terça-feira, 27 de março de 2007

Os monstros de Eliana

- Com a luz apagada, não!
- Tá bom assim? Luz do banheiro acesa, portas fechadas, janelas fechadas. Não há o que temer.
- Claro que há. Eles não entram pela porta, eles já estão aqui debaixo.
- Eles quem, Eliana?
- Os monstros, ué.

- E meu nome é Elaine, cacete.

Quem ouvisse esta conversa, certamente pensaria que Eliana tinha uns nove ou dez anos completos. Errado. Eliana, ou cascatinha para os íntimos, já tinha seus vinte e quatro anos muito bem vividos. Vividos, porém, com alguns medos. Bobos, mas, minuciosamente estudados e entendidos por ela.

- Acende mais... assim... pronto.

Eliana tinha medo, medo não, pavor, de dormir no escuro. E ela tinha suas teorias:

- Os monstros entram pelas portas e janelas e, uma vez lá dentro, não saem mais. Eles se instalam debaixo da minha cama e ficam lá para sempre. Não deixo as portas abertas para não acumular mais monstros; acendo a luz para assustar os que moram embaixo da cama. Simples.

- Sabe como é, né? Eles têm um baita medo de claridade.

Assim, continuou a vida de Eliana até seus trinta e cinco anos, quando decidiu se casar. O noivo não era lá tão feio, como ela gostava, mas tinha os padrões de marido-normal: Inteligente, charmoso, bem-humorado e, principalmente, rico.

Casada, ela exigiu:

- Quero uma casa nova. Erguida do chão. Do começo. Quero tomar cuidado para que seja construída sob a luz do sol, para que nenhum monstro se instale embaixo de minha cama.

A teoria era simples: Se ela acompanhasse a construção, vigiaria sua cama e nenhum monstro migraria para lá. Assim, Eliana mantendo as portas e janelas fechadas, poderia dormir no escuro - sem monstros, sem preocupações.

E a casa foi feita: Paredes, lajes, o banheiro, a cozinha, o quintal e os tão sonhados quartos. Tudo sob a luz do dia, tudo sob os olhos grandes de Eliana.

Depois de 5 meses da casa ser construída, Eliana parecia outra pessoa. Dormia e acordava com as luzes apagadas. Nunca um monstro ousou perturbá-la, visto que as portas e janelas sempre se mantinham como a dona quis. Fechadas.

Mas foi numa segunda-feira de manhã que tudo veio por água abaixo. Eliana, correndo atrás do leiteiro, descuidou e deixou a porta semi-aberta por alguns instantes. E isto bastou.

Eliana nunca mais dormiu direito.

Quando ela voltou, eles já estavam lá embaixo da cama.


De mala, cuia e trouxinhas na mão.

domingo, 25 de março de 2007

Morrendo aos poucos

Parte I - A descoberta

- Como você faz isto?
- Não sei. Juro.

E ele realmente não sabia.
Este poder, dom, ou qualquer coisa que se queira chamar, acompanhava-o desde sua infância, porém, apenas aos 18, 19 anos, Téolo começou a notar.

O que acontecia era simples de se explicar, não tão fácil de compreender.
Téolo tinha visões, premonições. Alguma ligação com um ser supremo e, durante um acontecimento estranho, uma pontada no dedão de seu pé esquerdo, uma imagem aparecia para o rapaz. Pronto. Era só aguardar alguns minutos e aquilo se concretizava.

Andando pela cidade, num sábado, enquanto pagava a passagem do ônibus, seu dedo doeu. No mesmo instante, a imagem de um ônibus virando e três pessoas feridas e uma morta, apareceu em sua mente. Téolo respirou e se jogou no chão.
Dito e feito. Uma moto desgovernada apareceu na frente do ônibus, o motorista tentou desviar, subiu na calçada e, tentando contornar a situação, tombou o veículo.

3 pessoas feridas. 1 senhor morreu.

O que mais deixava Téolo desesperado, era o fato de não poder fazer nada. Era uma visão que apenas servia para avisá-lo. Ele, e mais ninguém. Como se fosse um presente para ele. Apenas para ele.
Um poder mesquinho, uma força solitária. Uma tristeza constante, premeditada.


