quinta-feira, 29 de julho de 2010

Um outro amor - Mini-novela em 14 mini-capítulos - Capítulo 5

Ainda pensando no pesadelo que teve na noite anterior, Carlos se apóia na parede e começa a contar suas moedas que estavam no bolso, só para passar o tempo.

Cinco, dez, quinze minutos e nada. Nem Julia, nem ônibus. Carlos tentava pensar no trabalho, nos estudos, em alguma coisa, mas sua mente não mais podia se livrar da menina de seus últimos sonhos.

Um barulho de carro em alta velocidade passou por ele e já foi suficiente para desviar sua atenção, franzir suas sobrancelhas e ver a menina chegar. Seus cabelos negros, lisos, na altura da orelha balançavam como num filme dos que Carlos gostava de ver nos sábados de chuva. Ele abriu um sorriso, sentiu seu coração palpitar, mas não entendeu nada quando a menina não parou lhe dizer um olá. Ela apenas retribuiu o gesto, por educação, com um sorriso mais contido.

Mantiveram-se por alguns minutos afastados até o ônibus chegar. Subiram, pagaram e não se sentaram juntos como esperava Carlos. A menina continuou andando pelo ônibus e escolheu o último lugar. Bem longe dele.

_Mulheres são loucas. Não pode ser. Ontem ela estava cheio de papinho, de sorrisinhos, e agora nem um oi?, pensava Carlos transtornado com a indiferença da menina.
_Acho que louco mesmo sou eu, continuava nas viagens mentais. Louco de amor, de paixão.

Ela, por sua vez, tentava imaginar como era o abraço, o cheiro e o beijo daquele estranho que acabara de encontrar. E quando ele olhava para trás, fazia o coração dela bater mais forte.

Cenas dos próximos capítulos:
O quebra-cabeça começa a se encaixar. Como a mesma menina que pega o ônibus antes de Carlos chega atrasada e sobe no mesmo coletivo? Você acredita em fantasma? Carlos ainda não tem peças suficientes para resolver este enigma. Talvez você tenha. Aguarde a Cena 6 de Um outro amor. Uma mini-novela em 14 mini-capítulos.

Merchan: Esta novela é apoiada por Palestras Motivacionais, HipnoMasters.com.br e OMagico.com.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Em cartaz, o engenheiro

João Ator era ator profissional. Ator mesmo, de teatro, cinema, novelas. Um dia resolveu fazer um monólogo. A peça se chamaria “O engenheiro”.

Mas havia um problema: João Ator nunca tinha estudado nada sobre o tema e, para ser um perfeito engenheiro em cena, tinha que conhecer e dominar muito bem o assunto. Para isso, decidiu conversar com engenheiros.

Começou sua jornada frequentando a casa de um, comparecendo em reuniões e palestras com outros. Depois de alguns meses de “laboratório”, como ele gostava de dizer, já entendia um pouquinho da mente dos engenheiros, pessoas com um raciocínio tão lógico que dava até medo. Pessoas que faziam planos detalhados para os finais de semana, estipulavam metas com prazos e números até para seus filhos. Um povo bem estranho e diferente da classe de atores que ele conhecia tão bem.

Para se tornar melhor ainda em cena, João Ator decidiu fazer uma imersão na carreira. Inscreveu-se em um curso de introdução à engenharia. Um ano de estudo!

Depois da formatura, João Ator já falava da mesma maneira e com a mesma linguagem dos engenheiros que conhecia. Tinha na ponta da língua termos como flambagem, momento fletor, momento torsor, derivada, integral. Uffa, deu um trabalhão, mas foi divertido! Ficou tão empolgado com a experiência in loco que, para se tornar um ator perfeito e não decepcionar em seu monólogo, João Ator se matriculou em uma faculdade de engenharia.

