terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Jogando dados

(9/12/2008 – 9h25)

Era para ser uma linda história de amor. Desta que faz os homens mais duros se amolecerem e se acabarem em lágrimas no cinema.

Era aproximadamente nove da noite. Ele estava entrando em uma reunião de negócios. Já com a mão na maçaneta, colocando seu primeiro pé na sala, seu telefone tocou. Ele olhou no visor, mas a ligação era privada, oculta. Não sabia quem era:

- Alô.

Falou bem baixinho, para não atrapalhar mais seus colegas. Entrou meio agachado, meio na ponta dos pés, até que ela respondeu:

- Oi.

Apenas no "Oi" dela, em uma fração de segundo, já deu para ver que a chamada não era de negócios.

- Sérgio?

Ele não era Sérgio. E não se lembrava de nenhum Sérgio que poderia estar... bom, o que importa? Ele se virou e foi saindo pela sala, gesticulando com a mão para que as pessoas o aguardassem. A vontade era de simplesmente dizer "Desculpe, não tem nenhum Sérgio aqui. Foi engano.", mas não. Preferiu jogar dados e conhecer o que o destino estava aprontando:

- Olha, não tem nenhum Sérgio aqui, mas eu garanto que sou mais interessante que ele.

Ela riu, demonstrando que não existia um vínculo com o tal de Sérgio que não permitisse as piadas. Primeira jogada: 6 em um dado, 5 no outro.

- Que estranho... acho que eu liguei errado, então.

O tom de sua voz não exprimia nenhuma vontade de desligar. Ela também estava gostando da brincadeira.

- Ligou errado? Claro que não. Você acredita em certo, errado, sorte, azar? Eu, não! Acredito em destino. Todos nascemos com um caminho traçado à lápis. O caminho está lá e as coisas acontecem do jeito que tem que acontecer. Lápis porque é fácil de apagar, reforçar ou reescrever. Você, por exemplo, está com um lápis na mão esquerda e uma borracha na direita. Você pode me dar o seu telefone, reforçar este caminho que ainda é tão suave, ou desligar e apagar uma história que está em suas linhas iniciais...

Não, ele não pensava tudo isso. E nem era tão filosófico ou erudito assim. Ele estava jogando, simplesmente jogando. Agarrou os dados, olhou para ela, e lançou.

- Sua voz é bonita, você fala bonito, deve ser um homem bem inteligente, também. Sinceramente, até que gostei de você, mas eu nem sei quem você é.

Segunda jogada: 5 em um dado, 2 no outro. Havia uma vontade enorme de saber quem possuía aquela voz sensual, inteligente, certeira no que dizia. Por outro lado, ela queria se esquecer de tudo isso. Poderia também ser um bandido, um marginal, um seqüestrador. Com tantas notícias trágicas na TV, era difícil confiar apenas no instinto.

- Vamos fazer assim, disse ele, vou deixar o destino em suas mãos. Se você sentir confiança, ligue-me mais tarde. Se não, simplesmente apague o meu número. Aí conversamos mais um pouco, ok?

Ele deixou os dois dados nas mãos dela, e desligaram os telefones.

Deste dia em diante, durante duas semanas, ele esperava ansiosamente por uma ligação inesperada daquela voz, mas ela nunca mais ligou. Esta pequena história rapidamente virou esquecimento nas mentes daquelas pessoas sortudas que não erraram na jogada, mas não acertaram apenas por não jogar.

5 comentários:

Anônimo disse...

Adorei, Bal! Como todos os outros...

:)

Beijosss

Anônimo disse...

E como acertar se ele não atender ao telefone?

Anônimo disse...

Todo mundo que resolver comentar esse post pode sugerir um final feliz e infeliz...o que acham?

O final infeliz pode ser...
Enquanto ela pensa em não ligar, ele pensa em não atender. Fim da história.

O final feliz...
Ele está vendo uma exposição de arte no Mam e de reprente há um quadro que chama atenção não só pelo que aparenta, mas pelo nome que possui: "Desconhecido".

E ele lembra...Ela está em casa, na varanda, deitada no chão, lendo alguma coisa do amante de Verlaine. Me parece que é Rimbaud. "O tédio já não é meu amor", esse foi o fragmento que a fez lembrar do Desconhecido que podia conhecer...Então ligou...E depois desse dia, as noites passaram a ser bem longas. O medo deu lugar ao outro.

Anônimo disse...

Eu quis dizer de repente...desculpa o reprente...é a pressa.kkk

Anônimo disse...

Paga-se bem? Mesmo? Quanto? kkkk