quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo!

Tem coisa mais ridícula do que as simpatias de 31 de dezembro? Pule sete ondinhas, coma lentilha, se vista de vermelho, de branco, de amarelo... O pior é que todo mundo entra em um consenso e ai daquele que resolver burlar a regra. Se não tiver azar na vida, no mínimo vai ser amaldiçoado pela própria família.

Neste ano não foi diferente. Estava na casa de uns amigos, esperando o ano novo chegar, comendo pernil, bebendo champagne, jogando conversa fora, quando chega o último casal com um saquinho na mão:

- E aí? O que vocês trouxeram de bom?
- Romã! Pra dar sorte.

- Ahh, não. Isso é o fim. Além de pular ondinhas, ficar vestido que nem um papagaio de branco, verde e amarelo e me entuchar de lentilhas, tenho que comer esse troço?, pergunto.

- Claro que sim. Se você não comer sete caroços de romã, vai se arrepender durante os próximos 365 dias.

Todos os meus amigos concordaram, afinal, estavam com suas respectivas esposas. Como estava sozinho, pude discordar:

- Eu é que não vou comer essa coisa sem gosto. E o que isso tem a ver com sorte ou azar? E nos países que não tem Romã? As pessoas vivem azaradas para sempre?

Minha pergunta foi simplesmente esquecida depois de alguns "me passa o sal?", "tem mais champagne?", "que horas são?". Eu também não me importei muito, mas estava decidido não comer nem um carocinho da fruta da sorte.

Faltavam 10 segundos para a meia noite e meus amigos, uníssonos, cantarolavam dez, nove, oito... todos em uma grande roda, entusiasmados, esperando 2009 chegar... sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um.

- Feliz Ano Novo!

Neste momento, quando os dois ponteiros ficaram lado a lado, eles ficaram também. Cada um virou para o seu par, deu um abraço e se derreteu num beijo cinematográfico.

Todos os casais, sem exceção, em roda, se apertavam sem parar. E eu, sozinho no meio da roda, não tive dúvida: virei para o lado, agarrei, e abocanhei a Romã.

Quem sabe ela não me traga mais sorte no próximo ano novo?

Pra começar 2009 quente!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

E a quadrilha continua...

Carlos amava Dora que amava Lia que amava
Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos
que amava Dora Que amava Rita que amava Dito
que amava Rita que amava Dito que amava Rita
que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro
que amava tanto que amava a filha
que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
que amava toda a quadrilha
que amava toda a quadrilha


domingo, 28 de dezembro de 2008

Idéias que surgem assim

05/07/2006

Os primeiros cacos natelha foram virtuais.
Cósmicos-místicos, sobre: naturais.
Gosto de sangue;

De um lado, caranguejos imorais
Sabor menta-sabor,
mortes neuronais - naturais -.

Do outro, pernas e patas, venenos e baratas,
Gosto do fim, gosto do sim;

Idéias que surgem assim.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Suzana 0:44

A menina era perdida e promíscua. E não sou eu quem diz. Ela própria se denominava assim: Suzi Pró, a promíscua da boca quente e peito caliente. Usava botas pretas brilhantes, calça justíssima (para não falar enfiada na bunda), camada tripla de batom rosa, gloss, perfume embaixo do pé, tatuagem de um pênis ereto nas costas, calcinha asa-delta, marquinha aparecendo e um decote que ia até o umbigo.
Tinha vários namorados. Alguns eram primos, e freqüentar casa de swing era como ir à feira. Lá, todo mundo a conhecia:

- Boa noite, Suzana.
- Olá, Suzi.
- Corte de cabelo novo, Su?
- Suzana.. quanto tempo! Já faz mais de três dias que não nos vemos, não é?

Esta era a vida da nossa Suzana. Namoro de dia, balada à noite, swing na madrugada, duas vodkas pra cá, três caipirinhas pra lá, whisky, champanhe, muitos amigos, dois amantes, namorados e tudo o que uma vida bandida poderia lhe proporcionar.

Mas, como já dizia o sábio, tudo passa. E um dia algo passou pelos olhos da nossa garota Rebelde. Indo tomar um café, às 6h46 da manhã, quando voltava de suas noitadas, Gerson, com um avental branco de tão humilde, chegou à moça:

- Bom dia, Senhora.

Aquilo bastou. Ela sorriu e não conseguiu proferir uma palavra. Era um sentimento tão intenso, verdadeiro e único que ela nem pensou em ter vergonha daqueles trajes malvistos.

