- Gilmar, a nininha tá chorando. Deve estar molhada. Troca ela?
- O que ela fez? O número um ou o número dois?
- Sei lá. Olha ela que eu tô ocupada.
- Argh. Deixa eu ver. Foi o número dois, Telma. Troca você.
- Ai meu Deus. Vem cá minha piquininha. Olha... tá toda sujinha. Fez cocô, nenê, fez? Que bonitinha! Vamos tomar um banhinho, vamos? Isso. Assim você fica bem cheirosinha e gotosa. Que sorrisinho mais lindo.
- Telma, tem cerveja na geladeira?
A população mundial, pelo menos os que têm um mínimo de informação, anda com muito medo do tal do 'aquecimento global'. Tem gente que não vai durar nem mais 10 anos e anda morrendo de medo que o mundo acabe daqui a 100. Pensando nos netos? Filhos? Bah. Hipocrisia. Penso que a humanidade vai acabar muito antes disso. Acho que o tal de aquecimento global, quando chegar ao seu extremo, nem vai ter o que aquecer. Talvez frite um planeta com algumas árvores e uns bichos passeando por ele. Talvez nem isso.
O mal da humanidade é, sem dúvida, a própria humanidade. 'O bom do Brasil é o brasileiro', os quintos dos infernos. O mal do mundo é o povo do mundo, o mal do Brasil é o brasileiro, assim como o mal de São Paulo são os paulistas e assim por diante. O mal das pessoas é pensar somente nelas e em mais ninguém. Farinha pouca? Meu pirão primeiro.
Dia dezoito de fevereiro de dois mil e sete. Hoje. Há algumas horas atrás. Pleno meio de carnaval.
Carnaval é um porre. Um monte de gente se aglomerando para tentar conquistar alguns glúteos, um monte de gente suada, pelada, pulando sob o efeito de energético, vodka, whisky e caipirinhas. Nada contra vodka, nem whisky e muito menos caipirinhas, mas, entre ficar socado com um monte de gente pulando ou ficar numa boa com meus amigos num bar, a segunda opção sempre é 'a opção'!
Resolvo fazer um programa diferente nesse final de semana. Acordo às 5h40, madrugada, e vou correr. Antes, faço um shake de maltodextrina, duas bananas, iogurte, leite de soja e pó de guaraná. Pronto. Alimentado e pronto para o exercício.
Alongo de um lado, alongo de outro, tomo fôlego e começo. Sinto que não haveria coisa melhor a se fazer nesse carnaval. Me sinto disposto e com saúde. Começo a me vangloriar por não ter ido para a farra. Pura babaquice minha. Se soubesse como seria melhor estar num recinto apertado, suado, sujo e com um banheiro, não pensaria assim.
Depois de ter corrido uns dez ou quinze minutos, sinto uma leve pontada no estômago. Ou será que foi na barriga? Corro mais um pouco, outra pontada. Dor de barriga, fato. Viro e começo a correr no sentido oposto, dirigindo-me à minha casa; Coisas começam a acontecer dentro de mim. A medida que a disenteria ia chegando, corria mais rápido. Incrível como seu fôlego aumenta e sua disposição dispara quando a diarréia bate na nossa porta.
- Putaquepariu, não tá dando pra aguentar.
Olho para um lado, para o outro. Vai ser aqui mesmo, penso. Um homem sai de casa e decide fumar um cigarrinho, na minha frente. Desisto.
Corro mais um pouco. Já sinto algo escorrer por minha perna. Deve ser suor. Corro mais. Minha casa não chega nunca, mas Deus é bom. A felicidade se instala em mim. A minha frente, um simpático jovem, aparentando uns trinta e cinco anos, sai de uma casa de construção. Eu me alegro:
- Moço, pelo amor de Deus, deixa eu usar o seu banheiro. É urgente.
- Então, não vai dar não. Eu tô de saída.
- Mas é rápido. Vão ser cinco minutos. Prometo.
- Puuuutz. Acabei de fechar. Vai ficar pra próxima.
- Você não tem coração, não? Eu tô me borrando todo e você não quer me emprestar seu banheiro?
