quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Histórias de quinta à tarde

Saiu nos jornais: "mãe joga filha no rio", "pai espanca garoto de 8 anos", "gangue assalta banco. 3 mortos.", "filha mata pais à paulada", "corrupção no governo - esquema mensalão", "juiz aceita propina".

O Brasil não tem mais jeito! Só tem sem-vergonhas nesse país! Onde iremos parar? Esse povo não tem ética!

Mentira! Mentira! Mentira!
Mentira de merda!

Os jornais, além de tudo, são feitos para mostrar desgraça. Desgraça dá ibope! Desgraça gera comentários quando a gente vai lavar a calçada e avistamos outra patroa do outro lado da rua.
Que graça seria o seguinte diálogo:

- "Bom dia!"
- "Bom dia!"
- "Você viu ontem no jornal? Um rapaz pegou emprestado R$ 10.000,00 do banco e pagou com juros e tudo!"
- "É! Eu vi. E o outro que viu o filho se drogando e resolveu cortar a mesada dele!"
- "Ééééé"
- "Ééééé"

Que diálogo ridículo!
É pra isso que serve o noticiário. Pra fazer a gente ter mais assunto de manhã, mas eu decididamente não estou aqui pra falar de telejornais... estou aqui pra defender o povo brasileiro, que ao contrário do que todos e tudo dizem por aí, é um povo bom, ético e justo.

Aconteceu uma vez.. eu achei estranho.
Aconteceram duas vezes.. ah não! Só pode ser verdade. Resolvi publicar.

Eis as duas histórias que marcaram momentos pacatos de uma vida nada pacata. Histórias simples, mas com uma profundidade especial. Coisas que ninguém acreditaria que pudessem acontecer, e talvez por ninguém acreditar que aconteça, mais delas continuam escondidas... sem acontecer.

História 1: Pipoca depois do teatro.

20h00: Acabei tudo o que tinha que fazer. Sexta-feira e eu aqui - sozinho - Yeca! Esse mundo precisa de mim. não posso ficar aqui e nem dormir... hummm teatro! Isso! Teatro!
Ir ao teatro sozinho, por incrível que pareça, é bom. Sair sozinho de vez em quando é ótimo pra saúde mental. Você pensa um pouco, reflete, pensa mais, reflete mais, come qualquer porcaria, ou come uma comida caprichada, toma caipirinha, ou água, fala com um pessoal, não fala com ninguém... sair sozinho não tem regras! Nem pra ir, nem pra voltar, você não faz absolutamente nada pensando na outra pessoa. Faz pra você e por você.

Bom, o teatro estava uma porcaria [Ô peça ruim. Texto ruim, atores ruins, cadeiras ruins. A única coisa boa daquele dia era eu; eu e minha modéstia.] mas eu estava bem comigo. Foi bom ter umas reflexões pré- e pós-peça... um monte de gente esquisita entrando no local

[Desculpe-me, mas eu não posso deixar de ser sincero! Ô povo esquisito esse que faz teatro... acho que eu estava um pouco diferente deles naquele dia; devo ter assustado os bichinhos... Eles: metade da cabeça raspada, metade com sei-lá-o-quê, chinelo, piercing no pescoço, tatuagem no nariz, sobrancelha verde. Eu: calça social, camisa social, sapato social. Mas eu não ligo, fui só fazer uma social mesmo...]

Quando eu saio, avisto uma coisa vermelha de um lado, branca do outro, dois braços e uma luz em cima. Não, não era mais um esquisito do teatro, era a barraquinha de pipoca! E que pipoca! Pipocas quentinhas, doces, salgadas... uma delícia! Abro minha carteira e tudo o que tinha dentro era uma folha de cheque! Putz. Eu não vou pagar uma pipoca com um cheque. Eu posso ser doido, mas não tanto, e além disso, faltava ainda pagar o estacionamento.

Penso eu: "Tento comprar fiado ou vou pra casa com vontade?"
Respondo pra mim mesmo: "Vou embora, claro... peraí, estou sozinho e não tenho nada do que me envergonhar..."

