
- O senhor pode esperar um minutinho? A Dra. está atendendo e logo te chama, ok?
Que droga de consultório. Venho correndo como um animal pra chegar no horário e ainda sou obrigado a ficar vendo passarinhos enquanto essa mocoronga não me atende.
Cirurgia na boca! Putz... Vou fazer uma cirurgia e não tem ninguém aqui pra ficar me bajulando; bem que podia ter alguém aqui do meu lado só pra eu fingir que estou com medo da tortura e ser acariciado por uma mão leve e perfumada....
- Vem cá meu lindinho. Fica aqui no meu colinho... deixa eu fazer cafuné em você... vem que eu quero te dar um beij...
- Rafael Baltresca
- Ãh? onde? Eu? Cadê a... putz.. sonhando.
- Muito prazer, meu nome é dentista, mas pode me chamar de abre-gengivas. Abre a boca, bem grandão e fica quieto. Faz um AAAAAAAAA pra tia.
- AAAAAAAAA
- Dói?
- Ahã
- E aqui na língua? Dói?
- Ahã
- Vamos ter que dar mais uma anestesia.
- Aiiiiii
- E agora?
- Ahã
- Essa vai ser a úlltiimm... dói?
- nãnã
Crshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Isso mesmo. "Crshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh" foi o barulho que eu nitidamente ouvi quando ela rasgou uns 8 cm de gengiva de Baltresca para tirar um cisto de Baltresca que resolveu nascer embaixo de um dente ainda meu. Sangue, pinças, bisturis, tesouras, mais sangue, luzes na minha cara, pânico da assistente, mais tesouras, mais pinças sujas de sangue, a mão fina da Dra. saindo de dentro da minha boca com algo preto e vermelho e sujo e minutos, minutos e minutos que passam depois daquela última anestesia.
Tudo isso e mais: sem dor.
Não existe num consultório branquinho (que se contradiz a todo instante com os gritos que de lá surgem) coisa mais agonizante do que ouvir, cheirar e degustar aqueles sons, imagens e sabores de carne mal passada sem sentir, em momento algum, nenhuma dor.
É engraçado como alguém pode te ferir sem te machucar... é engraçado como a carne pode ser violentamente estragada enquanto seus olhos são voluntariamente fechados para não ver o sangue que corre entre seus dentes... não vê e não se sente.
Depois de cortes, furos e apertos, as coisas sempre voltam ao normal. Sempre vai haver uma linha pra se...
- Pronto. Acabado. Só falta costurar.
- Costurar?
- Costurar.
Por que a carne não é deixada aberta, ferida, rasgada, ensangüentada para que não seja necessário passar por isto novamente? Se for pra machucar, que seja uma vez só!
Um, dois, três, quatro, ..., dez pontos; ainda sinto a linha fina, preta, pontuda, quando passo minha língua no ferimento... uma linha que teima em brigar contra o corte. Um querendo se abrir para não poder mais se fechar – o corte - , a outra tentando curar o que logo poderá ser aberto novamente – a linha -.
A linha, a lenha... A linha que não pode receber nada quente pra não se abrir. A lenha que precisa de algo quente, pra se aquecer. Pra aquecer...
7 dias de descanso. 7 penosos dias de lembranças...
Nosso coração não se distingue muito de uma gengiva machucada.
Ao longo da nossa vida, as amizades esquecidas, os amores perdidos, a saudade não correspondida, nossas paixões platônicas, nossa vida platônica, funcionam como anestésicos. Elas furam a gente quando não queremos e logo você se acostuma com elas...
As primeiras doem muito e muitos temem em não resistir. Muitos não resistem e são fatalmente mortos por hemorragias de amor.
As segundas picadas são mais amenas, pois, o efeito da primeira anestesia já nos faz entender da onde vem aquela dor, e as terceiras picadas já não são simplesmente suportadas e sim esperadas pelas lembranças das primeiras injeções de tristeza que nos foram fincadas.
A parte ruim são as emoções que vêm após as inúmeras injeções anestésicas de amores mal resolvidos uma vez aplicadas em nós.
Por nosso coração estar ainda anestesiado, podemos não sentir o que vem logo em seguida; bom e ruim! Por estar anestesiados, não nos machucamos com os rasgos até mais fundos que podem nos aguardar, porém, o destino pode nos colocar diante de um grande amor... que por conta das anestesias não sentimos sua intensidade e o deixamos escapar.
É difícil, mas devemos tentar deixar essas picadas anestésicas se amenizarem com o tempo, e tomar cuidado para não sermos picados novamente e novamente e novamente.... mas quem manda no destino chamado Dra. corta-gengivas?
Como devemos nos preocupar? Como devemos enxergar?
Só temo excessivas picadas e rasgos... temo me acostumar com os cortes, as dores, os furos no meu peito, para não perder diferentes sensações que podem talvez um dia tentar nos surpreender...
- Pronto. Doeu?
- Não.
- Tá vendo... essa anestesia é boa mesmo.
- Você vai tomar uma cápsula de Amoxilina de 6 em 6 horas, um comprimido de Cataflan de 8 em 8 horas e um comprimido de Lisador somente se doer, ok? Somente se doer pois este remédio é muito forte.
- Pois não?
- Eu queria três caixas de Lisador e um copo d’água.
- Algo mais?
- Não. Nada mais.
Um, dois, três, quatro, vinte e quatro, vinte e cinco comprimidos.... Coloco tudo no copo.
- Senhor, você não deve...
- Glup'
- Dor? Nunca mais.
Que droga de consultório. Venho correndo como um animal pra chegar no horário e ainda sou obrigado a ficar vendo passarinhos enquanto essa mocoronga não me atende.
