Ele nunca tivera sorte no amor.
- Namora comigo?
- Claro.
- Sabe, nunca me senti assim, tão bem.
- Eu te amo, amor. Nunca vou te deixar.
Duas semanas depois, estava ele, lá, todo choramingando. Havia sido largado, ou, como diziam, havia recebido um pé nas nádegas.
Foi assim com a primeira, segunda, terceira namorada. As outras tinham sido só rolo, ou como eles diziam, pegação. Nada sério. Ele, contrariamente do que a vida pedia, não se sentia mal, sentia-se bem, às vezes, por não ter ninguém ao seu pé. Ninguém grudado a ele. Mas na verdade, as mulheres, as desculpas e suas culpas, estavam lá pela certeza de que nunca conseguiria nada firme com alguém.
- Dona Ana, tem figo?
- Tem não, Tião.
Ah, deixe-me apresentar-me. Meu nome é Sebastião Salgado, mas como eles dizem, Tião. Sou solteiro por opção, macho por convicção e inteligente por força de Deus. A vida dá para alguns, a sorte no amor, para outros, a sorte no trabalho, na profissão. Alguns pensam que têm os dois, mas enganam-se. Esses não têm sorte nem em um, nem em outro, pois, quando menos esperam, um dos dois pede mais atenção do que o outro, e aí, baubau. Ou se tem um, ou se tem outro. Sempre assim.
- Sabe, Ana, queria fazer uma torta, hoje. Nunca cozinhei na vida, mas uma torta não deve ser difícil de fazer e quem sabe não aprendo?
- É não, Tião. Fácim. Ia fazê de figo? Faz de banana. É mais fácil.
Desculpe-me a indelicadeza. Esta é Dona Ana. Viu Tião crescer, praticamente. Tinha uma quitanda na esquina da segunda rua que lhe rendia um mil e setecentos reais por mês. Menos quinhentos do aluguel, trezentos do Gerson, o balconista, sobrava-lhe novecentos para passar seus dias. Dona Ana já tinha uma certa idade e sua disposição não era como a de antes. Ana, agora, só conseguia abrir a vendinha depois das seis e meia. Mas mesmo assim, os clientes esperavam Gerson tocar a campainha e o pãozinho chegar.
- Vai ovo, farinha, manteiga, banana. Que mais?
- Você viu a nova inquilina do seu João?
- Fiquei sabendo, só. Ainda não vi.
- Hehe. Se fosse você, não perdia tempo.
- É solteira?
- Solteiríssima e morena. Olho azul e tudo mais.
- Conta mais dela.
- Ahã... claro que o bolo fica bom.
- O que a senhora tá dizendo?
- Claro que sim. Banana é uma delícia.
- Dona Ana, não muda de assunto, eu tô perguntando da nova inqu..
- Bom dia, Senhora, meu nome é Clara, me mudei ontem. Sabe onde eu posso encontrar farinha?
- Claro, quer dizer, prazer. Eu sou o Gerson. Moro aqui ao lado
- Oi Gerson. Muito prazer.
- Minha filha, você quer que tipo de f...
- Pode deixar Dona Ana. Eu mostro pra ela. Acredita que eu estava a procura de farinha pra fazer um bolo, também?
- E você sabe cozinhar?
- Se eu sei? Hmm. Claro que sim. É o que faço de melhor na vida. Anos de prática.
- Obrigado, Senhor!, para o céu, tudo o que eu precisava era alguém pra me ajudar a fazer um bolo. Acabei de chegar na cidade e queria preparar uma surpresa pra mamãe.
- Se não se importar, podemos fazer na sua casa. Eu te ensino.
- Jura?
- Claro.
- Tchau Dona Ana.
- Tchau Gerson.
- Tchau Dona Ana.
- Vai com Deus, Clara.
E foram os dois, lá, na casa da menina. Ana já o olhava diferente. Não estava realmente pensando na torta, ou no bolo que iria fazer. Já ele, tinha todas as más intenções possíveis e imagináveis. Estava certo, obviamente, que poderia, na melhor das hipóteses, ser mais um romance que não daria em nada em sua vida.
Chegaram logo na cozinha. Sem muitas palavras. Mal se olhavam. No liquidificador, colocaram os três ovos, um pouco de farinha, leite, fermento e meia xícara de água para dissolver melhor. Ele era um exímio enganador-chef. Bateu por três minutos. Colocaram a massa na tigela e deixaram no formo por aproximadamente trinta minutos. Retiraram do fogo e picaram as bananas, que tinham sido esquecidas, sobre o bolo.
Foi, certamente, a pior torta que já foi feita no mundo. O fundo ficou queimado, o meio estava cru e a parte de cima, uma pedra. As bananas picadas até que ficaram boas. Ainda lembravam bananas.
Foi, certamente, o amor mais intenso que aconteceu no mundo. Namoraram por quatro anos, estão casados há cinco e hoje, têm três filhos: o Gerson, o João e a Ana.
Tião não conseguia dormir sem pensar na velha máxima: “sorte no amor, azar no trabalho”. Isto lhe incomodava desde o dia em que casara com Clara.
Um dia, voltando do trabalho:
- Clara, precisamos conversar.
- Desembucha, homem!
- Tenho uma amante.
- Desde quando?
- Ainda namorávamos. Te traio há sete anos.
- Canalha.
Clara chorou, desesperadamente, por ininterruptos setenta minutos. Tião sentia-se bem, pois, sabia que a mentira era para uma nobre causa: “Azar no amor, sorte no trabalho”. E, ainda assim, este azar era de mentira. Só para desequilibrar a balança da vida.
Ficaram, assim, por mais alguns meses, até Clara reencontrar Gerson, o moço da quitanda, e resolver dar o troco. Foi lá e fez vários bolos com o rapaz.