- "Moço, será que eu poderia levar uma pipoca e te pagar outro dia? Eu prometo que pago."
- "Fiado num posso. Num dá não!"
- "Mas eu pago. Eu juro!"
- "Fiado num posso. Num dá não!"
- "Bom, ok. Tchau"

- "Ô menino! Volta aqui... eu num posso não, mas eu vô fazê prucê"
[sorrisos] - "Legal! Valeu mesmo! Obrigado. Pode ser a doce?"

História 2: Carro dentro, carro fora

17h30: Consulta marcada para 17h30 [minha cirurgia gengival que já foi narrada aqui], chego na rua Pará, travessa da Angélica, entro no estacionamento.

(( Vallet Parking - Estacione aqui ))
- piscando piscando piscando -

- "Bom dia"
- "Bom dia"

Olho pra dentro da minha carteira. Nada de cheque, já tinha usado a última folha com o pipoqueiro!
Hummmm
Cartão! Sim! A minha salvação! Um cartão de débito! Nenhum real, mas um cartão!

- "Vocês aceitam cartão?"
- “Não”
- “Mas esse é de débito, ó! Debita na hora!”
- "Não é isso não. A maquininha quebrou"
- "Putaquepariufudeuagoraferrôaimeudeusquemerda"
- "Pode deixar. Estaciona. Eu pago do meu bolso e outro dia você paga."
- "Quê?"
- "É. Vai pro dentista. Outro dia você paga!"
[Pasmo]

Histórias verídicas! Acredite se quiser.
Depois do estacionamento, minha visão do Brasil mudou. O povo é solidário, o povo acredita no seu semelhante.
Duas provas simples, porém grandiosas em sua essência. Isso me tocou profundamente. Existem almas caridosas no Brasil que merecem meu respeito.
Chega de falar mal desse povo pelos jornais!
Chega de julgar tudo e todos pelos atos de alguns.
O Brasil é feito de gente assim. Simples, porém éticas, solidárias e que acreditam em seu povo.
Tem coisa mais bonita que o ato daquele pipoqueiro? E o homem do estacionamento que tirou de seu bolso para ajudar um cidadão? Isso é bonito! Isso é puro!

Isso é do que eu com orgulho, digo: Meu povo brasileiro! Brasileiro como eu! Que tem verde e amarelo no sangue!

...
...

Se eu voltei lá pra pagar o pipoqueiro e o estacionamento?
Eu não! E nem vou voltar. Eu quero que eles vão à merda!

7 comentários:

Anônimo disse...

Baltresca,

Muito boa a historia,
realmente jornal, principalmente
o JN eh soh desgraca o tempo todo.

Agora com a chegada da Copa
isso vai diminuir um pouco
e iremos ouvir falar de futebol
todos os dias, o dia inteiro.

Alias meu proximo texto do blog
eh sobre o patriotismo do Brasileiro.

Porque o bom do Brasil sao os Brasileiros e Brasileiro nao desiste nunca. Mas nao sabe nem cantar o proprio hino..
Aposto que dois hamburgueres alface queijo molho especial cebola e picles num pao com gergilim, eles sabem.

=D
Eh isso ai... abracoss

Anônimo disse...

Escuta aqui, cara!

Se você não pagar o nosso o nosso associado até o sábado, iremos aí resolver pessoalmente esse assunto!

Ass.: Os 3598 associados do Sindicato dos Vendedores de Pipoca em frente ao Teatro (SIVEPIFT)

Anônimo disse...

Como você consegue dormir devendo para um pobre pipoqueiro?
Estamos profundamente decepcionados com você!


Ass.: Os 186.993 ex-integrantes do Fã-Clube Baltresca...

Anônimo disse...

Olha só, o Baltresca tem um blog também! haha

Gostei da sua mensagem: 'A melhor certeza: "Tudo passa" A pior certeza: "Tudo passa"'

A história do estacionamento parece lenda, sério. Você pelo menos pagou o pipoqueiro e o cara do estacionamento depois?

Anônimo disse...

Bandido!
Volta lá e paga o pipoqueiro!
agora!

Anônimo disse...

Caro moço,
Continuo na porta do teatro, espero que vc volte para me pagar!

Anônimo disse...

Ae o pilantra, perdi minha caixinha do dia, quase fui mandado embora, não levei flores para minha esposa e isso pq eu tive que pagar o seu estacionamento.

Se te cruzar na rua, furo o pneu do seu carro e ainda corto seu cabelo!!