segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Detecta

Ela tinha tanto de altura e tanto de cintura. Seus cabelos eram assim e seus olhos... ah seus olhos. Tinham a cor daquele pássaro que nunca pousara na minha janela pela manhã.
Mas nesta noite, pousou.
Quem é ela?

É. Depois de tanto procurar, de tanto derrapar, eu encontrei a mulher da minha vida. Aquela pra se casar, ter três filhos, uma casa no campo e viver feliz para sempre.
Por ela eu pararia com a sedução de minha mágica e não seria mais um conquistador qualquer. Por ela eu faria com que minha sedução fizesse a mágica de conquistá-la todos os dias. Para sempre.

Anjo.

Sabe quando você encontra a perfeição? Bom, neste caso eu percebi que a perfeição, quando comparada a ela, nem é tão perfeita assim.

Eu, que sempre tentei driblar a emoção, desta vez fui fisgado por algo mais forte, que me fizesse sofrer de uma forma boa, sorrir de uma forma verdadeira e amar como nunca tinha amado.

Nosso encontro foi marcado para o dia 5.
Minhas mãos suavam, meus lábios secavam e meu corpo, tremia por dentro. Palpitações, calafrios, dores de barriga, de estômago e tudo que a paixão nos dá de brinde quando chega de repente. E desta vez veio forte.

Cheguei ao local combinado, a vi, peguei em sua mão e disse:

- “triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim”
- “triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim”
- “triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim”

- “Alô.”
- “Bom dia, meu nome é Michele Bastos da Silva, sou da Telefônica e gostaria de estar sabendo se o senhor gostaria de estar recebendo o plano Detecta gratuito por 3 meses. Esta promoç...”

“Clack.”

Telefônica filha da puta. Maldição de empresa! Detecta a puta que o pariu. Michele Bastos da Silva o cacete. Porra!
Eu queria era um detecta pra detectar quando esses cornos inconvenientes ligam pra gente, pra mandar um choque e dizimar essa população de sem-noção dos infernos!

Pronto. Puta sonho bom e essa vadia me liga pra saber se eu quero o Detecta.
Raiva é pouco perto do que a gente sente nessas horas.

Sonho cortado, destruído. Fantasia petrificada, quebrada e jogada em alto mar.

Já aconteceu com você? Já aconteceu com seus sonhos?
Não é metáfora, não. Estou falando daquele sonho de dormir mesmo.
Já aconteceu de você estar sonhando e vem algum maldito dos infernos para destruir suas fantasias?

A gente até tenta pegar no sono de novo, mas, nada! Nunca conseguimos chegar ao estágio imaginativo de antes. Às vezes, na melhor das hipóteses, conseguimos sonhar com outra coisa... totalmente diferente – e sem graça - .

Na vida é assim também. Às vezes somos tomados por uma paixão avassaladora, mergulhamos de cabeça e sem equipamento no mar do amor - com a boca aberta e sem oxigênio - . Deixamos nos encantar por sentimentos e paixões difíceis se explicar pela razão do pensamento, mas, fácil de mostrar pela razão do coração.
Ficamos iludidos, encantados, acelerados e, quando menos esperamos, nossos sonhos desabam. Nossas fantasias são novamente petrificadas, quebradas e jogadas em alto mar.

Porque que a gente não nasce com um Detecta a prova d’água, hein? Apenas para detectar se o amor vai ou não vai dar certo. Apenas para detectar se a paixão vai embora rápido demais.
Assim seria mais fácil. A gente não mergulharia a toa em sentimentos quentes e úmidos para depois serem secados com um jato de ar frio.

Da segunda vez foi real. Nada de sonhos.

Ela tinha tanto de altura e tanto de cintura. Seus cabelos eram assim e seus olhos... ah seus olhos. Tinham a cor daquele pássaro que nunca pousara na minha janela pela manhã.
Mas nesta noite, pousou.

É. Depois de tanto procurar, de tanto derrapar, eu encontrei a mulher da minha vida. Aquela pra se casar, ter três filhos, uma casa no campo e viver feliz para sempre.
Por ela eu pararia com a sedução de minha mágica e não seria mais um conquistador qualquer. Por ela eu faria com que minha sedução fizesse a mágica de conquistá-la todos os dias. Para sempre.

Quem é ela?

- Oi. Muito prazer. Trabalho na telefônica, com telemarketing.
- Meu nome? Michele Bastos da Silva.