Cinco anos mais tarde, formado e com diploma nas mãos, João Ator já falava, pensava como um engenheiro e, acredite se quiser, projetava casas e prédios. Mas ele queria mais. A idéia de ser perfeito no palco fez João Ator se inscrever em um curso mais avançado, uma pós-graduação.

Uau, ao terminar a especialização ele já projetava, avaliava e até assinava obras para outros técnicos. Seu papel estava beirando a perfeição.

O que mais faltaria para esta imersão total?, - pensou.
- Uma empresa de engenharia!

Encontrar um sócio foi rápido. Com alguns clientes já conhecidos e um pouco de trabalho no fim de semana, João Ator, após três anos de empresa, já possuía uma construtora de renome em sua cidade. Ele já falava, pensava, agia, instruía e lucrava como um engenheiro de verdade.

E, num sábado chuvoso, olhando para um teatro em frente ao seu novo empreendimento, João Ator decidiu se esquecer do monólogo, abandonar o tablado e se dedicar exclusivamente ao teatro profissional.

Às sextas-feiras, João Ator acordava e tomava seu café enquanto fazia cálculos de estrutura, como os velhos atores faziam. Colocava um terno cinza com uma camisa branca, seu figurino preferido de engenheiro, penteava seu cabelo como um profissional e ia para uma reunião com seus sócios, que também eram atores engenheiros. Bom, não eram tão perfeitos como João, mas já estavam pensando em fazer um curso de especialização para atores desse ramo, um MBA.

E você? Que papel interpreta?

terça-feira, 6 de julho de 2010

Série Fetiches – Capítulo 2

Ele tinha um fetiche assustador por elevador. Algo surreal. Sem limites.
Ao menos uma vez por semana ele elegia um elevador e começava a maquinar seu plano...

Era o elevador da rua ao lado, número 10, o elevador da vez.
Pelas manhãs que passava na frente do prédio, imaginava o que poderia ser feito dentro daquele elevador. Como ele entraria sem ser notado, como ele usaria tudo que sabia, como ele sairia sem deixar rastros.

Esperou um dia não muito movimentado para especular. Fingiu um nome, um apartamento e um andar. Entrou no elevador e começou a analisar como seria. Olhou timtim por timtim. Analisou, tocou, sentiu a resistência, deu alguns pulinhos para ver se aguentava. Quase indo embora, olhou um pouquinho mais para cima, à direita. Tomou um susto quando notou uma câmera escondida entre o forro.

Seus planos tiveram que mudar. Entrar sem ser notado já era uma tarefa árdua, porém, uma câmera lá dentro tornava tudo quase impossível.

Quase, sim. Impossível, não. Seu fetiche era maior que seu medo. Na noite de sábado, na hora marcada, do jeito pensado, ele entrou. Deu seus passos planejados e em alguns segundos já estava lá dentro. Sem ao menos relaxar pelo primeiro passo conquistado, retirou um pedaço de espelho do bolso e com mais um pedaço de fita o posicionou num lugar estratégico. A imagem da câmera era de um elevador vazio. Perfeito.

Agora ele já podia relaxar. Respirou e deu inicio ao seu fetiche. Assustador. Surreal.

Retirou de sua mochila uma escova, sabão e água. Começou pelas quinas, passou pelas paredes e não foi embora até deixar o elevador limpo e cheiroso.
Como os elevadores devem ser.

Algo dizia

- Tchau.

Ele tentava mostrar tranquilidade na despedida. Por fora, uma cara normal, um sorriso bastante igual. Por dentro, algo que revirava seu estômago e não o deixava respirar com tranquilidade.

Ela tinha cabelos longos, negros. Sua pele era clara, suave. Seu perfume, simples, era praticamente imperceptível. A não ser quando forçava seu nariz contra sua roupa buscando algo.

Deixou o local da conversa e lutou para não olhar para trás e dar um último adeus. Adeus, não. Até breve - pensou.

Entrou no carro e sentia o estômago apertar. A sensação tão falada das borboletas no estômago podia ser notada com a clareza de um especialista.

