarto e ficava procurando as estrelas.

Seu pai, uma vez a pegou em pé na janela e preocupado, perguntou:
-Filha, o que está fazendo?

A menina, emocionada:
-Pai, como eu alcanço as estrelas?

O pai olhou bem para seus olhinhos, pegou sua pequena mão, e disse:
- Basta que você vá até às estrelas.

- Mas como? É tão longe e alto.

- Fácil. Feche seus olhos e voe. Se você pode sonhar, você pode realizar.

Júlia fechou seus olhos e sonhou.

Bom dia, Magali.

Levantou seu rosto, que ainda esboçava-se melancólico, tentando encarar o horizonte. Seus olhos, negras pedras preciosas, brilhavam como se tivessem sido polidas pelo encanto de seu sorriso, entretanto, brilhariam muito mais, não fosse o sopro da brisa fazendo-os abrir e fechar como se quisessem declamar uma poesia ao seu amado. Instantes antes da vaidade permitir que seus cabelos caíssem sobre seu rosto nu, um arrepio, leve, suficientemente satisfatório, ao mesmo tempo que intenso e desconcertante, sobe por suas espinhas, excitando seus pêlos e fazendo-a mordiscar suavemente seus úmidos lábios. Ele escorrega sua mão pelo pescoço dela, toca levemente sua orelha, vai de encontro aos seus curtos cabelos e agressivamente puxa-os para trás, fazendo com que sua cabeça incline-se para ele, deixando-a estremecida e com os lábios sedentos pelo seu sabor. Ela, por alguns segundos, tenta resistir, mas, instintivamente entrega-se a seu domínio. Sua áspera mão esquerda passa sobre a barriga despida da moça, riscando sua pele com suas unhas mal cortadas. Ela, delicada, inclina seu quadril para trás, enquanto fecha os olhos e sente sua orelha ser levemente mordida pelo rapaz de cabelos longos. Ele, já tomado pelo instinto, a segura novamente pelos cabelos, puxa-os para frente e respira em sua nuca, como se quisesse sentir cada centímetro, fazendo-a estremecer por completo e por alguns instantes pensar que estaria no céu. Ele, então, a vira de frente, penetra profundamente em seu olhar e, como antes, transforma sua vida. Em cinco segundos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Cinco segundos

Tudo começou quando os olhos se fecharam...

Tempo

Tic, Tac, Tic, Tac. Os poteiros movem-se. São 11:28:25.
Depois de 1 segundo ele marca 11:27:25.

Será que estou de ponta-cabeça? Será que o tempo está quebrado?

Quando sonhamos, retornamos ao passado.
Quando agimos, mudamos o futuro.

E quando agimos nos sonhos? Funde-se o tempo ou o tempo se confunde?

Paro o tempo por algum tempo. O texto que quer nascer: Cinco segundos.
Em tempo, apenas um pouco de abraço. Em abraço, apenas um pouco de tempo.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Boa noite

O sono bate profundo. A sensação de poder abrir a janela e voar pairava sobre seus olhos cansados e quase lacrimejantes. O vento frio de um ventilador em cima de uma cadeira o irritava mais que qualquer outra coisa.
21:59 no relógio. Um telefone à sua direita, uma garrafa vazia à esquerda, uma leve dor no pescoço.
Tudo que ele queria era alguém para suavemente apertá-lo e, em leves suspiros, dizer-lhes coisas e coisas que o dariam forças para levantar, andar, ir embora e se lembrar que amanhã será tudo igual.

Boa noite.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

A vitrine

O japonês se apaixonou por um manequim de vitrine. Foi no ano passado, lá por fevereiro ou março, não me lembro bem. Acho que foi no começo de fevereiro, quase início do carnaval.

Ele nunca foi daqueles de sair para fazer compra na rua, mas, entre ouvir sua mulher e sair para comprar uma fantasia de Batman para o mais novo, certamente ele optaria pela segunda opção. Como naquele domingo, optou.

- Bom dia, moça. Preciso de uma do Batman, ou Robin. Tanto faz.

Quando a moça retirou a máscara, lentamente descobrindo o rosto bege do manequim, o coração do japonês bateu mais forte. Ele, magicamente, se esqueceu de sua vida e por alguns instantes pensou em largar tudo para viver com o objeto. E foi o que fez. Estava cego de amor.
Não queria mais a máscara do herói. Agora ele era o herói. Tirou um talão de cheque novo, preencheu e levou aquela estátua, opaca, lisa, cheirando a plástico, em seus braços.

Deu banho, fez massagem, contou histórias, abraçou muito e adormeceu com o rosto colado por algumas vezes naquela primeira semana de romance.

