Se ela soubesse o que estaria prestes a acontecer, não teria se arrependido.
Abriu a porta e esperou que ele tomasse qualquer atitude. Desejava que a beijasse e se dissesse arrependido do que fizera. Tola! O coração dela agora era dela e batia como antes. A vida, como em um sopro, voltou a pertencer só a ela. E era só dela.
Arrependeu-se da mensagem que havia enviado a ele, minutos antes de se dirigir ao banho: ”Te amo”. Não o amava, só queria que ele a olhasse nos olhos e devolvesse tudo aquilo que pertencia a ela.
Com um tiro, recebeu tudo aquilo que a pertencia. Fechou a porta diante do corpo dele estendido no chão, entrou no banheiro e tomou um longo banho de banheira, com a vida dela a seus pés, só dela.
A água escorria por seu corpo e, por mais que caísse quente e molhada, não lavava sua consciência, sua memória, sua alma. Não por tê-lo matado, absolutamente, mas por não tê-lo permitido que a amasse como deveria, como ela desejava e como ele queria. Agora, ele não podia mais falar o que estava preso em sua garganta. Mas mesmo se não estivesse morto, assim, estirado no chão, sua timidez não o deixaria proferir aquelas palavras que a fariam pensar; razão esta pela qual escreveu um bilhete, extenso, com seus pensamentos mais profundos, que, quando lidos, arrancariam as raízes de sua alma.
Enxugou apenas seu corpo, permitindo que seu cabelo demarcasse o caminho de seus últimos passos. Nua, lavada, porém ainda suja, andou pela sala, cozinha, bebeu um copo d'água com gás gelado e, arrependida, decidiu dar-lhe seu último beijo. Se ela soubesse, não teria se arrependido.
Debruçou-se sobre ele e o beijou como nunca tinha o beijado. Suspirou. Todo seu amor aflorava e a fazia suar. Toda a paixão sentida um dia, voltava como um rojão. O sentimento de culpa e arrependimento faziam uma forte dor de cabeça aparecer. Magali o sentia e deixava algumas lágrimas escorrer por seu rosto molhado, enquanto o veneno, tomado por Paulo minutos antes de entrar em sua casa, era degustado pela boca da moça. O mundo entenderia os porquês quando lessem o bilhete escrito à mão, perto de seu coração, mas, o que acharam foi simplesmente cinzas de papel, destruído à queima-roupa, misturado com suor, lagrimas e um pouco de sangue dos dois. Juntos.
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