Décimo quinto andar.
Ele estava descalço, apenas de bermuda, espalhado na cama. Ela, de camisola, chinelos, fazendo café na cozinha. O sol estava forte naquele domingo às 10h13.
Era um apartamento pequeno no centro de São Paulo. Da cama, ele podia admirá-la.
Com um sono matinal, conversavam:
- Não aguento mais a Ana.
- Quem, a sua ex?
- É. A própria. Fica me ligando, me mandando mensagens. Já estamos separados desde que te conheço, há uns 2 anos, e ela insiste em me amolar.
- É normal. Ela ainda é apaixonada por você.
- Eu sei, mas ela sabe que não damos certo. Acho que o problema é que somos muito iguais. Já ouviu falar que os opostos se atraem? Então, acho que a única coisa que ela é meu oposto é que sou homem e ela mulher. De resto, é tudo igual.
- Por que você não senta e conversa com ela?
- Conversar com aquela maluca? Nem pagando. No máximo, um e-mail.
- E-mail, não. Pelo amor de Deus. Esses recados tecnológicos são uma punhalada por trás. Escreve uma carta, então. Sabe onde ela mora?
- haha. Mas é claro. Morei lá 3 anos com ela.
- Então vai. Escreve o que você sente. Assim ela vai se conformar mais fácil. O silêncio dói muito. Ela deve estar sofrendo.
- Bom, mas não agora, né? Em pleno domingão, com um sol desses, você não vai me fazer sair da cama, vai?
- Folgado. É por isso que gosto de você, seu preguiçoso. Deixa que eu escrevo. Você dita e eu escrevo.
- Feito!
Vasculhou umas gavetas, pegou uma folha de sulfite nova, tirou as xícaras e o bule de café da mesa, limpou tudo com um pano velho, se espreguiçou e começou:
- Pronto,é só ditar.
- Bom, vamos lá:
- "Ana, "
E ela escreveu:
- "Querida Ana, "
E ele continuou:
"esta é a última vez que você ouvirá falar de mim. Já tentei de todas as formas te mostrar que você não é mais nada para mim. Na vida, tudo tem um fim. E o que havia entre nós, acabou.
Nosso amor existiu no passado e tudo o que sobrou foram lembranças. Estou com outra pessoa. E ela é com quem quero ficar pelo resto da vida. Espero que entenda.
Por favor, não me procure mais,
Sérgio"
E ela escreveu:
"esta não será a última vez que você ouvirá falar de mim. Já tentei de todas as formas desistir de tudo para ficar com você, mas ainda me sinto inseguro e com medo. Na vida, tudo tem um fim, mas o nosso amor está sempre em nossos corações.
As nossas lembranças estão cada vez mais presentes em minha memória. Estou com outra pessoa, mas quero que saiba que com quem eu quero ficar pelo resto da vida é você. Tento enganá-la, mas acho que estou enganando a mim mesmo.
Tudo o que quero dessa vida é você. Te amo muito.
Até breve,
Sérgio."
- Pronto! Agora ela não me procurará mais e eu terei o mínimo de sossego.
Ela levantou, dobrou a carta em três, e foi saindo:
- Onde você vai?
- Levar a carta nos correios.
- Por que está com lágrimas nos olhos?
- Nada.
Olhou para a carta pela última vez, selou, suspirou e pensou:
- Ahhh, mas essa vagabunda não vai ter esse gostinho, não.
Amassou a carta e jogou no chão. Voltou para casa com uma deliciosa sensação de missão cumprida.
Pena...
Pena que o carteiro viu uma carta no chão, amassada, e resolveu postar.
Pena...
Pena que o CEP estava errado.
Pena...
Pena que a carta voltou para o remetente.
Pena...
Pena que quem recebeu a carta de volta não foi ele.
Pena...
Pena que também não foi a namorada dele. Foi a amante.
Pena.
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