terça-feira, 14 de março de 2006

O meu único espectador

"O engolidor de giletes"

Existe um número de mágica chamado "O engolidor de giletes". Este, no meu ponto de vista, é um dos números mais intrigantes e completos da história da mágica. Neste efeito, não existe um espanto inesperado. Tudo é feito da forma mais leve, limpa e calma. Todos os passos são acompanhados pelo espectador. Não há surpresas, tudo é esperado.

Mesmo sendo um número de mágica às avessas do tradicional, onde repentinamente acontece algo inesperado, "O engolidor de giletes" é um efeito mágico que deveria ser vivenciado por todos que quisessem pelo menos uma vez sentir uma sensação mágica realmente forte.

O número se resume em o mágico pegar uma gilete, cortar algo comprovando o seu corte e lentamente inserí-la em sua boca.
Pega-se então a segunda gilete, prova-se novamente o seu afiado corte e repetidamente a coloca na boca; isso é feito por 4 ou 5 vezes e todos os movimentos são delicadamente encenados para a angústia, satisfação e simultânea rejeição do público.
Terminado esse processo, o mágico bebe meio copo d'agua e abre sua imensa boca mostrando que já não há mais nada em seu interior - todas as giletes foram engolidas -.

Não contente, o mágico engole um pedaço de barbante, o mastiga por alguns segundos e começa a puxar o fio de dentro da boca.
Uma, duas, ..., três, quatro lâminas saem uma a uma amarradas no barbante para o delírio e descanso da platéia.

Esta é a forma jornalística de se narrar um clássico da mágica - "O engolidor de giletes" -, mas como eu não levo o mínimo jeito para jornalista, prefiro narrar ao modo Baltresca mesmo...

"O engolidor de giletes"

Pela primeira vez, escreverei um texto mergulhado em sensações. Não vou simplesmente narrar um efeito de mágica, irei executá-lo aqui mesmo, enquanto escrevo.
Hoje, meu laptop será um cenário mágico, meus dedos serão a voz do locutor e você - leitor - será o meu espectador.
Perceba, o meu único espectador.

Separo as giletes. Apenas 4, sensivelmente afiadas, novas, tiradas da caixa.
Encho meio copo com água, ou melhor, farei com um copo de vodka - só pra sair da rotina -
Barbante? Não. Hoje executarei este clássico com um fino, limpo e afiado pedaço de arame farpado.

Primeira gilete. Olho para ela, vejo o meu primeiro amor. Tímida, pequena, delicada. A gilete é suavemente inserida em minha boca. Não existe sensação melhor que esta; minha boca quente a 26 graus, meu coração gelado a 13 graus. Minha boca pegando fogo. A gilete desce como uma gota de orvalho frio nas médias folhas mornas de uma árvore recém nascida.

Segunda gilete. Agora vejo que meu reflexo em suas lâminas é mais forte. Minha vida passa mais rápido na frente daquele brilho, meu segundo amor. É verdade que com algumas imperfeições, mas reluzente e firme. Ela desce como manteiga e logo o gosto se vai.

Terceira gilete. Diferentemente do segundo, meu terceiro amor não permite que meu reflexo se acenda em sua face. A luz refletida é tão forte que ofusca minha vista quase cegando meus olhos que evitam olhar fixamente para este pedaço de metal. Rapidamente e sem pensar, engulo-a, ou sou literalmente engolido, pelo medo de olhar fixamente para esta luz.

Quarta gilete. Meu quarto amor é perfeito. Meu reflexo se acentua ao seu lado. Meu sorriso é esboçado em seu fio, seu cheiro exala em meu nariz, mas não consigo engolí-la, preciso apenas contemplar esta simples gilete que significou tanto para mim. Mas não resta mais saída, num momento de dispersão ela já está pronta para deslizar sobre minha pele interior e se vai...

O sentimento de uma gilete entrando em você e passando ao lado de seu coração é inenarrável; é forte; é verdadeiro. Neste momento me sinto forte, minha respiração está cada vez mais ofegante, minha boca cada vez mais sente o gosto desses pequenos brilhos dentro de meu peito.

Segunda parte do show. Triste momento que deve acontecer. Que sempre acontece. Mas que passa...

Vodka. Preciso de água com gosto ácido.
Quando as giletes se tornam apenas matais dentro de você e perdem o sabor, a vodka serve para acentuar seu gosto que insiste em silenciosamente se apagar. O cheiro da bebida abre seus poros, o gosto abre seus pensamentos e a reação é sempre inesperada.

O líquido desce por minha garganta, esbarra nas paredes dos alumínios [que começam a cortar a carne] e se vai. Alívio imediato, gosto imposto, vodka.

Terceiro passo. O fim se antecipa.

Engulo cuidadosamente algumas dezenas de arame para apanhar as pequenas de volta. Dez, vinte, trinta centímetros de arame farpado é inserido em minha garganta e logo são aguardados 27 segundos. Num gesto de covardia, as lâminas que quase faziam parte de meu corpo serão silenciosamente retiradas da carne.

Puxo o barbante de aço.

As lâminas sobem.
As lâminas sobem lentamente.
As lâminas sobem lentamente como se deve subir.
As lâminas sobem lentamente como se deve subir e começam a cortar minha garganta.

A vodka remanescente arde o corpo que a pouco estava acostumado com o frescor das faces geladas dos metais. E arde, arde, arde, machuca, dói.

Quanto maior é meu desespero para puxar o arame, mais as giletes dançam sobre minhas cordas vocais e se prendem em minha carne. O desespero é cada vez maior, tento enfiar mais o arame para ver se consigo soltar a lâmina presa, mas não consigo.
Este ato apenas piora a situação vermelha e quente. Resolvo, com um ato estúpido e desesperado, puxar com toda minha força o pedaço de fio com pontas farpadas. As lâminas saem, mas não da forma que deveriam. Saem inconformadas deixando suas marcas.

A primeira lâmina rasga repentinamente minha gengiva num corte profundo e sem cura. 10 centímetros de sangue escorrem sobre a segunda gilete que sem pestanejar corta o que sobrara de minha garganta.

Agora já não posso mais gritar. Tento, mas o único grito de desespero sai em forma de uma lágrima no olho esquerdo - que desce e para no peito - .

A terceira lâmina se finca no estômago e com o puxão inicial se quebra em 3 pedaços permitindo que apenas a terça parte superior suba até minha boca, para sem piedade, cortar meus lábios, pintá-los de vermelho e enxarcar com sangue o que há pouco permaneciam secos e pálidos.

A última lâmina não resiste ao inesperado.
O arame se rompe e faz com que o quarto pedaço de metal brilhante se solte do fio e despenque verticalmente sobre meu coração que...

Um comentário:

Anônimo disse...

É isso Baltresca...
vi que vc tinha abandonado um pouco
o blog... e agora to cheio de textos
para ler novamente hehehe!!

Mas os mágicos q eu vi fazendo
esse efeito... não se cortavammm!!

Cuidadooo hein?