Ela estava apaixonada por Gerson que, por um mero capricho da natureza, era um pouco diferente da moça. Gerson era católico praticante, filho de dona Zita, carola e freqüentante assídua da paróquia de Santo Agostinho. Gerson tinha o primeiro grau completo e sonhava em fazer faculdade de medicina. Sonho que já estava guardado na gaveta há mais de dez anos. Trabalhava como atendente naquela padaria há quatro anos. No horário que Suzana saía da noite, ele costumava entrar no serviço. Para o Gerson, 4h30 era hora de pular da cama. Para Suzana, era hora de pular para cama ou, com alguém na cama. Gerson não reclamava da vida. Descansava bem todos os dias. Para acordar neste horário, tinha que ir dormir às 22h, horário que Suzana tomava banho para sair.

Sete meses depois deste primeiro encontro, eles já comemoravam seis meses de namoro apaixonado. Suzana só tinha olhos para Gerson e ele só vivia pela Suzana. Foi bem no começo do namoro quando ela aceitou toda aquela caretice e ingenuidade do menino. E ele, por sua vez, aceitou toda aquela badalação e vida perversa da menina. Todos os preconceitos foram deixados de lado, as armaduras de cada um, os julgamentos que os limitavam de viver uma vida plena, foram jogados ao chão e uma vida voltada para a sociedade foi transformada numa vida voltada apenas aos seus corações.

- Nós vamos nos casar. Já preparei tudo. O local, a igreja, as madrinhas, os padrinhos, o coroinha, meu vestido, a viagem, tudo! Vai ser o dia mais feliz da minha vida.

Suzana contava todos os detalhes do casamento e lua de mel para Edson, enquanto apenas de calcinha, sutiã e com um cigarro na mão subia as escadas do motel. Edson até sentiu um pouco de ciúme na hora, mas logo ficou com vontade de conhecer Gerson, o mais novo integrante da turma. Gerson, por sua vez, dormia e sonhava com os pãezinhos doces que teria de fazer na manhã do dia seguinte. Nem imaginava que estava entrando para a turma...
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Édipo Rei - OIDIPOUS TYRANNOS

Tragédia grega escrita por Sófocles em 427 a.C.

Édipo nasceu em Tebas e era descendente de seu mítico fundador, Cadmos. Seu avô foi Labdacos (o "coxo") e seu pai foi Laios (o "canhoto").

Laios casou-se com Jocasta e teriam sido felizes como reis de Tebas se não fosse um problema: não conseguiam ter filhos. Por essa razão, muito religiosos, foram consultar o Oráculo de Delfos.

No templo, a pitonisa délfica revelou que teriam um filho dentro de pouco tempo, mas que ele estava destinado a matar o pai e casar-se com a mãe.

Eles se alegraram pelo filho. Quando ele nasceu, Laios lembrou-se do oráculo e mandou os servos matarem o bebê.

Levaram-no para uma a floresta, furaram-lhe os pés e o amarraram de ponta cabeça em uma árvore para ser devorado pelos animais selvagens.

Passaram por ali uns pastores de Corinto e o levaram. Deram-no aos reis de Corinto, que também sofriam por não ter um filho. O rei e a rainha adotaram-no como se fosse seu, e lhe deram o nome de Édipo, que quer dizer "pés furados".

Quando cresceu, Édipo começou a sentir-se diferente dos seus concidadãos e foi consultar o Oráculo de Delfos. Aí soube que estava destinado a matar o próprio pai e a casar-se com a mãe. Horrorizado, decidiu não voltar a Corinto, Pegou o carro e foi para bem longe.

Em uma estrada estreita, nas montanhas, encontrou um carro maior na direção contrária. Tentou desviar-se mas os carros acabaram chocando-se de raspão. O cocheiro do outro carro xingou Édipo que, revoltado, o matou. Então o patrão do cocheiro avançou sobre Édipo, que o matou também. E continuou a viagem.

Chegou a Tebas e encontrou a cidade consternada por dois problemas: o rei tinha morrido e um monstro, a Esfinge, estabelecera-se na porta da cidade propondo um enigma. Como ninguém sabia responder, a Esfinge ia matando um por um. Jocasta tinha oferecido sua mão a quem livrasse a cidade desse monstro.

Édipo foi enfrentar a Esfinge. Era um ser estranho, com corpo de leão, patas de boi, asas de águia e rosto humano. Seu enigma: O que é que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três à tarde?

Édipo respondeu que era o homem, porque engatinha quando criança, passa a vida andando sobre dois pés mas,velho, tem que recorrer a uma bengala. A Esfinge matou-se e Édipo, casando-se com Jocasta, tornou-se o rei de Tebas.