- Detecta acompanha?

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

O Aprendis

Cena 3

Palco vazio. Cinco holofotes distribuídos igualmente cegam o público, que chega ao teatro.
A medida que os espectadores entram o som é aumentado, até chegar num estágio ensurdecedor.

No som, ouve-se pessoas gritando de dor. Algumas risadas também compõe este "barulho".

Voz off: Senhoras e senhores, a Cia. Júlia de teatro que não dá sono apresenta: "O Aprendis"
O som é cessado no momento do black-out.

O aprendis se posiciona no centro do palco, nú e com os olhos vendados. Luzes vermelhas se acendem gradativamente sobre ele, que fala com a platéia. Sua fala não é compreendida, pois, ouve-se nas caixas de acústicas um ensurdecedor choro infantil.

O aprendis força sua mão contra seu estômago como se quizesse esmagá-lo. Neste exato momento o som cessa.
Ele volta a falar com a platéia, angustiado. O choro ensurdecerdor volta, deixando-o cada vez mais tenso.
O jogo "fala/choro" / "grito/silêncio" se repete por 7 vezes.

Após a sétima vez, alguém surge da platéia, vai até o aprendis e, em seu ouvido, diz:

- "É com z."

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

O homem-burro

O homem-burro já tinha lá seus vinte e poucos anos, era formado há 5, trabalhava, era responsável, honesto, sempre elogiado, mas, entre nós, era tão burro que doía!

Deixe-me contar a última do homem-burro, que aconteceu longe, bem longe de casa.
Estava ele se preparando para voltar de uma viagem de negócios. Tinha acabado de chegar no aeroporto daquela cidade-longe quando, repentinamente, te deu um estalo:

- "Meu celular. Putaquepariu... esqueci no carro!"

Como é que uma coisinha eletrônica ridícula daquelas faz a gente passar tanto nervoso, hein? Pois é, o homem-burro acabara de perceber que seu telefone celular tinha ficado no banco da frente do carro da moça que trabalhava com o cara que era o contato da empresa que pertencia ao grupo que contratou o homem-burro.

Como o homem-burro era também um homem-ligeiro, olhou no relógio e viu que tinha quase uma hora até o embarque.

- "Dá tempo!", pensou que estava pensando o homem-burro.

Em um segundo, abriu seu laptop para localizar o telefone do contratante da cidade-longe para tentar localizar o telefone do carro-carona.

Abriu 1,2,3, 10 e-mails. Selecionou, pesquisou, clicou e nada. Fechou, agrupou, abriu, clicou de novo e nada!
Pegou, pesquisou e Ôpa! Achou!
Com o telefone do contratante em mãos, ligou. Chamou 1, chamou 2, chamou 3.

- "Sua ligação será encaminhada para a caixa de mensagens. Após o sinal grave sua mensagem."
- "Porra! Que merda."
- “Piiiiiiiiiiiiiiiiii” - Sinalizou
- “Cleq” – Fechou

Já sei! Exclamou o homem-burro.
Com alguns cliques, conseguiu o telefone do contato de São Paulo que certamente teria o contato do cara da cidade-longe que certamente teria o contato do amigo do cara do carro-carona que certamente teria o telefone do carro-carona.
A trama mirabolante seria perfeita não fosse o fato do ponteiro pequeno marcar 7 e o grande 12.. Nem o de São Paulo, nem o da cidade-longe, nem o amigo do cara do carro-carona estavam acordados. Apenas o carro-carona, mas este, ninguém sabia o paradeiro.

- "Senhores passageiros com destino a São Paulo e conexões , embarque imediato no portão 1"

Às vezes o homem-burro tem um lapso de esperteza, mas quase sempre tardio - que não adianta nada e ainda reforça sua burrice - .
Neste dia, o homem-burro teve seu lapso atrasado, também.

- "0 31 11 XXXX-XXXX"

Simples. Tudo o que o homem burro deveria ter feito no momento em que percebeu que tinha deixado o celular no carro, era ter ligado para o próprio telefone.
Simples, fácil e certamente teria poupado todo o transtorno e as futuras amolações para os correios...

Eita homem-burro!
FIM

ps. Se alguém quiser me contactar nos próximos 3 dias, faça através do e-mail contato@omagico.com, pois, meu celular ficou em salvador. No banco da frente do carro-carona.