sábado, 27 de dezembro de 2008

Suzana 0:44

A menina era perdida e promíscua. E não sou eu quem diz. Ela própria se denominava assim: Suzi Pró, a promíscua da boca quente e peito caliente. Usava botas pretas brilhantes, calça justíssima (para não falar enfiada na bunda), camada tripla de batom rosa, gloss, perfume embaixo do pé, tatuagem de um pênis ereto nas costas, calcinha asa-delta, marquinha aparecendo e um decote que ia até o umbigo.
Tinha vários namorados. Alguns eram primos, e freqüentar casa de swing era como ir à feira. Lá, todo mundo a conhecia:

- Boa noite, Suzana.
- Olá, Suzi.
- Corte de cabelo novo, Su?
- Suzana.. quanto tempo! Já faz mais de três dias que não nos vemos, não é?

Esta era a vida da nossa Suzana. Namoro de dia, balada à noite, swing na madrugada, duas vodkas pra cá, três caipirinhas pra lá, whisky, champanhe, muitos amigos, dois amantes, namorados e tudo o que uma vida bandida poderia lhe proporcionar.

Mas, como já dizia o sábio, tudo passa. E um dia algo passou pelos olhos da nossa garota Rebelde. Indo tomar um café, às 6h46 da manhã, quando voltava de suas noitadas, Gerson, com um avental branco de tão humilde, chegou à moça:

- Bom dia, Senhora.

Aquilo bastou. Ela sorriu e não conseguiu proferir uma palavra. Era um sentimento tão intenso, verdadeiro e único que ela nem pensou em ter vergonha daqueles trajes malvistos.

Ela estava apaixonada por Gerson que, por um mero capricho da natureza, era um pouco diferente da moça. Gerson era católico praticante, filho de dona Zita, carola e freqüentante assídua da paróquia de Santo Agostinho. Gerson tinha o primeiro grau completo e sonhava em fazer faculdade de medicina. Sonho que já estava guardado na gaveta há mais de dez anos. Trabalhava como atendente naquela padaria há quatro anos. No horário que Suzana saía da noite, ele costumava entrar no serviço. Para o Gerson, 4h30 era hora de pular da cama. Para Suzana, era hora de pular para cama ou, com alguém na cama. Gerson não reclamava da vida. Descansava bem todos os dias. Para acordar neste horário, tinha que ir dormir às 22h, horário que Suzana tomava banho para sair.

Sete meses depois deste primeiro encontro, eles já comemoravam seis meses de namoro apaixonado. Suzana só tinha olhos para Gerson e ele só vivia pela Suzana. Foi bem no começo do namoro quando ela aceitou toda aquela caretice e ingenuidade do menino. E ele, por sua vez, aceitou toda aquela badalação e vida perversa da menina. Todos os preconceitos foram deixados de lado, as armaduras de cada um, os julgamentos que os limitavam de viver uma vida plena, foram jogados ao chão e uma vida voltada para a sociedade foi transformada numa vida voltada apenas aos seus corações.

- Nós vamos nos casar. Já preparei tudo. O local, a igreja, as madrinhas, os padrinhos, o coroinha, meu vestido, a viagem, tudo! Vai ser o dia mais feliz da minha vida.

Suzana contava todos os detalhes do casamento e lua de mel para Edson, enquanto apenas de calcinha, sutiã e com um cigarro na mão subia as escadas do motel. Edson até sentiu um pouco de ciúme na hora, mas logo ficou com vontade de conhecer Gerson, o mais novo integrante da turma. Gerson, por sua vez, dormia e sonhava com os pãezinhos doces que teria de fazer na manhã do dia seguinte. Nem imaginava que estava entrando para a turma...
.

Nenhum comentário: