domingo, 1 de abril de 2007

Para a namorada

E a menina, toda afobada, rasgou o envelope e leu:

"Por que demorei a perceber? Meu mundo é nada sem você.
Nunca amei tanto como te amo. Agora não é mais um mero engano.
Para sempre seja minha. Prometo ser seu Rei; prometa ser minha Rainha.

Quer casar comigo?"

Ela sorria, ao mesmo tempo que enxugava suas doces lágrimas.
Dobrou a carta e viu que, no dorso do papel, havia um pequeno bilhete :

"Agora que você já leu, que estás com o corpo a mil,
te digo que se fodeu. É primeiro de Abril."

Seu namorado.




“Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cômodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória.

Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira, raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte».

Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer diretamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil.

Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência.”

Friedrich Nietzsche, in
'Humano, Demasiado Humano'

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