segunda-feira, 24 de julho de 2006

Musa-de-hoje

Nove e quarenta e cinco. pm.
A razão pelo que começo escrever este começo de conto não tem lá suas muitas razões.
Prometo que não vou deixar de escrever toda a verdade e nem vou usar muitas metáforas. Prometo. Pelo menos até onde a verdade quiser ir... o resto eu invento, prometo.

Certamente eu veria neste texto uma espécie de conto melancólico surreal se não viesse de um jantar, no mínimo especial, que acabou de acabar.

Meu estômago já estava cheio de escarola com carne com palmito e com marisco.
Tudo isso embrulhadinho dentro de uma empanada do seu Guaton, lá na Arthur de Azevedo. Tinha sido um ótimo jantar. Eu, acompanhado de mim mesmo.

Já vinha voltando pro meu escritório, bem calminho e tentando espremer as últimas gotas de um Flash Power que não queria sair da lata. Então eu vi. Estava na padaria, ao lado. Não pensei e entrei - com o pé direito -.

Era ela mais branca que leite condensado. Seus cabelos eram tão escuros como a noite e seus olhos, fundos e sombrios. Usava uma sandália bege, barata e tinha os dedos do pé pintados com uma tinta vermelha-sangue. Vermelha como a carne que saltava de seus dedões, fruto da incompetência de alguma cabeleireira metida a manicure.
Ela era muito mais magra que você pode pensar em imaginar. Seus braços pareciam duas varetas e suas escápulas pareciam asas.
Asas. Tudo levava a crer que era um anjo que havia pousado na padaria pra tomar um café e, em suas costas, a tatuagem de um “A” alado. Definitivamente um anjo.

Fiquei parado por alguns segundos, atônito, esperando que simplesmente fosse notado por ela. Ao seu lado, uma morena magra sem nenhuma importância ou beleza. Era tão feia como um poodle. Prefiro nem tentar lembrar daquela presença desagradável. Se bem que tudo se tornava desagradável e sem importância em sua presença.

Minha barriga doía de tanta coisa no estômago, mas mesmo assim resolvi beber e conseguir desculpas pra ficar sonhando acordado. Entre um gole e outro de suco Xandô, via nela um futuro no céu, um furo nas nuvens, mas minha introspecção não me permitiu que a pegasse em meus braços, a jogasse no chão e rolasse com ela sobre aquele chão forrado de sangue de rato, para ser levado ao paraíso com minha musa-de-hoje.

Levantei, terminei meu penúltimo gole no suco, me vi em seu espelho ocular e dei cinco passos em direção à porta. Os três últimos me fizeram virar à direita e parar, parar pra ela. Esperar por ela. Esperar por um final feliz.

Ela sai, não olha pra mim e vira à esquerda.
Respira, pega na mão do cachorro e anda.

Tomara que a carrocinha leve as duas.

Um comentário:

Anônimo disse...

Veja bem meu amigo. Existem certos encontros que mais parecem uma provocação do que uma oportunidade não é mesmo! Asim vamos contabilizando decepções. E também né, o que você esperava depois de ter se entupido com empanada de escarola com carne, com palmito e com marisco... Fora o que ingeriu de alguma coisa líquida adocicada e ainda resolve meter pra dentro mais alguma coisa num balcão de padaria cujo chão estava forrado de sangue de rato?!!!!
Dê-se por feliz de não ter tido uma congestão, pois creio que Deus livrou-te dando-te um bom motivo para “vomitar”.