quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Delícia

- Vai levar champagne doutor?
- Não, só os pãezinhos mesmo.
- Que demora, estava cozinhando aqui no carro.
- Tava pegando pão fresquinho.
- Que cara é essa?
- Hã? Nada.

Ele queria mesmo é falar da angústia que sentia. Angústia de Ano Novo. Normal, sabe? (Normal nada. Nunca me senti assim.).
É. Realmente. Jorge nunca se sentira desta forma. Angustiado, um pouco deprimido e com um pouco de cólica resultante de um peru de Natal mal cozido, o Rony. (Lá em casa a gente tem mania de apelidar o peru. Coitado do Rony.)

- Comprou Coca-cola?
-
- Comprou Coca-cola?
-
- Tô falando com você. Volta pra Terra.
- Hã? Comprei pão sim.
- Que pão? Onde você tá com a cabeça, Jorge?
- Ahh Silvia, sei lá. Normalmente eu fico assim no ano novo. Não sei explicar, mas ando pensando demais. Pensar não deve ser muito bom pra cuca, não.
- Pensando em quê, amor?
- Pensando na vida. Pensando em tudo que fiz nesse ano, e, principalmente no que deixei de fazer.
- Posso lavar o vidro chefe?
- Pode. Esse ano eu vou fazer diferente. Prometo.
- Ahh, mas isso você fala todo ano, paixão.
- Eu sei, mas este vai ser diferente. Juro por Deus!
- Tá pronto chefia. Dá uma ajudinha 'pá nóis'.
- Não tenho nada.
- Como não tem cumpadi? Como é que...

O farol abrindo:

- Bom ano pra você. Depois a gente dá uma força.

Franciscleidison, o flanelinha, desejou um 'Vai se foder seu filho da puta dos infernos. Desejo que você morra queimado num incêndio na cozinha com essa vagabunda da sua mulher.', mas apenas disse:

- Bom ano pra você também.

- Entende amor? É uma vontade de fazer tudo diferente do que venho fazendo. Estou decidido.

E realmente ele estava.

- Decidido mesmo.

Plenamente decidido.

- Bem decidido.
- Amor, você já disse três vezes que está decidido.
- Eu sei, mas se esse babaca desse narrador parar de se intrometer no meio, eu consigo terminar uma frase. Assim fica impossível para o leitor entender alguma coisa.

Ok. Desculpe.

- Desculpe a puta que o pariu! Agora termina a história seu viado de merda.

Não, termina você.

- Eu não falo mais bosta nenhuma. Não quer falar, sabichão? Fique à vontade.

Tá bom, desculpe. Pode falar.

- Ai amor, ele pediu desculpa.
- Desculpa o cacete. Tá do lado dele, é? Vai lá, então, narrar o final da história.

Agora eu gostei. Come on, baby.

- Se tocar nela eu te mato, desgraçado.

Ok. Hello sweet. Intenso prazer. Eu sou o narrador.
Olá, sou Silvia.
Bom, onde estávamos?
Estávamos falando que Jorge resolveu mudar seus atos, suas promessas para 2007.
Ahh sim. E quais seriam essas mudanças?
Sei lá, você não é o narrador? Diga você?
E você veio aqui pra quê, vadia? Pra me encher o saco? Volta pra cena.

- Olha como você fala com minha mulher, seu porco. Vou enfiar essa Coca-cola no seu cu.

Cuidado com essa boca.

- Cuidado porra nenhuma, se eu te peg...

E por alguma força divina, Jorge perdeu a voz.

- hmmm hmmm hmmm hmm hmmm hmmm hmmm
- hmmm hmmm hmmm hmm hmmm hmmm hmmm
- hmmm hmmm hmmm hmm hmmm hmmm hmmm
- hmmm hmmm hmmm hmm hmmm hmmm hmmm

E além disso, Silvia começou a se despir e mostrar-se nua para os pedestres.

- Ai meu Deus. Por que estou fazendo isso?
- hmmm hmmmm hmmmm
- hmmm hmmmm hmmmm
- hmmm hmmmm hmmmm

ahã.. pigarreou o narrador, digo, pigarreei eu.
Voltando. E Jorge realmente resolveu mudar de comportamento. Decidido!

Antes, ele prometia que freqüentaria uma academia, mas nunca cumpria a promessa.
Agora, ele prometeu que nunca pisaria naquelas 'gyms' na vida.

Antes, ele prometia que faria uma faculdade de verdade, mas nunca cumpriu.
Agora, ele prometeu que continuaria sem saber ler e escrever pra sempre.

Antes, ele prometia que pararia de fumar e apenas beberia socialmente, mas nunca cumpriu.
Agora, ele prometeu que fumaria umas coisas mais fortes, coisa de macho.

Realmente Jorge mudou.
Agora ele cumpriu absolutamente tudo que prometeu. Admiro esse rapaz.

Ah, não posso me esquecer.
Antes, ele falava que tinha alergia de homem. Hoje...

- hmmmmm hmmmmm hmmmmm hmmmmm hmmmmm
- hmmmmm hmmmmm hmmmmm hmmmmm hmmmmm
- hmmmmm hmmmmm hmmmmm hmmmmm hmmmmm

Sabe, Silvia, se eu fumasse, acenderia um cigarro agora.
Delícia.

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