- Vai lá no posto. É aqui do lado. Vai lá.
- Tá bom. Obrigado. Vai com Deus.
O mal da humanidade é, sem dúvida, a própria humanidade. 'O bom do Brasil é o brasileiro', os quintos dos infernos. O mal do mundo é o povo do mundo, o mal do Brasil é o brasileiro, assim como o mal de São Paulo são os paulistas e o mal daquela casa de construção era aquele viado filho da puta.
- Desgraçado miserável de uma figa. Espero que você morra e vá para o inferno. Espero que você tenha uma diarréia como esta, por dia, até o fim da sua vida, penso.
O posto de gasolina está fechado. É carnaval! Ao fundo, ao lado dos banheiros - trancados, óbvio -, vejo um cubículo 1x1 azulejado. Por um segundo pensei em correr até lá e fazer uma obra prima. Com certeza iria me aliviar da dor de barriga e do vexame que iria passar se tentasse correr mais um pouco até minha casa, mas, como disse, pensei nisso por apenas um segundo. Minha consciência não me permitiria tal feito. Resolvi correr mais. Agora, estava a apenas dois minutos de casa. Se corresse, então, chegaria em poucos segundos.
Dez passos a frente, sinto uma pasta grossa, úmida, escorrer por minha perna até meu calcanhar. Não se parece nada com suor. Não quis nem olhar o que era. Continuei correndo. Vinte segundos depois, já estava na frente da minha casa tocando a campainha como um desesperado. Minha mãe acorda, se espreguiça, a passos lentos vai até a janela, olha quem é, abre a porta e ainda com muito sono, vai, vagarosamente, ao meu encontro. Nessas alturas, minha cueca pesava uns 2 quilos e meio.
- Mãe, abre o portão que eu tô me cagando todo. Rápido, abre isso aqui.
Eu já tinha me esquecido daquele corno da casa de contrução e nem pensava em matá-lo mais. Fui correndo até meu banheiro deixando um rastro no chão. Quando fecho a porta, não me seguro e deixo minha vontade tomar conta de tudo.
E eu estava lá. Suado, parado, sentado na privada, me aliviando. Ainda de cueca e de bermuda.
Você pensa que a situação estava acabada? Que não podia piorar? Engano seu.
Tentei tirar minha cueca, minha bermuda, mas não consegui. Havia amarrado meu tênis, antes de correr, e um nó havia se instalado. Se eu tirasse minha roupa naquele momento, iria me borrar mais ainda. Procuro, acho uma tesoura e começo a cortar minhas roupas. Fui tirando aos poucos, à medida que ia me sujando mais ainda. Detalhe: Não havia papel higiênico também.
Quando olho, de relance, pelo banheiro, vejo a obra de arte que havia feito. Tudo, absolutamente tudo, sujo. Uma cagança total. Levanto, puto, entro no chuveiro e vou dando um jeito nas coisas. Depois de uns quarenta minutos, já estava cheiroso, o banheiro limpo e minhas roupas, as que continuaram inteiras, prontas para serem utilizadas.
Respirei.
- Paulo, a Julia tá chorando. Deve estar molhada. Troca ela?
- O que ela fez? O número um ou o número dois?
- Sei lá. Olha ela que eu tô ocupada.
- Ok. Deixa eu ver. Foi o número dois, Magali. Deixa comigo. Olha... tá toda sujinha. Fez cocô, nenê, fez? Que bonitinha! Vamos tomar um banhinho, vamos? Isso. Assim você fica bem cheirosinha e gotosa. Que sorrisinho mais lindo.
- Paulo, cadê vocês dois? Ahh, estão aí no chuveiro fazendo bagunça, é?
- Péééé.
A campainha toca.
- Magali, quem era?
- Ah, não esquenta não. Era o moço da casa de construção aqui do lado. Ele estava verde, suando, tremendo e com frio. Disse que estava passando mal e precisava usar nosso banheiro.
- E você, o que disse?
- Ah, nada demais. Mandei ele pra puta que o pariu! Mamãe pode tomar banho com vocês?