quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Bomba

Ontem não, mas hoje acordei com uma vontade insana de mudar o mundo. Calma, não é aquele papinho de menina de 15 anos que coloca no MSN: "Eu quero mudar o mundo". Nada disso. Não acordei com vontade de "querer", acordei com vontade de "fazer". E fui.

Acordei cedo e decidi mudar tudo. Agindo de um modo que ninguém, nunca, pensaria em fazer.
Fui de carro. Decidi que o mundo seria mudado através de um celtinha que depois de 2 anos, começa a engasgar.

Nem liguei o som. Estava ancioso por um farol (ou sinal para os cariocas). Tudo o que queria era um farol com um moleque que limparia meus vidros sem pedir autorização para depois pedir algum trocado.
Mas hoje ele não viria até mim. Eu iria até ele, pediria que limpasse meus vidros e lhe daria algumas dezenas de reais.
Por que? Só pra fazer algo diferente. Só pra mudar 0,0001% do mundo de hoje!

Primeiro farol, ninguém; segundo farol, ninguém. Terceiro, quarto, quinto.... Já são quase 10 da manhã e ninguém querendo limpar o vidro...

[trânsito]

Uns 25 carros parados na minha frente... É o farol. Ali! Abro o vidro e grito:

- Ei moleque. Vem cá.

Ele estava limpando o vidro do terceiro carro a frente do meu.

- Ei moleque... Ei! [buzina]

Acabou agora. Não ganhou nada.

- Ei, você! É. Você mesmo. Vem cá! Limpe meus vidros por favor. O da frente e o de trás; Não! Limpe todos!

Ele está correndo.

- [buzina] Onde você vai?

O moleque desapareceu pelas ruas.

Não é possível! Hoje que quero ajudar, ninguém quer ser ajudado; vou atrás de outro.

Décimo primeiro farol...

- Oi. Quero que você lave todos os vidros do meu carro com essa sua água aí.

Ele saiu correndo também.

Que que é isso? Cidade de loucos?
Quando eu odeio esses moleques eles vêm de penca, hoje, que eu os amo, eles fojem. Argh.

Tá bom, esquece essa molecada sem-educação que lava vidro. Vou atrás dos malabaristas de farol (meus amigos mambembes). Pelo menos eu ajudo esses, afinal de contas, hoje eu cutucar o mundo de uma forma diferente!

- Ô menino, será que você pode fazer malabarismo pra mim? A caixinha é alta.
- Ô menina, já que seu irmão está com vergonha, será que você poderia fazer malabarismos com esses limões pra mim?
- Ô tia! cacete! Já que seus filhos são uns mal-educados, será que você poderia fazer qualquer coisa na frente do carro para eu te pagar?
- Por que cargas d´água vocês fogem de mim? O que eu fiz? Só quero dar dinheiro pra vocês!

Vou embora. Hoje não é dia de mudar o mundo. Talvez amanhã.

[farol novamente]

[meninas vestidas com calça jeans, camisetas amarelas, bonés]
[metade segurando uma bandeira, metade entregando panfleto]

panfleto! Isso! Panfleto.

- Ei. Eu quero um panfleto. Um panfleto de cada. Eu quero todos os panfletos que vocês tem... Assim vocês vão pra casa descansar..
- Ô! Vem cá. Me dá um panfleto! Só um.

Merda.
Nem um mísero panfleto eu consegui.

Porque o carro ao lado recebeu um sem pedir?
Eu pedi e não ganhei nada. Que medo é esse?

Desisti de mudar o mundo. As pessoas não querem ser mudadas. Nem o mundo.
Ninguém aceita o novo. O povo quer continuar entregando panfletos pra quem não precisa de panfletos; o povo quer continuar fazendo malabarismos no farol com os mesmos limões.

Eu só queria mudar o mundo, ou pelo menos parte dele.
Só queria ver como o mundo se comportaria com um empurrãozinho pelo lado oposto, mas não dá.

Vou pegar minha namorada. Pelo menos ela me entende.

Acho que vou fazer uma declaração de amor [amor] numa aula de lógica [lógica]. Ela adora.
Quem sabe um presente fora de hora [agora]. Ela adora.

Vamos jantar num restaurante diferente hoje.
Um restaurante de delícias do mar à beira de uma escola de engenharia.

Dançamos ao lado das mesas.
Nos beijamos feito dois loucos apaixonados.
Trocamos confidências e declarações de amor.
Trocamos amor.

Somos então expulsos pois estávamos em um restaurante de família.

É verdade. Eu não tinha visto.

Que tal um restaurante árabe e engolir uma bomba?

O seu mundo eu mudo. O meu, você já mudou.

Perfeito.

Habbibs está ótimo. Me vê uma de chocolate. [bem doce]

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