A família do japonês entrara em desespero, uma vez que o chefe havia sumido há alguns dias. Só sossegaram depois de sete meses, quando o mesmo foi considerado morto.
Que morto que nada, o japonês estava mais vivo do que nunca morando na rua com sua amada-manequim. Passava creme, dançava e vivia feliz. Ela o entendia quando chorava, ele a entendia quando não queria o beijar.

Meses depois foram viajar e acabaram gostando do lugar. O que deveria ser passeio, virou moradia. Ela era muito paciente. Nunca reclamava do cheiro de cigarro.

Um burburinho, lento, foi escutado por lá:

- Que absurdo! Você viu, Clara?
- Vi sim, Olga. Nunca vi algo tão grotesco em trinta e sete anos de vida.
- Logo logo um hospício bate por aqui.
- Isso me dá ânsia de vômito. Me enjôa toda.

Conversavam Clara e Olga, as duas manequins dentro de uma vitrine, numa loja do centro.

- E ainda mais com esse japonês feio. Que mal gosto.
- Se pelo menos fosse sueco.

Probabilidades

1. Se um juiz se casa com uma advogada, qual a probabilidade de nascer uma pessoa jurídica?
2. Se um mágico se casa com uma mágica, qual a probabilidade de nascer um coelho?
3. Se uma freira se casa com outra freira, qual a probabilidade de adotarem um pingüim?

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A magia de ser quem desejavam ser

A vista da janela de seu escritório dava para o mar, um mar de idéias e lembranças que o faziam pensar. Sentado em sua cadeira, iluminado apenas pela luz dos prédios e ouvindo os carros a passar, com seu copo de suco de melancia na mão e um par de cartas de copas na outra: 3K.

Retirou os pés de cima da mesa, abandonou o suco no parapeito da janela e jogou as cartas para trás. Era tarde da noite e não havia nada entre ele e o som dos seus dedos a dedilhar o teclado de seu computador. Textos da madrugada, os melhores... e após uma conversa com sua futura ex-namorada, ou só futura, ou só ex...ou nada, ele tinha o que pensar.

Escreveu duas palavras e apagou. Tentou de novo e de novo, mas nada queria vingar. Pensou que era besteira deixar palavras que nem o coração entendia em um mero relapso na tela, para que um dia alguém decifrasse as confusões de um órgão tão complicado. Ele bombeia, nos deixa vivos, tão vivos, dono de nossa existência, de nossa morte ou de nossa vida. Por isso ele sabia que precisava do remédio certo. Parou de escrever, pegou o suco e voltou a pensar.

Tentava associar sua vida inteira em um único momento que o tinha mudado por dentro. Pensava em quando era criança, quando começou a faculdade e quando decidiu mudar o rumo de sua vida. Ela sempre estava lá, rondando seus pensamentos. Enquanto lembrava do seu acidente que havia deixado uma cicatriz no olho esquerdo, pensava em seu sorriso, depois desvirtuava sua mente para pensar no trabalho, eis que ela vinha com mais força.

-Droga!

Olhou de nova para a tela do computador em branco, decidiu escrever palavras, sem sentido... exatamente como havia sido sua vida até então, sem ela. Nada saía, escrevia e apagava, seus pensamentos eram atrapalhados por cada pedaço dela.
Parou, olhou para o céu e se permitiu pensar nela... “O que será que ela estaria fazendo?”

Desceu as escadas de sua casa, abriu a geladeira, pegou uma maçã e deitou no sofá. Sua pele, iluminada pelos poucos raios de luz que escapavam da cortina, revelavam um rosto pensativo. Seus olhos estavam fixos no nada, vagavam livres pelas lembranças.

Terminou a maçã, deixou largada pelo chão e subiu, degrau por degrau, imaginando sua vida sem ele. Sentou no computador e dedilhou algumas palavras sem sentido até mesmo para ela. Apagou, espreguiçou-se e colocou as mãos entre o rosto. Olhou novamente a tela do computador e depois ficou horas olhando para o teclado. Não conseguia, a conversa com seu ex, futuro ou nada a havia perturbado demais. Uma lágrima escorreu de seu rosto, limpou rapidamente e colocou uma música que a fazia pensar nele. Deitou na cama, e fitou o teto por horas. Até adormecer...

Do outro lado da cidade, deitado em sua cadeira, deixou o suco derramar no chão, fechou os olhos para um breve descanso antes de voltar para casa.Adormeceu...

Nos seus sonhos se encontravam, do jeito que tinha que ser. Sem erros, sem pretextos, paradoxos ou enredos. Eram apenas eles, embalados pela música que desejavam, no lugar que desejavam, na maneira e tempo necessário.
Eram os textos da madrugada que os mantinham tão pertos e conectados pela magia de ser quem desejavam ser.