Conduziu o carro com os olhos na pista e, a mente, com seus olhos na alma, suspirando as lembranças de uma tarde qualquer, com alguém que valia a pena rever.

Chegou em casa com um sorriso no rosto de quem havia conhecido um grande amor. Andou pela sala, abriu a porta da cozinha, mexeu na cabeça da cachorra, pegou uma batata frita, que já estava fria sobre a mesa, e colocou na boca.

Sentiu algo diferente em seu estômago. Notou que as borboletas estavam indo embora. Colocou outra e mais outra e mais outra batata na boca. A última com ketchup. Sentiu nitidamente que a paixão o estava deixando.

Comeu um pouco de feijão, arroz e tomou um suco de caixinha, enquanto aquela sensação que parecia amor, paixão ou qualquer coisa assim, sumia de seu estômago.

Sozinho, em casa, ele ria. Percebia que não estava apaixonado. Estava com fome.

Mais tarde, deitou sua cabeça no travesseiro e, depois de uma hora, notou que não podia dormir.

Algo dizia que ele havia comido demais. Algo dizia que ela ainda estava lá.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Livro no forno

O livro está no forno. Meu amigo Raspa está cuidando da revisão e formatação..
Olha que legal está ficando:

2 minutos e meio

São Paulo, uma hora da manhã. É hora de dormir. Meu sono não vem, minha mente vai; vai lá longe, aonde as mentes vão quando estamos tentando dormir, apenas para dar um abraço imaginário numa outra mente que também ia.

Depois de alguns segundos, volta. Nesse vaivém de idas e voltas, passam-se 23 minutos e ainda estou acordado. São quase uma e trinta e cinco da manhã e ainda não consegui dormir. Viro de um lado, viro de outro e quando vou pensar em... Puf!. Apago instantaneamente num sono que seria profundo, profundíssimo, se, após quatro horas e meia, eu não tivesse de ouvir o despertador falar:

– Trimimimririrmim

Tomo um banho rápido, engulo alguma coisa, carrego meu carro com oito malas, duas delas maiores que eu, pego trânsito, pego minha assistente, pego tudo e chego ao aeroporto. Estaciono o carro, tiro as malas e faço uma pilha gigantesca num carrinho de mão. No guichê para o check-in:

– Senhor, o seu vôo das 10h30 sai de Guarulhos e não de Congonhas. Você

tem trinta minutos para chegar no outro aeroporto.

Raiva repentina! Queria colocar a culpa em alguém. Na minha secretária? Na minha assistente? Em quem? Bah! A culpa era minha. Engoli minha burrice, atravessei o aeroporto todo, paguei quase R$ 500,00 e remarquei minha ida a Manaus para mais tarde. Coloco tudo no carro, pago o estacionamento e fico esperando das 10h às 18h em meu escritório.

18h! Triririm!

Saio correndo, dirijo num trânsito obsceno de tão perverso que é, chego então a Guarulhos, agora sem assistente para me ajudar nas malas. Tiro tudo do carro, coloco no carrinho, derrubo três vezes meus pertences no chão, subo, desço, subo, desço e consigo despachar. Minha assistente chega, comemos uma nutritiva, light e saudável Pizza Hutt e embarcamos.

– É só entrar naquele ônibus, senhor. Ele o levará para a aeronave.

Desajeitados, subimos, eu e minha assistente, e aguardamos quase vinte minutos dentro de uma lotação que nos levaria até o avião. Chegamos. Descemos, ficamos numa fila quilométrica para subir no bendito, dentro da coisa com asas:

– Moça, minhas mãos estão ocupadas. A Sra. poderia fazer a gentileza de

pegar o bilhete aqui no meu bolso e dizer qual é meu assento?

– Claro senhor. Deixa eu ver. Hummm. Senhor, o seu vôo é para Manaus e este vai para a Bolívia.

