Tem coisas que a gente quer se esquecer.
Tem coisas que não quer.
Tem coisas que não dá.
Os dois viviam agarrados numa felicidade que ultrapassava a usual.
Juras de amor, carinhos excessivos e açúcar em calda transbordavam em suas vidas.
Após o casamento, contrariaram a normalidade do destino e a paixão se transformava a cada dia. Se transformava e se potencializava marcando seus corações e seus pensamentos com amor, companheirismo e carinho.
Às vezes penso que o tempo seria o grande responsável pelas lembranças eternas do casal, assim como um pote de picles no vinagre... quanto mais o tempo passa, mais o vinagre tem o sabor de picles e mais o picles se torna ácido, como o vinagre, formando um só gosto, um pote só.
O tempo ajudou, porém as eternas lembranças vieram dos tão intensos momentos que se fixavam em suas mentes de uma forma assustadora. Não se sabia mais quem era quem.
Suas vidas, seus destinos, seus corações se fundiam e se tornavam único. Um único pote de picles no vinagre.
Numa tarde de setembro chuvoso e úmido, aconteceu o que nunca poderia acontecer.
Neste dia, o brilho dourado do sol deu espaço à tristeza e opacidade das nuvens cor-de-carvão.
Veio o destino, sem lenço e sem documento, tirou-a de seus braços e a jogou no leito da eternidade...
Fortes dores no peito alertavam um provável ataque cardíaco do moço.
Durante anos, memórias que nunca seriam esquecidas, se tornavam mais e mais fortes a ponto de quase tornar-se reais. Para ele era real.
A vida nos prega algumas peças e nossos destinos nem sempre são coerentes com eles próprios. Agora, tudo o que ele queria era esquecer.
Esquecer cada sonho, cada cheiro, cada segundo vivido pelos dois.
Não por pensar em apagar momentos inesquecíveis de sua memória, mas por tentar apagar o único sentimento que o incomodava de verdade: A dor do rasgo profundo que havia em seu coração.
Terapias, remédios, divas, divãs... nada adiantou.
Quanto mais ele pensava em esquecê-la, mais ela voltava à sua mente; mais ele sofria.
O paradoxo era doença.
Não dava para pensar em esquecê-la sem pensar em quem seria esquecida. Então, ele se lembrava.
O paradoxo era doença.
Tem coisas que a gente quer se esquecer.
Tem coisas que não quer.
Tem coisas que não dá.
Com o tempo, a dor se fazia presente, única e só era confortada pela lógica do tempo.
O mestre dos mestres dos mestres.
O tempo trouxe a idade e a sapiência.
Mas ele ainda não podia esquecer...
O tempo trouxe os olhos cansados.
Mas ele ainda não podia esquecer...
O tempo trouxe a coluna fraca.
Mas ele ainda não podia esquecer...
O tempo trouxe mulheres, fortunas, amigos.
Mas ele ainda não podia esquecer...
O tempo então trouxe o mal-de-Alzheimer.
Aí ele se esqueceu daquela vadia.
E ela?
Bom, ela ainda tá vendendo potes de picles no vinagre na banquinha do marujo.
ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ marujo véio de guerra!
quarta-feira, 31 de maio de 2006
Picles no vinagre
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6 comentários:
Tem coisas que não
foram feitas para se esquecer!
As vezes nem mesmo com a intervenção
do destino pode-se esquecer.
Ha não ser que seja mal-de-Alzheimer!
rsrsrs
Muito bem!
O refrão parece comercial de plano de saúde.., ou de antiácido!
"Tem coisas que a gente quer se esquecer.
Tem coisas que não quer.
Tem coisas que não dá"
Eu também pararia por aqui...
"O tempo trouxe mulheres, fortunas, amigos.
Mas ele ainda não podia esquecer..."
Mais romântico..
ah... tu te lembras das histórias do programa do didi?... mais ou menos por isso pararia por lá.
Bal
Te gosto cada vez mais
Mas te entendo cada vez menos!
Para mim esse texto deveria ser intitulado “Covardia”. Acho que tudo o que ele tinha era um irremediável medo do que estava por vir. Talvez, medo de morrer, não de viver! Por isso a opção pela morte da memória, afetando o funcionamento mental. Sem pensamento, fala e memória, acabou-se o sofrimento. Tudo deixou de existir. Eu, particularmente acredito que sempre, a melhor opção é viver cada coisa no seu momento e no seu lugar. Que é preciso reviver o sonho e a certeza de que tudo vai mudar. Nunca, jamais, em hipótese nenhuma eu mataria qualquer sentimento de dentro de mim, menos que fosse o de ódio e vingança. Tenho que aprender a sobreviver com todos. Os belos são como manás; Os ruins são como alavancas de forças e de impulsividade de crescimento. O lugar da memória é, pois, o lugar da imortalidade.
O que passou, o que se foi, também me trouxe.
nossa...
esse é aquele q se supera na insanidade, né?
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