Cirurgia na boca! Putz... Vou fazer uma cirurgia e não tem ninguém aqui pra ficar me bajulando; bem que podia ter alguém aqui do meu lado só pra eu fingir que estou com medo da tortura e ser acariciado por uma mão leve e perfumada....
- Vem cá meu lindinho. Fica aqui no meu colinho... deixa eu fazer cafuné em você... vem que eu quero te dar um beij...
- Rafael Baltresca
- Ãh? onde? Eu? Cadê a... putz.. sonhando.
- Muito prazer, meu nome é dentista, mas pode me chamar de abre-gengivas. Abre a boca, bem grandão e fica quieto. Faz um AAAAAAAAA pra tia.
- AAAAAAAAA
- Dói?
- Ahã
- E aqui na língua? Dói?
- Ahã
- Vamos ter que dar mais uma anestesia.
- Aiiiiii
- E agora?
- Ahã
- Essa vai ser a úlltiimm... dói?
- nãnã
Crshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Isso mesmo. "Crshhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh" foi o barulho que eu nitidamente ouvi quando ela rasgou uns 8 cm de gengiva de Baltresca para tirar um cisto de Baltresca que resolveu nascer embaixo de um dente ainda meu. Sangue, pinças, bisturis, tesouras, mais sangue, luzes na minha cara, pânico da assistente, mais tesouras, mais pinças sujas de sangue, a mão fina da Dra. saindo de dentro da minha boca com algo preto e vermelho e sujo e minutos, minutos e minutos que passam depois daquela última anestesia.
Tudo isso e mais: sem dor.
Não existe num consultório branquinho (que se contradiz a todo instante com os gritos que de lá surgem) coisa mais agonizante do que ouvir, cheirar e degustar aqueles sons, imagens e sabores de carne mal passada sem sentir, em momento algum, nenhuma dor.
É engraçado como alguém pode te ferir sem te machucar... é engraçado como a carne pode ser violentamente estragada enquanto seus olhos são voluntariamente fechados para não ver o sangue que corre entre seus dentes... não vê e não se sente.
Depois de cortes, furos e apertos, as coisas sempre voltam ao normal. Sempre vai haver uma linha pra se...
- Pronto. Acabado. Só falta costurar.
- Costurar?
- Costurar.
Por que a carne não é deixada aberta, ferida, rasgada, ensangüentada para que não seja necessário passar por isto novamente? Se for pra machucar, que seja uma vez só!
Um, dois, três, quatro, ..., dez pontos; ainda sinto a linha fina, preta, pontuda, quando passo minha língua no ferimento... uma linha que teima em brigar contra o corte. Um querendo se abrir para não poder mais se fechar – o corte - , a outra tentando curar o que logo poderá ser aberto novamente – a linha -.
A linha, a lenha... A linha que não pode receber nada quente pra não se abrir. A lenha que precisa de algo quente, pra se aquecer. Pra aquecer...
7 dias de descanso. 7 penosos dias de lembranças...
Nosso coração não se distingue muito de uma gengiva machucada.
Ao longo da nossa vida, as amizades esquecidas, os amores perdidos, a saudade não correspondida, nossas paixões platônicas, nossa vida platônica, funcionam como anestésicos. Elas furam a gente quando não queremos e logo você se acostuma com elas...
As primeiras doem muito e muitos temem em não resistir. Muitos não resistem e são fatalmente mortos por hemorragias de amor.
As segundas picadas são mais amenas, pois, o efeito da primeira anestesia já nos faz entender da onde vem aquela dor, e as terceiras picadas já não são simplesmente suportadas e sim esperadas pelas lembranças das primeiras injeções de tristeza que nos foram fincadas.
A parte ruim são as emoções que vêm após as inúmeras injeções anestésicas de amores mal resolvidos uma vez aplicadas em nós.
Por nosso coração estar ainda anestesiado, podemos não sentir o que vem logo em seguida; bom e ruim! Por estar anestesiados, não nos machucamos com os rasgos até mais fundos que podem nos aguardar, porém, o destino pode nos colocar diante de um grande amor... que por conta das anestesias não sentimos sua intensidade e o deixamos escapar.
É difícil, mas devemos tentar deixar essas picadas anestésicas se amenizarem com o tempo, e tomar cuidado para não sermos picados novamente e novamente e novamente.... mas quem manda no destino chamado Dra. corta-gengivas?
Como devemos nos preocupar? Como devemos enxergar?
Só temo excessivas picadas e rasgos... temo me acostumar com os cortes, as dores, os furos no meu peito, para não perder diferentes sensações que podem talvez um dia tentar nos surpreender...
- Pronto. Doeu?
- Não.
- Tá vendo... essa anestesia é boa mesmo.
- Você vai tomar uma cápsula de Amoxilina de 6 em 6 horas, um comprimido de Cataflan de 8 em 8 horas e um comprimido de Lisador somente se doer, ok? Somente se doer pois este remédio é muito forte.
- Pois não?
- Eu queria três caixas de Lisador e um copo d’água.
- Algo mais?
- Não. Nada mais.
Um, dois, três, quatro, vinte e quatro, vinte e cinco comprimidos.... Coloco tudo no copo.
- Senhor, você não deve...
- Glup'
- Dor? Nunca mais.
Dipirona, prometazina e adifenina.
3 comentários:
será que lisador funciona comigo tb ?
Talvez...
Quem é você?
que texto brilhante cara, quem diria que dez anos depois eu estaria aqui lendo isso que resume exatamente o dia de um deprimido que teve de tirar um molar no dentista, hehe
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