Parte II - A culpa

Estava numa festa. Essas com DJs, bebidas, música alta, mulheres, loucuras. Téolo dançava, podia sentir a música, as batidas dentro dele. Seu sono se confundia com o êxtase proporcionado pela frenética noite que havia começado a apenas algumas horas. Um instante de silêncio, seu dedo dói. Téolo fecha os olhos: A imagem de uma moça ao chão, vomitando sangue.

O rapaz não sabia o que fazer. A imagem embaçada não o permitiu notar quem poderia ser naquele rosto distante, mas, ele tinha a certeza de uma moça no chão. Com muito sangue.

Foi para o banheiro, lavou seu rosto, vomitou e, quando volta, viu a cena mais aterrorizante que já havia presenciado em sua vida.

Há alguns minutos, ela, fazendo charme para seu provável futuro namorado, sorri para ele, pega um copo qualquer sobre o balcão e dá um gole em alguma coisa que estaria lá dentro. Apenas para fazer charme. O garçom, enquanto recolhia os outros pedaços de vidro do chão, diz:

- não!

Ela havia engolido vodka com groselha e vidro.


No chão, a moça loira. Seus olhos estavam abertos e, sem parar, vomitava sangue com groselha.

Parte III - O erro fatal

Téolo, mesmo sabendo que nada tinha a fazer, culpava-se por cada acontecimento, cada tragédia que passava por sua vida. O rapaz não sentia que este dom fosse um presente dos céus, e sim, uma maldição dos infernos. Sua vida estava sendo vigiada, protegida, porém, as conseqüências eram sempre com os outros.

No dia em que Téolo conheceu Sabrina, sua vida mudou. Sabia que agora teria alguém para cuidar. Sabia que sua vida começava a ter algum sentido.

No dia em que se viram pela primeira vez, no supermercado da esquina, Téolo pôde provar da paixão à primeira vista. Ela, da mesma forma, sentiu algo que não pudesse explicar. Era como se aquele garoto tivesse um feitiço, uma magia.

Terminaram suas compras, começaram a conversar e, andando pela rua, Téolo sentiu a pontada no pé. Fechando seus olhos, o menino teve a visão de Sabrina triste e morrendo aos poucos. O desespero veio à mente de Téolo. Inconformado com a cena e decidido, largou os pacotes no chão, segurou o braço da menina e saiu correndo, arrastando-a. Ela, sem entender, tentou - em vão - parar. Ele, cada vez mais aflito e ofegante, corria em direção à sua casa.

Chegaram bem. Olhou para a menina, rapidamente tocou seus braços, seu rosto, suas pernas. Nada de errado. Se abraçaram, deram seu primeiro beijo e, naquele mesmo dia, tiveram sua primeira noite de amor.

Téolo começava a sentir orgulho de seu poder e sabia, agora, que poderia realmente ajudar as pessoas com aquele dom dos céus. O que ele não sabia, é que era HIV positivo e, daquele dia em diante, Sabrina também seria.

A profecia, de uma forma justa e trivial, acontecera. Daquele dia em diante, Téolo veria Sabrina, triste, morrendo aos poucos.

sábado, 10 de março de 2007

City of angels

- If you'd known this was going to happen, would you have done it?

- I would rather have had one breath of her hair, one kiss of her mouth, one touch of her hand than eternity without it.

One.

Iris

And I'd give up forever to touch you
Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
Cause sooner or later it's over
I just don't want to miss you tonight

And I don't want the world to see me
Cause I don't think that they'd understand
When everything's made to be broken
I just want you to know who I am

And you can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in your lies
When everything seems like the movies
Yeah you bleed just to know your alive

I just want you to know who I am

Quanto vale o show?

Picasso estava almoçando num pequeno restaurante, numa cidade vizinha à sua. Quando o artista chamou o garçon para pagar a conta, o rapaz não se conteve:

- O Sr. não é o Picasso?
- Sou sim. Muito prazer.
- Nossa, que honra. Será que o senhor pode fazer um desenho aqui neste guardanapo?
- Então.. eu queria pagar a conta.
- Vamos fazer assim, então. O senhor faz um desenhinho pra mim e não precisa pagar nada.
- Mas eu não estou entendendo. Eu quero apenas pagar a conta e não comprar o seu restaurante. ..

