quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A magia de ser quem desejavam ser

A vista da janela de seu escritório dava para o mar, um mar de idéias e lembranças que o faziam pensar. Sentado em sua cadeira, iluminado apenas pela luz dos prédios e ouvindo os carros a passar, com seu copo de suco de melancia na mão e um par de cartas de copas na outra: 3K.

Retirou os pés de cima da mesa, abandonou o suco no parapeito da janela e jogou as cartas para trás. Era tarde da noite e não havia nada entre ele e o som dos seus dedos a dedilhar o teclado de seu computador. Textos da madrugada, os melhores... e após uma conversa com sua futura ex-namorada, ou só futura, ou só ex...ou nada, ele tinha o que pensar.

Escreveu duas palavras e apagou. Tentou de novo e de novo, mas nada queria vingar. Pensou que era besteira deixar palavras que nem o coração entendia em um mero relapso na tela, para que um dia alguém decifrasse as confusões de um órgão tão complicado. Ele bombeia, nos deixa vivos, tão vivos, dono de nossa existência, de nossa morte ou de nossa vida. Por isso ele sabia que precisava do remédio certo. Parou de escrever, pegou o suco e voltou a pensar.

Tentava associar sua vida inteira em um único momento que o tinha mudado por dentro. Pensava em quando era criança, quando começou a faculdade e quando decidiu mudar o rumo de sua vida. Ela sempre estava lá, rondando seus pensamentos. Enquanto lembrava do seu acidente que havia deixado uma cicatriz no olho esquerdo, pensava em seu sorriso, depois desvirtuava sua mente para pensar no trabalho, eis que ela vinha com mais força.

-Droga!

Olhou de nova para a tela do computador em branco, decidiu escrever palavras, sem sentido... exatamente como havia sido sua vida até então, sem ela. Nada saía, escrevia e apagava, seus pensamentos eram atrapalhados por cada pedaço dela.
Parou, olhou para o céu e se permitiu pensar nela... “O que será que ela estaria fazendo?”

Desceu as escadas de sua casa, abriu a geladeira, pegou uma maçã e deitou no sofá. Sua pele, iluminada pelos poucos raios de luz que escapavam da cortina, revelavam um rosto pensativo. Seus olhos estavam fixos no nada, vagavam livres pelas lembranças.

Terminou a maçã, deixou largada pelo chão e subiu, degrau por degrau, imaginando sua vida sem ele. Sentou no computador e dedilhou algumas palavras sem sentido até mesmo para ela. Apagou, espreguiçou-se e colocou as mãos entre o rosto. Olhou novamente a tela do computador e depois ficou horas olhando para o teclado. Não conseguia, a conversa com seu ex, futuro ou nada a havia perturbado demais. Uma lágrima escorreu de seu rosto, limpou rapidamente e colocou uma música que a fazia pensar nele. Deitou na cama, e fitou o teto por horas. Até adormecer...

Do outro lado da cidade, deitado em sua cadeira, deixou o suco derramar no chão, fechou os olhos para um breve descanso antes de voltar para casa.Adormeceu...

Nos seus sonhos se encontravam, do jeito que tinha que ser. Sem erros, sem pretextos, paradoxos ou enredos. Eram apenas eles, embalados pela música que desejavam, no lugar que desejavam, na maneira e tempo necessário.
Eram os textos da madrugada que os mantinham tão pertos e conectados pela magia de ser quem desejavam ser.

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