sábado, 3 de maio de 2008

Copo de água. parte 2.

Num boteco, ela e ele batiam um papo-furado:

Ela: - Você é bom, fazer o quê? Seus textos são perfeitos! Mas não é para se gabar.
Ele: - Não dá para não se gabar. Ainda mais com um elogio desses. Me dá um tema e eu escrevo um texto para você.

- Ai, adoro isso. Deixe-me pensar. Copo de água.
- Copo de água? Simples, né? Torna tudo mais complicado. Adoro.

- Eu sei que você gosta.
- Vamos misturar? Acho que vai dar samba. O que é a coisa mais insana, nojenta e deplorável para você?

- Mais insana, nojenta e deplorável? hum.... Que tal pensar nas coisas que geralmente as pessoas só têm coragem de fazer sozinhas, muito bem trancadas em um quarto?
- E se fosse algo que você só tem coragem de fazer sozinha trancada em um quarto? Acho que seria bem mais insano, não?

- Tonto.
- Acho que você está com medo.

- Não estou com medo.
- Pegou na ferida, é? Adoraria escrever sobre uma loucura sua.

- Ferida? não. Uma loucura minha? Por que você não me diz qual loucura minha que você imagina?
- Ah, não. Aí só teria graça para mim. Vai, vamos brincar. Vai ser bem interessante.

- Brincar? Você é quem vai se divertir.
- Última tentativa. O que é que você não conta para ninguém?

- O que eu não conto pode fazer com que as pessoas deixem de crer que sou uma anjinha.
- Anjinha, claro. Com auréola e tudo mais.

- Só me faltam as asas, pois a cara eu já tenho.
- Faz-me rir.

- Adoro fazer as pessoas rirem.

Despediram-se como de costume. Ela se levantou e lentamente se dirigiu ao carro. Ela sabia como provocar suspiros. Do manobrista ao dono do bar. Olhou no espelho e retocou sua maquiagem. Mas depois se arrependeu; estava voltando para casa.

Ele resolveu ficar mais dez minutos no bar. Pediu outra caipirinha e saboreou gota por gota, sem pressa.

Ela chegou cedo em casa. Quase 21h30. Ainda no escuro, trancada em seu quarto, ligou seu computador e iniciou sua maior paixão: Escrever. Escreveu sobre a vida, seus amores, escreveu sobre o amor. Escreveu como via o mundo e como amava a natureza. Escreveu sobre sua mente limpa e seu doce olhar. Escreveu sobre suas paixões eternas, também. Escreveu.

Mais tarde, depois de tudo escrito, caiu em um choro desesperador. Correu para o banheiro e vomitou compulsivamente.

Vomitava por tantas e tantas mentiras escritas. Talvez, a coisa mais insana, nojenta e deplorável para ela fosse sua própria vida, que, através de textos inventados, tentava modificá-la de algum jeito. Daí o medo de contar qualquer detalhe para um estranho.

Limpou sua boca suja de vermelho e amarelo na toalha seca e voltou ao computador.
Olhou para a tela, releu seus textos, e gargalhou. Gargalhava como uma criança de três anos ou como uma velha de sessenta e três que vê a vida passar por sua mente em segundos.

Gargalhou, mas só deu aquela piscadinha depois de beber um copo de água gelada.

Ele, olhou para o copo quase terminado, mordeu um limão e disse:
- Garçon, traz mais uma.

Um comentário:

Anônimo disse...

hauHUAUAAUhAHU