E você? Vale quanto?

O Bolo

Ele nunca tivera sorte no amor.

- Namora comigo?
- Claro.
- Sabe, nunca me senti assim, tão bem.
- Eu te amo, amor. Nunca vou te deixar.

Duas semanas depois, estava ele, lá, todo choramingando. Havia sido largado, ou, como diziam, havia recebido um pé nas nádegas.
Foi assim com a primeira, segunda, terceira namorada. As outras tinham sido só rolo, ou como eles diziam, pegação. Nada sério. Ele, contrariamente do que a vida pedia, não se sentia mal, sentia-se bem, às vezes, por não ter ninguém ao seu pé. Ninguém grudado a ele. Mas na verdade, as mulheres, as desculpas e suas culpas, estavam lá pela certeza de que nunca conseguiria nada firme com alguém.

- Dona Ana, tem figo?
- Tem não, Tião.

Ah, deixe-me apresentar-me. Meu nome é Sebastião Salgado, mas como eles dizem, Tião. Sou solteiro por opção, macho por convicção e inteligente por força de Deus. A vida dá para alguns, a sorte no amor, para outros, a sorte no trabalho, na profissão. Alguns pensam que têm os dois, mas enganam-se. Esses não têm sorte nem em um, nem em outro, pois, quando menos esperam, um dos dois pede mais atenção do que o outro, e aí, baubau. Ou se tem um, ou se tem outro. Sempre assim.

- Sabe, Ana, queria fazer uma torta, hoje. Nunca cozinhei na vida, mas uma torta não deve ser difícil de fazer e quem sabe não aprendo?
- É não, Tião. Fácim. Ia fazê de figo? Faz de banana. É mais fácil.

Desculpe-me a indelicadeza. Esta é Dona Ana. Viu Tião crescer, praticamente. Tinha uma quitanda na esquina da segunda rua que lhe rendia um mil e setecentos reais por mês. Menos quinhentos do aluguel, trezentos do Gerson, o balconista, sobrava-lhe novecentos para passar seus dias. Dona Ana já tinha uma certa idade e sua disposição não era como a de antes. Ana, agora, só conseguia abrir a vendinha depois das seis e meia. Mas mesmo assim, os clientes esperavam Gerson tocar a campainha e o pãozinho chegar.

- Vai ovo, farinha, manteiga, banana. Que mais?
- Você viu a nova inquilina do seu João?
- Fiquei sabendo, só. Ainda não vi.
- Hehe. Se fosse você, não perdia tempo.
- É solteira?
- Solteiríssima e morena. Olho azul e tudo mais.
- Conta mais dela.
- Ahã... claro que o bolo fica bom.
- O que a senhora tá dizendo?
- Claro que sim. Banana é uma delícia.
- Dona Ana, não muda de assunto, eu tô perguntando da nova inqu..
- Bom dia, Senhora, meu nome é Clara, me mudei ontem. Sabe onde eu posso encontrar farinha?
- Claro, quer dizer, prazer. Eu sou o Gerson. Moro aqui ao lado
- Oi Gerson. Muito prazer.
- Minha filha, você quer que tipo de f...
- Pode deixar Dona Ana. Eu mostro pra ela. Acredita que eu estava a procura de farinha pra fazer um bolo, também?
- E você sabe cozinhar?
- Se eu sei? Hmm. Claro que sim. É o que faço de melhor na vida. Anos de prática.
- Obrigado, Senhor!, para o céu, tudo o que eu precisava era alguém pra me ajudar a fazer um bolo. Acabei de chegar na cidade e queria preparar uma surpresa pra mamãe.
- Se não se importar, podemos fazer na sua casa. Eu te ensino.
- Jura?
- Claro.
- Tchau Dona Ana.
- Tchau Gerson.
- Tchau Dona Ana.
- Vai com Deus, Clara.

E foram os dois, lá, na casa da menina. Ana já o olhava diferente. Não estava realmente pensando na torta, ou no bolo que iria fazer. Já ele, tinha todas as más intenções possíveis e imagináveis. Estava certo, obviamente, que poderia, na melhor das hipóteses, ser mais um romance que não daria em nada em sua vida.

