Estava zapeando a minha tevê na semana passada quando vejo um dermatologista falando sobre calvície. Na realidade, nunca me preocupei com isto. Além de eu ter uma juba que, se eu descuidar, faz inveja para o rei da floresta, não me lembrava se alguém da família havia perdido os cabelos antes da hora. O fato é que o especialista explicava bem os fenômenos. Tinha uma didática boa, leve. Decidi ficar no canal.
A propaganda, realmente, é a alma do negócio. Depois de cinco minutos, já estava preocupado com o futuro de meus fios cabeçais. Imaginei-me careca de um lado, de outro, com umas entradas ou, talvez, completamente pelado! Lembrei-me de meu plano de saúde e passei o olho no manual do convênio. Sim, eles cobrem consultas dermatológicas. Não hesitei. Tirei o telefone do gancho e marquei um bate-papo sobre o futuro do meu cabelo.
Cheguei na hora marcada. De banho tomado e sem gel - para não atrapalhar a consulta. Subi lentamente as escadas do consultório tentando imaginar o que poderia acontecer:
- Pior não fica. No máximo um xampuzinho medicinal e já estarei tranquilo para sempre. Pensei.
Minha conversa com a Dra. foi rápida. Creio que em menos de quinze minutos já estava analisado pelas suas mãozinhas rápidas. Ela pensou, sentou-se e disse:
- Até que não está tão mal. Vou te receitar dois remedinhos. O primeiro é para, depois do banho, pingar quinze gotinhas no couro cabeludo e espalhar com os dedos. O segundo você toma antes de dormir.
Pingar quinze gotinhas? Tomar um comprimidinho? Moleza! A coisa foi mais simples do que imaginava. O problema foi a resposta de minha próxima pergunta:
- E eu faço isto durante quanto tempo? Uma semana? Duas?
- Bom, o tratamento é para sempre. Se você parar de aplicar o medicamento o problema volta - disse ela sem um pingo de vergonha na cara.
- Para sempre? - perguntei. A Sra. está me dizendo que vou ter que pingar quinze gotinhas e tomar sei lá o quê para sempre? Senão meu cabelo volta a cair?
- Não foi isso que eu disse. Te expliquei que, se você parar de aplicar, ele pode cair. Pode! - disse ela, passando a mão sobre sua juba de leão.
- Ok. Disse. Levantei-me e saí.
Desci degrau a degrau muito lentamente. Imaginava-me à noite, destilando gotinhas na cabeça antes de dormir. Pensava como seria interessante num motel, por exemplo, sair da ducha quente, enxugar-me e pingar gotículas no couro cabeludo. Sentia como seria sufocante repetir esta rotina nos próximos 21.535 dias de minha vida.
Cheguei em casa, contei a piada para minha mãe e fui obrigado a tomar uma decisão: mantenho-me cabeludo com uma obrigação diária para sempre ou desisto do tratamento e mergulho na incerteza de ficar careca?
Olhei para o espelho, imaginei uma supertesta brilhante ocupando toda a minha cabeça e pela primeira vez notei como eu ficaria simpático cem por cento calvo. Porém, pensar nisto não é trabalho para mim. Vou deixar o destino com esta preocupação diária.
Rasguei a receita e saí pela porta. Sem nenhuma preocupação, pois, como dizem as más linguas, quem se preocupa muito, o cabelo cai.
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