Tiveram quatro filhos. Os gêmeos Eteócles e Poliníces, Antígona e Ismênia. Foram felizes durante muitos anos. Mas, depois, uma peste assolou a cidade.

Édipo quis ir consultar Delfos, mas foi aconselhado a chamar Tirésias, um velhinho cego e sábio que vivia em Tebas. Este revelou que a causa era o assassino de Laios, que continuava na cidade. Édipo prometeu prendê-lo e matá-lo, mas o sábio revelou que ele mesmo era o assassino, porque Laios era o dono do carro que ele enfrentara.

Jocasta, envergonhada, suicidou-se. Édipo furou os próprios olhos e renunciou ao trono. Cego, precisou ser guiado por Antígona para ir a Delfos. Aí soube que devia ir a um bosque sagrado, em Colonos, perto de Atenas. Ajudado por Teseu, rei de Atenas, chegou lá. Encontrou um lago, onde tomou banho, e uma caverna, onde penetrou depois de mudar de roupa. Entrou na eternidade.

O mágico do mal - Especial de Natal

Por meu amigo Wagner Spolaor, el gran Rasputin!

Depois do fiasco que foi seu último aniversário - Raquelzinha ainda treme ao lembrar-se do capuz em sua cabeça e seus amigos correndo todos em direção ao microônibus do maldito mágico – a ceia de Natal seria perfeita! Cada minúsculo detlhe preparado a meses, planos A, B e C para quaisquer eventualidades que surgirem e, principalmente, nada daquela peste de mágico.
Dez da noite... Todos começam a chegar para a ceia. Primos do interior em suas roupas bregas, primas da capital com seus cabelos esquisitos e aqueles tios que a cada ano parecem mais bizarros, como se passassem o ano inteiro dentro de um vidro de conservas. Tudo bem. Vale o preço para ter o prazer de mostrar como é boa para organizar festas.
Os pais confiaram em Raquelzinha (agora Raquel... Afinal, já é uma moça!) e agora ela será um sucesso total. Depois do Especial do Roberto Carlos, todos teriam uma surpresa. Roberto canta Emoções, a mulherada chora, os adolescentes sentem ânsia de vômito e, dez minutos depois, todos vão à mesa para saborear o banquete.
Barrigas cheias. Conversas fiadas pela casa. De repente, toca a campainha. É agora! – Raquel pensa satisfeita. A mãe vai atender à porta, os ouvidos da mocinha se aguçam:
- Então, o Seu Pacheco teve um problema lá com o filho bebum dele e não pôde vir, aí a agência me mandou no lugar dele, beleza?
Ai meu Deus! Deu rolo com o Papai Noel! Pelo menos mandaram alguém no lugar dele, tomara que não seja um velho magrela com uma barba de algodão amarelo.
- Ho, ho, ho! Feliz Natal! Venham todos receber seus presentinhos! Ho! Ho! Ho!
Sucesso! A surpresa de Natal! Mas é melhor dar um tempo antes de ir à sala colher os frutos da vitória. Por essa ninguém esperava... Economizei cada centavo da minha mesada, mas vou dar presente pra todo mundo. E vou ficar com o Ibope lá em cima! Hahaha!
Raquel vai lentamente até a sala com seu melhor sorriso no rosto e... NÃO! Olhos azuis, queixo com furinho e as covinhas infernais! É ele!
- O que você está fazendo aqui?!
- Ho! Ho! Ho! Minha filha, eu vim do Pólo Norte trazer os presentinhos de Natal dessa gente bonita!
E cochichando:
- Negócio é o seguinte, o trampo de mágico não virou, a polícia me pegou no grande número do desaparecimento do relógio usando uma bolsinha que eu comprei na Internet (Balbag, tenha a sua você também!). Agora pega esse despertador de R$ 1,99 e deixa eu trabalhar decentemente!
Bom, Raquelzinha (agora ela se sentia uma pirralha de novo) pensou, todo mundo deve ter uma segunda chance. Quem sabe ele se regenera, né?
Virando para comer mais uma rabanada, ela ainda tem tempo de ver o Papai Noel com três cartas de baralho na mão e falando para o tio Valdemir:
- Então, meu senhor, quer apostar seus cinqüenta reais que a carta vermelha não está mais no meio das duas?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O que eu desejo

Um natal repleto de felicidade; Um ano novo de paz para todos;
Um natal com muita alegria; Um ano em que todos os seus sonhos possam se concretizar... e um ano com muita harmonia, paz e amor para toda a sua família.

