sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Amores em vão - Parte 1

- Isso é hora de me ligar, criança?

Vamos por partes. Quem ligou foi Marcelo, 23 anos. Estudante de administração. Descolado, baladeiro e namorador.

Quem atendeu foi Julia, 42 anos. E este era o motivo para chamá-lo de criança. Ela com 42, ele com 23. Julia era empresária, mulher séria, mãe de suas filhas - Jasmim e Ana - e casada com Claudio. Os dois namoravam há um ano. Não Julia e Claudio, mas Julia e Marcelo, seu amante.

Exatamente um ano. Parecia muito mais para quem conhecesse o casal. Foi neste exato dia, há um ano que deram o primeiro beijo:

- Olá, a moça está acompanhada?
- Obrigada pelo moça, mas eu acho que tenho idade para ser sua mãe, não acha?
- Se eu tivesse uma mãe dessas, eu não estaria num bar a essa hora.
- Como você é ridículo. Estou acompanhada, sim. Meu marido está chegando. Se manca e cai fora.
- Você é tão brava como minha mãe. Já estou ficando excitado... vou ficar ali te admirando.

- "Por que só atraio cachorro?", pensou Julia.

Depois de 2 horas estavam os dois atracados na porta do banheiro, enquanto Claudio pagava a conta no bar. Foi assim que tudo começou.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Retrovisor

Era um senhor de, aparentemente, 82 anos. Barba branca, calça cinza, camisa salmão dentro da calça e barriga apertada por fora.

Após as compras, não fez questão de pagar o estacionamento. Deu o ticket para a esposa e ficou esperando dentro do carro.

Ela voltou, entrou no carro e colocou o cinto. Ele quase não se mexeu.
Deu a partida e, lentamente, foi saindo do estacionamento.

Ele tinha um carro grande, bonito, prateado. E eu estava no carro de trás vendo tudo.

Em sua frente, a uns dois metros da calçada, andava um rapaz. Mais tranqüilo que o senhor do carro. Andava e balançava os braços. Eu, de onde estava, o vi. O senhor, não.

Puff! Foi o som que ouvimos.
O senhor quase arrancou o retrovisor de seu carro na bunda do moço. De onde eu estava, avistei três cenas:

O rapaz, xingando o carro prata, a acompanhante do senhor passando um batom e velho esticando o braço e arrumando o espelho automático. Como se nada tivesse acontecido.

Depois de dois dias, a única coisa que o jovem se lembrava é que aquela rua era perigosa;
A senhora que acompanhava o senhor, se lembrava que tinha se esquecido de comprar uma bolsa;
O velho se lembrava que a atendente da loja de celular tinha uma bunda muito gostosa.

E eu, me lembrei de escrever a cena exatamente como eu vi. Salvo algumas pequenas invenções.

- Às vezes, após um final de semana inteiro, com churrascos, bebidas e passeios ao shopping, a única coisa que realmente vale a pena é uma visão de uma bundinha redonda. O resto, nada presta. Pensou.

Don Juan

Saíram os dois amigos para andar de bicicleta:

- Hoje acordei com uma vontade tremenda de fazer uma boa-ação. Uma não, várias. Falou Rodrigo, com o peito estufado.
- Ah, é? haha. Que tipo? Disse Marcelo.

E Rodrigo, tentando andar com a bicicleta em uma roda, freou e, com a mão direita ao alto - apontando para o horizonte - disse:

- Xavecar a mulherada. Fazê-las feliz. Destilar meu mel e exalar paixão nas gatinhas do parque...

O outro, quase gargalhando, não se conteve:

- Haha. Mas desde quando isso é novidade pra você, Don Juan?

- Aí é que está o detalhe, caro amigo. Hoje é o dia das coroas. Mulher com menos de 50 nem vai sentir o meu perfume. Esta manhã os meus olhos são para as tias da terceira idade. Hahahaha.

Um ria se imaginando chegando nas ex-gatinhas. O outro ria da babaquice do amigo sem-noção.
Andavam mais lento que o normal. Um se fazia de garoto-propaganda tentando pedalar de uma forma sensual. O outro mantinha uma certa distância. Perto demais para se divertir com as cenas surreais que o amigo o propiciara; longe o suficiente para não passar vergonha junto dele.

A primeira senhorinha (65) sentiu um bafo quente atrás da orelha, junto da pérola:

- Acho que estou no mar, pois acabei de encontrar uma sereia.

A reação não podia ser outra:

- Socorro! Socorro! Tem um tarado no parque...

Enquanto um não se continha de tanto rir, o outro saía disparado fugindo de um guarda-chuva voador.

- Você ganhou o prêmio máximo! Você e meu ídolo! haha. Aquela tia tinha idade pra ser sua vó! Tu é um sem-noção, mesmo.

- Você não viu nada. Olha pra frente, ali perto do bebedouro.

- O quê? Você vai chegar naquela senhora de amarelo?

- Nah... essa é muito jovem. Vou alegrar o dia daquela de verde (77), sentada no banquinho.

Naquele instante ouviu-se nitidamente um sonoro PUTAQUEOPARIU! E ele foi:

- Estou morrendo de calor... quer tirar a minha blusa?

A senhora olhou para o rapaz e soltou um sorriso que devia estar preso há uns 30 anos:

- Agora mesmo, meu gostoso.

Enquanto a tia abraçava Rodrigo, Marcelo deitava na grama e sentia seu abdômen doer de tanto rir.

Passou menos de 5 minutos e os dois já estavam relembrando os bons momentos, prontos para outra:

- Que tal aquela de costas (54)?

Marcelo até se entusiasmou:

- Não dá pra ver a cara, mas até que é gostosinha, digo, gostosona. Haha.

Agora que você aprendeu, quer ir nessa?

- Tá achando que eu não tenho coragem? Essa tia eu até traço.

Nem relutou. Esfregou a mão na cabeça, ajeitou a camisa, e, bem pertinho da nuca dela, avançou:

- Já treinou bastante, delícia? Vamos fazer um exercício lá em casa, agora?

Ela se arrepiou toda. Olhou lentamente para trás e disse:

- Filho?

- Mãe?

Depois de dez minutos já estava tudo resolvido. Mãe é mãe, sabe? Elas foram feitas para entender as idiotices dos seus filhos.

No caminho de volta, os dois quase não conversaram. Não por mágoa ou coisa assim, mas eles tinham a cabeça cheia de coisas pra ficar pensando. Rodrigo levava um suave sorriso no rosto. A idéia das coroas tinha sido melhor que sua expectativa inicial.

Já Marcelo pedalava com um ar pensativo. Ainda continuava excitado pensando na mãe.