Duzentos passageiros, em coro:

– Bolívia?

Descemos apavorados, corremos atrás do outro ônibus, subimos, brigamos com o motorista, esperamos, esperamos e chegamos ao avião que iria para Manaus – sem escala na Bolívia ou Paraguai.

– Agora sim. Estamos cansados mas, pelo menos, dormiremos no avião.

Dormir? Onde? Se ao menos pudesse sentar-me dignamente já estaria bom. O assento não declina, a aeromoça não vem, minhas pernas são maiores do que o mísero espaço que tinha para elas, as pernas do meu vizinho também, ficamos disputando espaço durante duas horas até que eu desisto, tiro meu sapato e coloco minhas pernas, esticadas, para fora no corredor. Que delícia seria ficar nessa posição nos próximos noventa e dois minutos se a aeromoça não viesse brincando com seu carrinho rápido de comida e não tivesse esmagado meus pés.

– Desculpe, senhor, mas o senhor não pode ficar com os pés onde estavam.

Após quarenta e cinco minutos de malabarismos, tentativas de pegar no sono, um bafo com cheiro de azedo do meu vizinho e aeromoças maléficas, consegui dormir. Mas as crianças de trás, espertas, perceberam e começaram a chorar batendo os pés na poltrona da frente: a minha. Levanto-me.

– Moça, eu quero descer.

– Senhor, não é possível, estamos em vôo.

– Jura? Não diga. Eu quero descer mesmo assim. Dê para mim uma dessas poltronas flutuantes, um paraquedas ou qualquer coisa, pois, eu preciso descer.

– Um minutinho, senhor. Vou falar com o comandante Barroso.

Quarenta e dois minutos depois:

– Ok, senhor. O comandante autorizou.

– Senhoras e senhores, preparem-se para a aterrissagem.

Manaus!
Aterrissamos, esperamos todos os trogloditas saírem da aeronave, descemos, fizemos o check-out, pegamos as oito malas, duas delas maiores que eu, e aguardamos na saída do aeroporto uns cinqüenta minutos até perceber que o motorista que viria nos buscar não veio.

Pegamos um táxi, chegamos no hotel, fizemos check-in, nos arrastamos até nossos respectivos quartos, tentei tirar meu segundo sapato e, às quatro da manhã, capotei novamente. Agora sim eu teria muitos e muitos minutos de sono. Para ser exato, cento e vinte minutos. E depois de todas essas duas horas de cochilo:

– Tririmriririrmrmrimrirmirmrrim

– Hã? Hã? Hã?

Tomo um banho rápido, engulo alguma coisa, chamo um táxi, carrego minhas oito malas, duas delas maiores que eu, mas que não sei por que estavam maiores e mais pesadas, agora. Chego ao local do evento, monto o circo, as pessoas entram.

– Senhoras e senhores, bom dia!

– Vocês dormiram bem? Que ótimo!

Na segunda fileira tinha um moço de calça jeans e camisa polo que insistia em fechar e abrir os olhos durante meu show. Isto porque ele tinha dormido apenas 7 horas nas últimas três noites. Coitado.

Termino o show, desmonto tudo, táxi vai, táxi vem, mala cai, mala fica, assistente reclama, tudo no hotel, puto, cansado, de saco cheio, costas moídas, cérebro cansado e vistas semi-pulsantes.

Felipe, um amigo de infância, que reencontro casualmente por lá, arrasta-me até um minizoológico, dentro de um super-hiper-hotel próximo ao nosso. O nosso era apenas super.

Já lá dentro, uma arara vira-se pra mim e diz “OiOiOi”, dois macaquinhos fazem tchau e uma tartaruga, gigante, coloca a cabecinha pra fora d'água, fecha os olhos e sorri pra mim, enquanto que o ursinho, bem do outro lado, estava doido de vontade de me dar um abraço. De 2 minutos e meio. Respiro e penso: Valeu.