É o que eu venho desejando há 29 anos. É, todo ano esta ladainha: paz e amor pra família toda, sucesso praquele cara que você odeia, muita saúde praquela safada que você quer ver longe da sua vida e outros tantos hipócritas blábláblás.

Hoje eu só aceito de coração quando me dizem "boas festas". Porque aí sim eu lembro de coisas boas: festas. Com bastante champanhe, muita gente conversando e se divertindo. Este, para mim, é o verdadeiro espírito de natal: parar de trabalhar um pouco e só pensar em diversão.

Hipocrisia à parte, hora de ser solidário, de amar o próximo e de viver em paz, não é no dia 24 de dezembro, à meia-noite, quando o peru está sendo devorado. A hora de harmonia deveria ser naquela hora em que você está no trânsito, leva uma puta fechada e dá vontade de matar o sujeito que nem te viu passar. Hora de paz deveria ser a hora em que você está na balada e um bêbado mexe com a sua mulher. Hora de solidariedade deveria ser em janeiro, fevereiro, março, abril...

O que eu desejo agora? Nada demais. Desejo que a Julia Roberts apareça aqui em casa, nua, no réveillon, ou que a Sandra Bullock faça uma visitinha surpresa a mim na noite de natal, com uma mini saia a lá mamãe noela. É isso o que eu realmente desejo. Porque o que eu disse aí em cima, pode ser mera ilusão. Metade depende da sorte, metade depende de ação.
E no MSN, um amigo completa meu post. Tive que inserir aqui...
"E te digo mais: sempre enchi o cu de sopa de lentilha na virada do ano. Era para estar rico hoje."

domingo, 21 de dezembro de 2008

Seus beijos calientes

Ela era apaixonada por ele há muito tempo. Ele gostava bastante dela, mas não do jeito doente dela.

No último encontro, entre beijos e amassos, sem dó, ele lascou um tapa no lado esquerdo do rosto dela. Antes que ela pudesse reclamar, ele colocou sua mão em sua nuca, puxou seu cabelo e a beijou loucamente. Ela se deliciava com uma mistura de amor e ódio da melhor qualidade.

Dez minutos depois a vontade chegou, e ele, novamente, não hesitou: lascou outro tapa na face esquerda dela.

Uma lágrima caiu, mas ele nem percebeu. Continuou beijando-a sem fôlego, sem pudor, sem se preocupar com o tempo, com nada. E continuaram assim. Para ela, hora aumentava sua paixão, hora desejava que ele nunca tivesse sequer existido.

Poucos minutos depois, suando, e desejando aquela mulher, ele levantou sua mão e já em direção ao seu rosto, ela não agüentou. Segurou a mão dele com fúria. Respirou fundo enquanto seus olhos avermelhavam. Pela primeira vez, ele teve medo daquela moça linda.

E apontando o dedo rígido para ele, ela esbravejou:

- Por favor, bate um pouco do outro lado.

Ele bateu no mesmo lado. Só para ela não ficar mal acostumada.
Sorriu e continuou com seus beijos calientes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

João Motorista

12/12/2008 – 09h16

João era motorista de ambulância do único hospital de Calmênica do Sul – uma cidadezinha minúscula de aproximadamente três mil habitantes. O trabalho era o seu maior motivo de orgulho. O problema é que não tinha trabalho.

Calmênica era uma cidade muito calma. As pessoas, quando bebiam, bebiam com calma. Quando corriam, corriam com calma, e o pior: Quando brigavam, brigavam com calma. Na direção, eram cautelosos também. Paravam no sinal amarelo, só aceleravam depois de cinco segundos de sinal verde, respeitavam o pedestre, eram realmente muito calmos.

Toda esta calmaria, todavia, não deixava nosso João assim tão sereno. Pelo contrário, João andava estressado. Com toda esta calma, não tinham muitos corpos para socorrer em sua ambulância. Muitos, não. Nos últimos 5 meses, ele não tinha sido chamado nem uma única vez.

Foi em sua casa, calma também, que João teve sua primeira grande idéia: eu saio pelas ruas atropelando os pedestres. Jogo na caçamba e encaminho para o hospital. Meu emprego fica garantido e a calma volta para mim.

E assim começou a saga do João em prol de sua calmaria: de manhã, indo para o hospital, João avistou uma senhora atravessando a faixa. Não pensou duas vezes e PUM! Dez minutos depois a velhinha já estava sendo encaminhada ao hospital pelo próprio João. À noite, de volta para casa, um rapaz de bicicleta aparece ao lado da ambulância do João. Nosso amigo não pensou duas vezes: Paft. Deu só aquela viradinha e derrubou o bicicleteiro no chão. Só para não ter perigo do moço se lembrar de algo, João foi para frente e para trás três vezes, até o rapaz perder a consciência.

