sábado, 24 de dezembro de 2005

TAM

Esperei por mais de 3 horas para chegar no aeroporto. Conversas, taxis, trânsito, marginal [bela marginal], mala, coloca, peso, check-in e tudo mais.
Cheguei. Eram duas e pouco e eu acabara de chegar.

Última chamada - vôo 0511 com destino ao aeroporto de Pampulha.

- Vamos correr, senão a gente se atrasa.

Estava sentado na cadeira 7J quando olho no meu relógio:

- 21 de dezembro de 2005. 14h51.

O telefone toca.
Eu atendo.

Uma voz suave e melada [como uma mousse de chocolate branco com chocolate ao leite] diz simplesmente "oi". Um oi que exprime muito mais do que um simples oi.
As intenções das palavras normalmente dizem mais do que as próprias palavras... Antes mesmo do "oi" ser dito, milhares de códigos já tinham sido transmitidos. Apenas por um suspiro o meu subconsciente já pôde se deliciar com a emoção passada pelo telefone.

Eu inicio o meu suspiro, transmito sentimentos e com toda vontade, digo: "o,."

- Senhor, é proibido o uso de celulares e aparelhos eletrônicos controlados remotamente enquanto a aeronave se encontra em processo de decolagem.

- Mas é ráp...

- Senhor, é proibido o uso de celulares e aparelhos eletrônicos controlados remotamente enquanto a aeronave se encontra em processo de decolagem.

- O que custa? É um simples O...

- Senhor, é proibido o uso de celulares e aparelhos eletrônicos controlados remotamente enquanto a aeronave se encontra em processo de decolagem.

- Oi, Eu preciso desl...

- Senhor, é proibido o uso de celulares e aparelhos eletrônicos controlados remotamente enquanto a aeronave se encontra em processo de decolagem.

Argh. Odeio processos de decolagens.
Pra que essa mentira toda? Eu tenho certeza que se fosse proibido o uso de celulares enquanto... argh! enquanto essa jossa não sai do chão, eles proibiriam entrar no avião com o celular! Assim como fazem com facas!

Eu quero descer.

Me contento com muito, mas hoje vou ter que ficar simplesmente olhando sua foto.
Abro minha mala de mão, e procuro seu retrato. Aqui não está. Talvez no outro bolso, não. No bolso de trás?
Putz! Me lembrei!

Proibiram a entrada da foto quando passei pelo detector de metais e objetos perigosos. Tive que deixá-la no embarque.
Era uma foto nossa, abraçados. Tirada ao acaso. Sem ela saber que essa seria a pose. Quase um susto!

[Proibido a entrada de objetos que possam ferir.]
[Proibido a entrada de objetos que sejam diferentes do convencional.]
[Proibido a entrada de objetos que sejam diferentes do que o povo conhece.]

Quem conhece?

2 meses juntos? É por isso que vocês são assim. Felizes!
O mundo é infeliz. Logo logo tudo isso passa e vocês devem se tornar um casal normal. Triste.

Eu quero descer.

Voltamos ao avião.

Quero te ver. Quero te ter.
Na minha carteira deve ter uma foto que passou desapercebida pelos guardas; e tinha.
Seu sorriso nessa foto foi esboçado antes de nos conhecer [muito antes], mas seus lábios silenciosamente clamam pelo amor que virá, e veio.

Que dúvida! Decolo ou fico em terra?

Uns me dizem que decolar é muito perigoso, você vôa, vôa, vôa até lá em cima.
O céu não é mais o limite, você passa barreiras e vai além.

Outros dizem que ficar em terra é que é perigoso. Você vê os outros voarem e não consegue sair do chão.
Você corre, corre, corre e se cansa. Uma hora todo mundo se cansa de ficar em terra... E além disso, um avião pode ganhar peso por transportar vidas que se incham a cada momento de alegrias e cair em cima de uma mente que ficou em terra. Em terra. Enterra.

Penso matematicamente [logicamente]. Reflito, ainda logicamente.
Tento alcançá-la mas não posso mais. Não há mais sinal! Ou há [e eu não consigo enchergá-los].

Processo de desembarque pessoal. Arranco a fivela do cinto desesperadamente, atropelo 2 ou 3 aeromoças que estão no caminho e puxo a trava de segurança. Dois comissários tentam me perseguir, mas sou mais rápido. Tudo o que quero agora, é descer.
Os passageiros se agitam. Vejo que metade da tripulação, seguindo meus conselhos corporais, tentam fujir também. Tudo o que quero agora, é descer.

A escada estava quase sendo tirada. Ela se encontrava a uns 40cm do avião, mas eu consegui saltar e me segurei firme no corrimão. Já estava fora! Minha ânsia por ficar em terra estava sendo satisfeita.

Páro na escada.

Vejo aquele monstro de possibilidades iniciando a decolagem.
Vejo meus sonhos indo embora, minha vida indo sozinha para o paraíso.
Metade da tripulação cai da aeronave, metade -1 fica no avião.
E eu, na escada.

Ficar em cima do muro é fácil. Ou você cai, ou você não cai.
Na escada é mais traumatizante. Ou você cai, ou você vôa.

Pensamentos, anústias, sonhos, pesadelos, vidas passadas, vidas futuras, tempo.

Penso com meu cérebro lógico. Não chego a lugar algum.
Penso com meu cérebro emocional [corãção]. Decido decolar.

50% do meu conciente quer que eu fique. 50% quer que eu vá.
Não vejo nenhuma forma de desempate. Nenhum indício.
Coloco tudo [e todos] na balança e tudo continua igual.

50,0000% de um lado [o de baixo]
50,0000% do outro lado [o de cima]

Não sei como desempatar. Não sei como escolher.
Só sei que a escolha ocupará os outros 50%. Isso eu sei.
Mas como escolher?

Talvez ela possa me ajudar.
Procuro a foto dela na minha carteira. Cadê a carteira? Droga! Ficou no avião. Talvez tenha caído.

Salto de volta para a aeronave. As comissárias ainda estão no chão.
Volto para meu lugar e pego a carteira. Puxo a foto do quinto bolso da divisão 11.
Não tenho mais tempo para escolha.

As portas se fecham. O avião decola:

- Senhor, favor manter o assento na posição vertical no momento da decolagem. [decolei]

Aperte o cinto.
O vôo dura em média 100 anos.
Tenha uma boa viagem.

No vôo da Vida-Emoção,
sou controlado por um JOYstick-Paixão.

Nenhum comentário: