domingo, 7 de janeiro de 2007

O gordo

Bateu na porta e soluçou:

- Estava jogado no chão. É seu?

Quase pelado, o gordo atendeu:

- Não, mas gostei do embrulho. Vende?
- É caro.
- Não te perguntei o preço, moleque.
- Compra?
- Compro. Quanto?
- Quarenta.
- Pago setenta.
- Faço por noventa.
- Dou cem.

Leiloaram.

- Feito.

O menino se virou e sumiu pela chuva. O homem fumou mais meio cigarro, mijou e voltou para a cama. Nunca lavava as mãos.

- O que é?
- Não sei. Ganhei agora. É presente.
- Posso abrir?
- Abre.

Deitada, abriu:

- É novo. Tá limpo.
- Deixa eu ver. Limpo tá o seu cérebro. Não vê o que tem?

- Vejo um bloco de papel em branco. Todas as folhas assim, branquinhas. Sem nada.
- Sem nada está a tua alma. Nem imunda está, como de costume. Olha denovo.

- Já te disse, homem. Folhas em branco e um rodapé. Nem capa tem.
- Não vê que é um livro de poesias, crônicas, verdades imaginárias e imaginações reais?

- Voltou a cheirar pó, desgraça?
- Pega uma folha.

- Hã?
- Coloca contra o sol. Vê o quê?

- A sombra das crianças brincando.
- Faz um furo no meio e olha pra lá. Enxerga alguma coisa?

- O vizinho batendo na esposa, e ela ri.
- Passa o papel no pulso, rápido.

- Ai, me cortou!
- Se com uma única folha de papel você viu a sombra de teus filhos, o vizinho espancando a esposa e teu sangue escorrendo pelo pulso, como pode sua ignorância dizer que em centenas dessas não há nada?

E ela sangrou até a morte.
E ele sorria, apertava e beijava as folhas em branco, contidas de infinitas probabilidades e apenas um rodapé.


Cuspiu-lhe na cara, abriu a porta e jogou a chave fora.

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