domingo, 24 de dezembro de 2006

Afinal, é natal!

Enquanto pegava o último saco de sucrilhos da terceira gôndola:
- Papai Noel devia estar atrás das grades.
- Não fala assim John, nosso filho ainda vê nele o símbolo de natal.

John Correia, empurra o carrinho, tentando equilibrar aquele monte de porcarias natalinas que Elza fez questão de comprar há 4 horas da virada (- é só umas lembrancinhas pras molecada, sabe? - São umas lembrancinhas, Elza, são!).

- Elza, o que é natal? Há tempos que eu tô tentando abolir essa palavra do meu dicionário.
- Natal é tempo de união, respeito, amizade, companheirismo, fé.
- Você está enganada, paixão, isso se chama copa do mundo. Natal é outra coisa.

A moça do caixa, de cabelo preto, batom roxo e terríveis sombracelhas postiças (- Tina, muito prazer. É que eu resolvi dar uma mudada no visual. Tina 2007, ninguém me segura!) tenta agradar o casal com um cordial "Boa noite e Feliz Natal, senhores", mas Elza e John estavam muito ocupados tentando convencer um ao outro o que era mesmo o natal. Sem respostas, pegou um a um os itens do carrinho e começou a colocar na esteira, banhada a óleo e farinha de trigo (- Tudo por causa daquele barrigudo de ontem, porco!).

- Me dá arrepios a falta de vergonha na cara desse bando de vagabundos que perdem uma semana antes e uma semana depois pra festejar o natal. Festejar, hunpf. - Esbraveja John.
- Amor, qual o problema em ter um pouco de paz, fé, alegria?
- Eu é que pergunto. Por que é que temos que ter fé, paz, amor e alegria apenas e tão somente dos dias 23 à 5 de janeiro? Agora tem data pra ser justo, honesto e ter fé?
- É, estou começando a concordar com você, mas pelo menos nesses dias nós temos isso, não é?
- Quinhentos e vinte e três reais e setenta centavos.
- Não! O que nesses dias ganhamos com amor, prosperidade e paz, perdemos com hipocrisia.
- Senhor, são Quinhentos e vinte e três reais e setenta centavos. - Diz a moça que já não estava lá tão risonha (- É que ainda tem muita gente pra ser atendida e quero sair mais cedo hoje. É natal.)

- Hã? Ah, tá. Um minuto. - Dá um cheque seu, amor.
- Senhor, não aceitamos cheque.
- Ah não? Ok. - Retirou o cartão de crédito e entregou.
- Desculpe senhor, veja aquela placa: "Aceitamos apenas dinheiro ou cartão de débito."

- Eu não tenho cartão de débito e devo ter uns trinta reais em dinheiro. Vai ter que aceitar o cheque ou fazer um descontão, haha. - Riu ironizando.
- Desculpe, mas eu não posso.
- Puta que pariu! Como não? Cheque é dinheiro! Com cheque se paga tudo. É como se fosse dinheiro. - Começou a gritar aquele que não tinha noção nenhuma de cheque.
- Senhor, só estou cumprindo normas.
- Chame seu patrão, então.

A fila começou a fazer cara feia para os três. Eram quase 21h30 do dia 24 e o espírito de natal estava saindo do controle daquele monte de gente com peru e vinho tinto no carrinho.

- Como assim hipocrisia?
- Quê?
- Você que falou John. Natal é hipocrisia.
- Quando? Por causa da moça do caixa?
- Não, cabeça dura. A gente estava discutindo sobre o que era o natal.
- Ahhh. Tá bom. Como disse, todo mundo fica hipócrita no natal. Esse monte de feliz natal e próspero ano novo é uma baita de uma hipocrisia sem tamanho. O sujeito nunca me viu na vida, ou então pior, nunca foi com a minha cara, aí vem, me dá um sorriso esbranquiçado e solta um "Feliz Natal! Próspero Ano Novo". Próspero ano novo os infernos pra ele! Te desejo um cacete, isso sim. Pelo menos, é um cacete honesto.

- Sabe Elza, isso me parece aquele 'bom dia' de elevador, com a única função de fazer passar o tempo, de quebrar o gelo e nada mais. Natal pra mim é isso, hipocrisia comendo solta pelas ruas e um bando de vagabundos querendo tirar férias.

- Boa tarde senhor.
- Amigo, eu só tenho cartão de crédito ou cheque. Ou aceita ou vou embora.
- Senhor, são normas da casa. Não posso aceitar, mesmo porque, se eu aceitar e o cheque voltar, vou ter que tirar do meu bolso.
- Eu avisei. - Se intrometeu Tina.
- Moço, por favor. - Choramingou Elza.
- Amigo, é natal! Seja bondoso, acredite na boa vontade das pessoas, entre no espírito natalino, seja solidário, acredite nas pessoas. - Soltou John, fazendo cara de Noel, enquanto Elza fazia cara de interrogação e exclamação, seguidas.

Eles se entreolharam com certo respeito interrogativo e um leve sorriso.

- Você tem razão, é natal! - Relaxaram.
- Hoje passa, Tina. Pode tirar aquela placa dali. Hoje, mas apenas hoje, aceitaremos qualquer forma de pagamento. Menos fiado.
Agora sim. Todos riam juntos, enquanto Tina embalava os últimos itens da família Correia.

E a noite terminou desta forma. Todos felizes, satisfeitos, solidários, fraternos, sem discussões, compras feitas e exatamente oito mil, quatrocentos e quarenta reais distribuídos em 27 cheques sem fundo nas mãos do gerente, inclusive um de Quinhentos e vinte e três reais e setenta centavos, assinado por Elza Correia.
Mas Elza não ficou com a consciência pesada, pois afinal,
É natal!


Aproveito o ensejo para desejar um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo para você e para toda sua família, que eu não tenho noção de quem seja. Mas mesmo assim eu desejo, pois afinal.
Já sabe, né?

Um comentário:

Anônimo disse...

Hahahah... Eu concordo que a maioria das pessoas não sabem mais nem o que é natal.. Mas tem algumas não merecem ser incluídas!
Tem gente que ainda sabe dar valor o ano todo a coisas que não são materiais, presentes, dinheiro, e todas essas falsidades e etc..
Tem gente que dá muito valor a um 'feliz natal' mesmo que não signifique nada pra outros..
Tb não adianta falar por falar..