A coisa estava indo bem. O hospital estava agitado e o emprego de João não mais estava comprometido. Em um mês ele havia mandado quarenta e cinco para o hospital. Em seis meses, quinhentos e trinta. Após dois anos, mais de três mil pessoas já estavam ocupando algum lugar no hospital. Precisamente, três mil quatrocentos e trinta pessoas. Exatamente o número de habitantes de Calmênica do Sul.
Daquele dia em diante, João não tinha mais ninguém para atropelar. Crianças, velhos, moços, moças, católicos, judeus, todas as pessoas da cidade já estavam no hospital. Sabendo disso, o diretor geral do hospital, seu Manoel, não poderia ter outra postura:

- João, não existe mais ninguém na cidade. Agora, seu trabalho é dispensável. Para cortar custos, vou ter que mandar você embora.

João não teve dúvidas: atropelou o seu Manoel.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Jogando dados

(9/12/2008 – 9h25)

Era para ser uma linda história de amor. Desta que faz os homens mais duros se amolecerem e se acabarem em lágrimas no cinema.

Era aproximadamente nove da noite. Ele estava entrando em uma reunião de negócios. Já com a mão na maçaneta, colocando seu primeiro pé na sala, seu telefone tocou. Ele olhou no visor, mas a ligação era privada, oculta. Não sabia quem era:

- Alô.

Falou bem baixinho, para não atrapalhar mais seus colegas. Entrou meio agachado, meio na ponta dos pés, até que ela respondeu:

- Oi.

Apenas no "Oi" dela, em uma fração de segundo, já deu para ver que a chamada não era de negócios.

- Sérgio?

Ele não era Sérgio. E não se lembrava de nenhum Sérgio que poderia estar... bom, o que importa? Ele se virou e foi saindo pela sala, gesticulando com a mão para que as pessoas o aguardassem. A vontade era de simplesmente dizer "Desculpe, não tem nenhum Sérgio aqui. Foi engano.", mas não. Preferiu jogar dados e conhecer o que o destino estava aprontando:

- Olha, não tem nenhum Sérgio aqui, mas eu garanto que sou mais interessante que ele.

Ela riu, demonstrando que não existia um vínculo com o tal de Sérgio que não permitisse as piadas. Primeira jogada: 6 em um dado, 5 no outro.

- Que estranho... acho que eu liguei errado, então.

O tom de sua voz não exprimia nenhuma vontade de desligar. Ela também estava gostando da brincadeira.

- Ligou errado? Claro que não. Você acredita em certo, errado, sorte, azar? Eu, não! Acredito em destino. Todos nascemos com um caminho traçado à lápis. O caminho está lá e as coisas acontecem do jeito que tem que acontecer. Lápis porque é fácil de apagar, reforçar ou reescrever. Você, por exemplo, está com um lápis na mão esquerda e uma borracha na direita. Você pode me dar o seu telefone, reforçar este caminho que ainda é tão suave, ou desligar e apagar uma história que está em suas linhas iniciais...

Não, ele não pensava tudo isso. E nem era tão filosófico ou erudito assim. Ele estava jogando, simplesmente jogando. Agarrou os dados, olhou para ela, e lançou.

- Sua voz é bonita, você fala bonito, deve ser um homem bem inteligente, também. Sinceramente, até que gostei de você, mas eu nem sei quem você é.

Segunda jogada: 5 em um dado, 2 no outro. Havia uma vontade enorme de saber quem possuía aquela voz sensual, inteligente, certeira no que dizia. Por outro lado, ela queria se esquecer de tudo isso. Poderia também ser um bandido, um marginal, um seqüestrador. Com tantas notícias trágicas na TV, era difícil confiar apenas no instinto.

- Vamos fazer assim, disse ele, vou deixar o destino em suas mãos. Se você sentir confiança, ligue-me mais tarde. Se não, simplesmente apague o meu número. Aí conversamos mais um pouco, ok?

Ele deixou os dois dados nas mãos dela, e desligaram os telefones.

Deste dia em diante, durante duas semanas, ele esperava ansiosamente por uma ligação inesperada daquela voz, mas ela nunca mais ligou. Esta pequena história rapidamente virou esquecimento nas mentes daquelas pessoas sortudas que não erraram na jogada, mas não acertaram apenas por não jogar.