domingo, 14 de maio de 2006

Sonhos

"...
Há um mês atrás, aconteceu algo que eu nunca imaginaria que poderia acontecer. Estava fazendo um show em Minas Gerais, mais precisamente na cidade de Ouro Preto, me preparando para entrar no palco, arrumando os últimos detalhes, quando, sem mais nem menos entraram 5 pessoas encapuzadas, cheirando acidamente mal, todas vestindo um terno branco, limpo, impecável, e começaram a me amarrar.

Enquanto duas me puxavam e tentavam amarrar meus pés, as outras três cuidavam de meus braços, que desesperadamente tentavam se soltar. Cinco minutos depois, eu estava totalmente amarrado, sangrando e com uma fita prateada em minha boca quase me sufocando, não fosse pelo nariz que ainda estava livre para respirar.

Um dos encapuzados - ou melhor, uma delas - retirou o que tampava seu rosto, trocou sua roupa branca por uma preta, roubou minhas meias, meu sapato e sem mais nem menos entrou no palco em meu lugar.

De baixo do palco, eu poderia ouvir claramente:

- "Boa noite Senhoras e Senhores, meu nome é Rafael Baltresca e é um prazer estar com vocês..."

Além de ser opimido, mal-tratado, amordaçado, ainda estão fazendo o show em meu lugar! Onde iremos parar? Onde?
Enquanto o show acontecia, os 4 elementos que ficaram comigo jogavam sinuca e bebiam Martini estupidamente gelado com muitas cerejas. Ainda sinto o gosto doce daquela bebida.
Durante quase duas horas jogamos onze partidas e só consegui vencer a última, por 2 pontos de diferença. Que alegria!
Já estava ficando tarde, a noite estava fria, seca e eu não conseguia encontrar o único copo de leite que eu jurava que estava na geladeira. Comi tudo e mesmo assim continuava perdido naquele labirinto de espelhos.

Ela voltou do show, triste, me deu um beijo de boa noite e dormiu. Ainda sinto o gosto daquele beijo. Beijo com Martini e cereja.
Enquanto isso, nossos três filhos brincavam na cozinha, ao lado de um grande lago de areia no parquinho. Eles se divertiam como se fosse pela primeira vez que eles estavam nadando naquele mar. E era! Era a primeira vez que eles visitavam um cemitério de verdade, com flores, coelhos e cartolas. Essa noite, eu chorei. O dia em que morri.
..."

É difícil descrevermos o que acontece num sonho.
Muitas coisas vêm, muitas coisas vão e quando se percebe, o cenário é outro, as pessoas são outras, tudo muda.
Num sonho, nosso cérebro processa milhões de informações e apenas alguns minutos podem ser suficientes para acontecerem anos e anos de ações. E cada detalhe, cada momento, mesmo que seja o mais absurdo possível, são vivenciados por nós da forma mais real que se pode imaginar.

Já pararam para pensar como é o amor?
Estamos quietos, parados, com vários planos, intenções mirabólicas sobre nosso futuro profissional, pessoal etc. Aí então alguém aparece em nossa vida e em meses, dias, ou mesmo minutos, sua vida é outra. Você olha as pessoas com outros olhos, se torna uma pessoa mais generosa, mais saudável, mais ciumenta.
Seus valores são aguçados, seu humor também. Agora você se vê mais forte e já se sente bem cantando para 50 pessoas num karaokê! Seu gosto musical muda também. Agora além de Rock, você aprende a gostar de samba, o som preferido dela. O que você tentava e tentava fazer a anos, sempre vencido por sua preguiça é feito em dias. A preguiça acaba.
Após algum tempo, porém, ela se vai. E você vai junto.
Você se culpa por cada detalhe que você mudou e tenta mudar novamente, mas não dá! Você já foi contaminado por coisas boas, ruins e estranhas. Agora você não é nem mais do primeiro, nem do segundo jeito. Você é um ser diferente.
Neste instante você promete a si mesmo que nunca mais fará isso, ou aquilo; e depois, faz e desfaz.