Chegaram logo na cozinha. Sem muitas palavras. Mal se olhavam. No liquidificador, colocaram os três ovos, um pouco de farinha, leite, fermento e meia xícara de água para dissolver melhor. Ele era um exímio enganador-chef. Bateu por três minutos. Colocaram a massa na tigela e deixaram no formo por aproximadamente trinta minutos. Retiraram do fogo e picaram as bananas, que tinham sido esquecidas, sobre o bolo.

Foi, certamente, a pior torta que já foi feita no mundo. O fundo ficou queimado, o meio estava cru e a parte de cima, uma pedra. As bananas picadas até que ficaram boas. Ainda lembravam bananas.

Foi, certamente, o amor mais intenso que aconteceu no mundo. Namoraram por quatro anos, estão casados há cinco e hoje, têm três filhos: o Gerson, o João e a Ana.

Tião não conseguia dormir sem pensar na velha máxima: “sorte no amor, azar no trabalho”. Isto lhe incomodava desde o dia em que casara com Clara.
Um dia, voltando do trabalho:

- Clara, precisamos conversar.
- Desembucha, homem!
- Tenho uma amante.
- Desde quando?
- Ainda namorávamos. Te traio há sete anos.
- Canalha.

Clara chorou, desesperadamente, por ininterruptos setenta minutos. Tião sentia-se bem, pois, sabia que a mentira era para uma nobre causa: “Azar no amor, sorte no trabalho”. E, ainda assim, este azar era de mentira. Só para desequilibrar a balança da vida.

Ficaram, assim, por mais alguns meses, até Clara reencontrar Gerson, o moço da quitanda, e resolver dar o troco. Foi lá e fez vários bolos com o rapaz.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Pé de rúcula.

Por que devemos ter qualidade de vida? Do que se trata esta tal de qualidade?
Dizem que ter qualidade de vida é acordar pra fazer cooper às 7h35min, comer fibras e cereais, não abusar do açúcar e dormir 8 horas por dia, no mínimo.
Pra quê tudo isso? Para aumentar em algumas décadas nossa vida? Para não termos problemas de gordura, pressão alta e desacelerarmos algumas doenças?

Infelizmente, nossa visão de qualidade de vida está completamente distorcida. Colocaram uma lente azul-avermelhada em nossos olhos e não podemos mais enxergar a verdade.

Caros, estou aqui para isso. Para mostrar-lhes a verdade.
Eu serei o limpa-lentes da sua vida, trocarei seus óculos e te farei enxergar além.

Pra começar, quem disse que temos que viver 70, 80, 90 anos?
Nossa vida deveria ter 30 anos, no máximo. Repito: 30 anos.
Imagine a beleza que seria: Nasceríamos, cursaríamos o colegial, entraríamos na faculdade, degustaríamos alguns anos de vida profissional e pumba. Morreu.

Voltemos à qualidade de vida. Neste caso, o correto seria ter a seguinte qualidade de vida: Comer cachorro-quente, trufas, leite condensado e um frango frito pela manhã. Para os vegetarianos, nhoque, lasanha e couve-flor empanada.
Aceita algo para beber? Que tal uma coca-cola, milk-shake de chocolate e uma caipirinha de limão no almoço ou jantar? Isso é qualidade de vida!

Explique-me a graça que tem um alface com tomates frescos. Explique-me a alegria que se tem comendo uma rúcula, um agrião, ama acelga! Ah acelga. Não é possível que se veja qualidade de vida numa acelga, absolutamente. Nesses 30 anos de vida, deveríamos curtir tudo e todos da forma mais frenética e impulsionada possível, deveríamos comer besteiras, muitas besteiras – que mudando nossas concepções, não seriam mais besteiras - , engordarmos bastante, fritarmos nosso fígado e dissecarmos nossos rins para, aí sim, sermos realmente felizes.

E pra completar o ciclo, nada de escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Devemos, sim, ter vários filhos em cima de uma árvore e ler várias vezes o mesmo livro. O livro, diet, de preferência, e a tal de árvore, um pé de rúcula.

Ou então, esqueça esta besteira.
Coma muita acelga, rúcula e agrião, corra bastante no parque e fume muitos, mas muitos, cigarros light.