O amor faz a nossa vida virar de ponta cabeça, faz real o que sempre foi imaginação e transforma em imaginação o que parecia real. O amor dá um nó no seu peito e achata sua cabeça. Comprime seu cérebro e prova que não é impossível tornar o possível menos real do que ele sempre será para quem não acredita nele. O amor faz sua vida perder o rumo, com muito sentido. Faz você ser amordaçado no início da manhã e brincar no parquinho com seus filhos dentro de um lago de areia, no meio da cozinha. Isso mesmo, ele te faz ver miragens, milagres, sonhos...

Ele te coloca dentro de um mundo de fantasias onde ninguém mais sabe o que é a realidade. Ou será que o amor te trás para a realidade te tirando de um mundo de fábulas, onde A+B = C?
Perguntas... sem muitas respostas.
Ou talvez muitas respostas sem as perguntas certas.

Sonhos...

5 comentários:

Anônimo disse...

Quinze de maio

Ontem eu não pude te ver
Porque na avenida
Desfilava o medo
Soberano,
O samba enredo
Evoluía tristemente
Numa ala o PCC batia
Na outra a PM respondia
E minha gente
Desesperadamente fugia
Se trancava, se escondia
Do perigo latente
Enquanto a casa caía
Uma fiel credulamente
Rezava a ave-maria
E no meio da guerrilha
Rompia a bala fria
A ternura da carne quente

Ontem ninguém pôde
Permanecer indiferente
Embora muita gente
Se esforçasse
Por dormir negligente
E fingisse
Que a preocupação
Era a divulgação
Da nova escala
Da seleção
Ficou a pergunta presente
Será alguém inocente?

Na São Paulo sitiada
A vida é banalizada
Cotidianamente

Há quem defenda a visão
Que bandido merece morrer
Fuzilado num paredão
Invariavelmente
Há quem queira fazer
Justiça com as próprias mãos
E aguarda na televisão
Carandiru-Segunda versão
Ansiosamente
Assassino de assassino
Não é asssassino então?

As vezes me fica a impressão
Que o crime é a primeira porta
Quando a sociedade diz NÃO
Reflexo da desigualdade
E da nossa exclusão
Ou será que todo bandido
É bandido por vocação?
Eis a minha indagação

Mas ninguém fala do chefão
Do juiz, do deputado ladrão
Que nos bastidores do tráfico
São mandantes da operação

Porém minha única intenção
Em meio a tanto pavor
Era no fim do dia
Fazer uma poesia
Que só falasse de amor

Anônimo disse...

É inacreditável o que surge do encontro casual entre duas almas extremamente criativas...
O Mestre Neil Gaiman, em sua grandiosa versão do Sandman, mencionava os dois portões mitológicos por onde passavam os sonhos. Mas, agora, diante de duas explosões oníricas, nosso amigo Bal e a criatura mística conhecida como Anônimo (identifique-se, criatura, em nome de todos os deuses!), acredito que são milhares os portões abertos para os pequenos sonhos invadirem o mundo dos mortais e crescerem felizes em mentes brilhantes...

Parabéns a ambos (novamente, conjuro-te a dizer seu nome, Anônimo, em nome de todas as flores e fadas da irlanda)!

Anônimo disse...

obs.: O Anônimo de cima, sou eu, o Rasputin, a fênix cega e barriguda... Por favor, Anônimo poeta, identifique-se, eu te ordeno em nome de todos os elfos e vendedores de sardinha em lata!

Anônimo disse...

Amei o poema dos sonhos, muito criativo, viajante mas bem real. Todo mundo sabe
o estrago que o amor faz, o bom é que passa, até uva passa né Bal?
Beijinhos
Elis

Anônimo disse...

Lindu esse conto!
Mas em comentário ao post de cima... não creio que o amor faça um estrago necessariamente, além de todas a sensações intensas que causa, gera também transformações!
Transformação é a palavra!
Beijussss